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Aprendizagem, adaptação e trabalho de equipa

Na 14.ª Assembleia de Alumni da AESE, o Prof. José Fonseca Pires apresentou o estudo "Pessoas 4.0", desenvolvido em conjunto com a Prof. Maria de Fátima Carioca.

No estudo desenvolvido pela AESE “Mundo 4.0: Pessoas e Organizações”, o que anteveem as empresas inquiridas no que respeita à inevitável automação de tarefas e potencial perda de postos de trabalho?
JFP: "Em termos de antevisão, mais do que certezas, o estudo aponta para uma série de situações em aberto, de grande impacto, e que exigirão a reflexão ponderada dos empresários e colaboradores. Ficam, talvez, mais perguntas do que conclusões...
Em concreto, é claro que todos preveem que a grande maioria das tarefas atuais possa vir a ser automatizada. A verdade é que, mais do que serem automatizadas, muitas das tarefas serão reinventadas, desaparecerão ou ganharão uma relevância diferente e, neste ponto, para todos nós, a incerteza é grande, existindo uma enorme probabilidade de a nossa imaginação ficar aquém do que virá a ser possível.
Simultaneamente, a maioria dos inquiridos tende a considerar que as tarefas que desempenham são menos automatizáveis do que a generalidade das tarefas. Esta é uma conclusão expectável, no sentido de que se trata de uma amostra em que a quase totalidade dos inquiridos (cerca de 90 %) são executivos, isto é, têm funções de governo na organização e responsabilidade de direção de pessoas. Como tal, muitas das suas decisões e ações serão movidas pela prudência e outras atitudes genuinamente humanas e pouco automatizáveis."
Haverá um número significativo de tarefas que será automatizado. Outras tantas que irão desaparecer ou ganhar nova relevância. Necessidade de reinvenção e, seguramente, de uma enorme adaptabilidade por parte dos colaboradores e organizações. Estas são algumas das “quase certezas” do ainda imperscrutável mundo 4.0. Mas, como afirmam José Fonseca Pires e Fátima Carioca, coautores do estudo realizado pela AESE sobre Pessoas e Organizações neste contexto futuro, no meio de tanta ambiguidade, uma coisa parece certa: “o avanço tecnológico e a invasão da nossa vida pela tecnologia faz-nos querer ser mais humanos”.

Que competências e valores foram elencados pelos gestores portugueses como os mais necessários e importantes na força laboral do futuro?
JFP: "Com a perspetiva de um mundo novo cujos contornos não conhecemos com segurança e exatidão - por muito que lhe chamemos 4.0 não quer dizer que saibamos exatamente como vai ser -, o sentido para o qual apontam as competências e valores considerados mais necessários e importantes está relacionado com a sustentação em bases humanas, quer pessoais quer interpessoais, sólidas e com uma enorme capacidade de aprendizagem, de adaptação e de trabalho em equipa.
Perante um mundo que se prevê complexo, com um potencial de mudança crescente, só as caraterísticas próprias de um ser vivo, com tudo o que a natureza oferece de unidade substancial e de flexibilidade adaptativa, podem tornar aptas as pessoas e as organizações para o impacto destes desafios.
Por contraponto à incerteza e complexidade do mundo 4.0, procuram-se os fundamentos e valores basilares – como a dignidade da pessoa humana. E esta procura de referências sólidas conduz, por sua vez, à exigência de vida que as testemunhe de forma íntegra e responsável. Razão pela qual, integridade, responsabilidade e dignidade, acompanhados de uma enorme resiliência, foram os valores mais destacados”.

