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Agricultura sustentável num Mundo 4.0

Na 14.ª Assembleia de Alumni da AESE, João Pedro Rego, da New Holland, abordou o Mundo 4.0 sob a perspetiva da "Sustainable Agriculture".

A agricultura sempre foi um setor de inovação constante, em particular na última década. Com desafios tão importantes quanto complexos, como o alimentar, os recursos naturais, as alterações climáticas e a responsabilidade em face das gerações futuras, quais as principais premissas subjacentes à denominada agricultura sustentável?
JPR: "A tecnologia mais desenvolvida sempre foi a aplicada ao material bélico, sendo que por arraste, alguma desta tecnologia é adaptada e aplicada à agricultura.
A tecnologia aplicada aos sistemas de uma máquina agrícola é bastante complexa, pois um trator com especificações médias possui 6000 a 9000 peças diferentes comparativamente às 4000 peças de um automóvel de passageiros.
No presente, esta tecnologia aplicada nas máquinas agrícolas permite a maximização dos recursos reduzindo os custos de cultura.
No que se refere às alterações climáticas, já se percorreu um bom caminho, estando hoje em dia com a norma Tier 4B presente, o que significa ser necessário ter 180 tratores agora para poluir o mesmo que um trator poluía em 1996. Contudo, a investigação e a inovação continuam, sendo que a New Holland há bem pouco tempo desenvolveu um trator movido a metano.
A população mundial, hoje, é de cerca de 7 mil milhões de habitantes, mas em 2050 estima-se que será de 9 mil milhões, pelo que a produção de alimentos terá de aumentar 70 % com praticamente a mesma área arável existente. Desta forma, será fundamental produzir mais e melhor, sendo que só com o uso de tecnologias e a aplicação de novas práticas agrícolas será possível alimentar o mundo.
Atravessamos uma nova era, plena de desafios apaixonantes e complicados, mas na verdade, quando é que a vida do campo foi fácil? É por esta razão que a New Holland quer estar à altura dos profissionais da agricultura e pecuária, disponibilizando a maior gama de maquinaria do mercado e soluções personalizadas e à medida de cada necessidade, a fim de minimizar o esforço, transformando-o numa notável melhoria do desempenho.
Juntos alimentamos o Mundo!

A Política Agrícola Comum (2014-2020) identifica a inovação como um fator essencial para fazer face aos desafios futuros (e já presentes) do setor, sendo evidente a ligação existente entre inovação, produtividade e sustentabilidade. Como considera o atual panorama agrícola nacional em face desta necessidade de se adotarem práticas agrícolas sustentáveis?
JPR: "A PAC permitiu a estabilização dos preços dos alimentos aos europeus. Nos dias de hoje, os europeus gastam metade em bens alimentares comparativamente com o que gastavam em 1960, sendo que para isso, cada cidadão contribui em média com 30 cêntimos/dia para isto ser possível, de modo a que a Europa possua a melhor segurança e qualidade alimentares do mundo.
Em Portugal, ao longo das últimas décadas, a sociedade desvalorizou a imagem e a profissão do agricultor, considerando-o pobre, rude e envelhecido, desvalorizando igualmente a produção de bens transacionáveis.
Contudo, os agricultores portugueses evoluíram, modernizando-se, passando também a representar uma menor percentagem da população ativa, 6%.
Estes mesmos agricultores são dos melhores produtores a nível mundial (ton/ha). Portugal conta com os melhores produtores de tomate, milho, azeite, vinho, hortícolas e frutícolas.
No que ao mercado de tratores diz respeito, desde 2001, que o parque de máquinas conta com cerca de 130 000 unidades, sendo que a New Holland é líder de mercado há 17 anos consecutivos, muito devido à proximidade junto dos agricultores, tecnologia e inovação apresentada e ao apoio a nível técnico e de soluções."

Quais as principais mais-valias da empresa que representa, a New Holland, tanto no que diz respeito às soluções de energias mais limpas que utiliza na sua maquinaria, como nas próprias máquinas, as quais “trabalham sem parar”? Existe, tal como noutros sectores, a possibilidade de as máquinas “roubarem”o trabalho dos humanos?
JPR: "A New Holland ao longo dos seus 120 anos de história teve diversos momentos que marcaram o mundo da agricultura, sempre se pautando com novos desenvolvimentos de máquinas, sistemas, tecnologias, que contribuíram para uma melhor rentabilidade por parte do agricultor.
No panorama mundial de maquinaria agrícola, a New Holland é líder no uso de energias limpas, com 6000 colaboradores dedicados à área de tecnologia e inovação, tendo-se investido no ano de 2016, 860 milhões nesta vertente.
A tendência atual e de futuro é que as máquinas agrícolas possuam maior potência, permitindo fazer mais hectares por hora, efetuando igualmente mais horas de trabalho, pois os trabalhos noturnos são cada vez mais vulgares em agricultura. A propensão é de haver cada vez menos pessoas a realizar os trabalhos agrícolas que conhecemos, mas é necessário que haja operadores e agricultores que saibam interpretar dados, sinais, informações vitais para que se programem as máquinas nas devidas condições, de modo a que os automatismos destas sejam produtivos e rentáveis."

Na sua opinião, quais serão as transformações que se verificarão na indústria agroalimentar por efeitos da penetração das novas tecnologias digitais que se vem verificando?
JPR: "Na minha opinião, irá haver novas culturas em mercados que não as produziam até aqui, culturas que permitem maior produção e rentabilidade de cultura, haverá novos métodos de cultivo de solo e métodos automatizados de recoleção de culturas. A agricultura de precisão, sendo já um assunto do presente, será replicada pelos campos, sistemas de auto-guiado, cartas de rendimento, condutividade elétrica dos solos, cartas NDVI, aplicação de doses variáveis de fitofármacos e de sementes, máquinas autónomas, entre outros sistemas, que permitirão aos agricultores, terem dados em seu poder facilitadores da tomada de decisão.
Porém, uma coisa é certa. A situação meteorológica não poderá ser alterada, estando a agricultura sempre dependente dela, falando especificamente da disponibilidade de água.
No futuro, os campos serão entendidos como fábricas, bem apetrechados de tecnologia e automatismos na produção de alimentos para a população mundial, cada vez mais crescente."

Entrevista por Helena Oliveira, Editora do Portal Ver

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