Que mudanças mais radicais são esperadas na organização do trabalho no futuro e até que ponto estão as empresas preparadas para as introduzir?
JFP: "Os dados do estudo que realizámos para a Assembleia de Alumni da AESE apontam, por um lado, para uma ambiguidade perante as mudanças que já estão presentes na vida das pessoas e das organizações - por exemplo, quanto à importância dos limites na utilização das tecnologias de informação e comunicação fora do ambiente laboral e do impacto que estas têm nos âmbitos social, pessoal e familiar – e, por outro, para uma incapacidade de prever com pormenor o teor das mudanças que se anunciam...
Tendo em conta o estudo, é claro que, em relação ao futuro, uma grande maioria dos inquiridos (mais de 70 %) acredita que as relações laborais passarão a ter como base profissionais independentes em vez de contratados, trabalhando para vários empregadores em vez de um só e realizando esse trabalho em vários locais, ao invés de o fazerem num único local profissional ou mesmo a partir de casa.
Este panorama traduz que, apesar de todos esperarmos mudanças, ainda não temos, porém, a noção de qual será a organização adequada para o futuro. Ainda vivemos num mundo empresarial com base numa organização fabril que certamente pode e deve evoluir.
Perante este quadro, seguramente também as organizações, para se prepararem adequadamente rumo a um cenário tão complexo como o que se antevê, necessitarão de uma forte identidade e de uma muito poderosa capacidade de adaptação."

Que tipo de tendências, em termos de políticas laborais e sociais, foram elencadas como as que de uma maior reinvenção necessitam?
JFP: "De um modo geral, as políticas consideradas como prioritárias no sentido de necessitarem de ser (re)inventadas, foram a formação e o desenvolvimento profissional, a definição de benefícios e incentivos laborais e as políticas de participação e integração.
Esta escolha reflete a necessidade de um referencial de relacionamento laboral diferente em linha com as respostas anteriores, com uma maior contribuição e protagonismo por parte de cada colaborador. Significa, sobretudo, uma maior participação na estratégia, ao nível das funções que desempenha, aliada a uma maior autonomia, flexibilidade e correspondente responsabilidade, bem como acompanhamento na evolução e aprendizagem contínuas.
Tendendo para que a relação de trabalho seja, cada vez mais, uma relação de trabalho “dependente por conta própria”, cada colaborador espera, sobretudo, a redefinição de benefícios sociais mais individualizados, adequados às escolhas de cada um e que, no final, contribuam para partilhar os riscos ao colaborador, associados ao desacoplamento da relação contratual exclusiva e tendencialmente longa.
Aliás, a gestão dos riscos sociais e a partilha dos mesmos pelos diferentes atores (Estado, empresas e organizações em geral, famílias e pessoas) sempre foi e será também agora, o determinante na evolução da sociedade."

Que novos desafios colocará a disrupção digital à ética das atividades laborais?
JFP: "Paralelamente ao estudo com os Alumni da AESE, desenvolvemos, no âmbito da iniciativa “Melhores Empresas Para Trabalhar”, fruto da parceria entre a Impresa, a everis e a AESE Business School, um outro estudo que permitiu olhar e refletir, de forma genérica, sobre o impacto da utilização das novas tecnologias na vida profissional e pessoal dos colaboradores das empresas participantes.
Nesse estudo, talvez a conclusão mais significativa tenha sido a de que uma grande maioria dos colaboradores (70 % da amostra) manifestou uma posição vincada - de concordância ou discordância - com a existência de um horário limite para receber contactos profissionais via email ou por telemóvel. Cerca de 30 % pensam que não deveria haver um limite e cerca de 40 % consideram que deveriam ser impostas restrições.
Curiosamente, neste último grupo, os que consideram que deveria existir limite para receber contactos profissionais via digital e móvel, é maioritária a presença de colaboradores jovens, com funções mais técnicas e operacionais, formação superior, uma grande percentagem de pessoas solteiras e com menos descendentes a cargo. Embora parecendo um pouco contraintuitivo, tal pode significar que este conjunto de colaboradores valoriza bastante o seu tempo pessoal e, para eles, a questão não se coloca apenas no sentido de atender a necessidades familiares.
Ora, quando as gerações mais novas referem que deveriam existir limites em relação à repartição do tempo pessoal e profissional, chegamos a uma conclusão, apenas aparentemente paradoxal, de que o avanço tecnológico e a invasão da nossa vida pela tecnologia, faz-nos querer ser mais humanos, que existem limites éticos à desumanidade nas relações laborais, que o ambiente profissional deve facilitar o desenvolvimento integral de cada um e da sociedade em geral."


Entrevista por Helena Oliveira, Editora do Portal Ver

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