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As pessoas estarão sempre no centro, a Indústria 4.0 nasce para ligar e servir pessoas

Na 14.ª Assembleia de Alumni da AESE, Carlos Ribas, da Bosch, desenvolveu o tema da "Indústria 4.0: Era digital" e da mudança através dos números.

Cunhada como a 4.ª Revolução Industrial, apesar de estar ainda a acontecer “em cima” da 3.ª – a qual teve início algures em meados do século passado e está assente na revolução digital – esta “nova” será caraterizada por uma fusão e desvanecimento de fronteiras entre as esferas físicas, digitais e biológicas. Quais são, a seu ver, os maiores impactos, nesta indústria 4.0, no que respeita à eficiência e à produtividade?
CR: "Sabemos que a Indústria 4.0, mais conhecida por 4.ª Revolução Industrial, chegou, não sabemos exatamente como, nem quando. Temos uma ideia de até onde nos pode levar, mas ninguém em absoluto consegue prever quando e como.
A Indústria 4.0 consiste na fusão do mundo físico da produção com o mundo virtual da tecnologia da informação e também da Internet, ou seja, é um conceito industrial recente, que incorpora as principais inovações tecnológicas das áreas de automação, controlo e tecnologia da informação, aplicadas aos processos de manufatura, a partir de sistemas ciber-físicos e Internet das Coisas, que tendem a tornar-se cada vez mais eficientes, autônomos e customizáveis.
Pessoas, máquinas, objetos e sistemas comunicam entre si de uma forma dinâmica, em tempo real e de uma forma otimizada e auto-organizada. Nestes sistemas de produção inteligentes, todas as componentes intervenientes na cadeia do valor agregado, do fornecedor até ao cliente final, estão conectadas em todas as suas etapas.
A Indústria 4.0 baseia-se também em dois conceitos: IoT (Internet of Things) e M2M (Machine to Machine).
A IoT consiste na ligação em rede de objetos físicos, ambientes, veículos e máquinas por meio de dispositivos eletrónicos que permitem a recolha e partilha de dados. São dotados de sensores e atuadores, denominados de sistemas ciber-físicos e estão na base da Indústria 4.0.
No M2M, os processos produtivos estão interligados entre si. Trocam informação entre si autonomamente e tomam decisões de forma a otimizar o processo produtivo “machine learning”, custo e segurança através de um modelo de inteligência artificial complementado pela IoT.
Estes novos conceitos/processos vão trazer ganhos, tanto na eficiência, como na produtividade das empresas e na eficiência das organizações."

A possibilidade de armazenamento e análise de grandes quantidades de informação, a par da elaboração e simulação de cenários são duas das possibilidades mais disruptivas desta revolução, onde o Big data e a advanced analytics constituem as principais estrelas. Tendo em conta a sua apresentação, como “é que o mundo está – e vai mudar – através dos números”?
CR: "Tecnologias modernas de informação e comunicação, tais como os sistemas ciber-físicos, big data analytics e cloud computing vão ajudar a detetar antecipadamente defeitos e falhas de processo/produção, permitindo, assim, a sua prevenção e o aumento da produtividade, qualidade e benefícios de agilidade e, consequentemente, toda a sua vantagem competitiva.
Big data analytics, no seu ambiente integrado da Indústria 4.0 e do sistema cibernético, compreende: Conexão (sensor e redes), Cloud (computação e armazenamento de dados), Ciber-Físicos (modelo e memória), Conteúdo, Contexto (significado e correlação), Comunidade (partilha e colaboração).
Big data analytics e digitalização associada à conectividade e à sensorização, vão permitir tratar quantidades massivas de dados e informação, que vão auxiliar as tomadas de decisão, mas, sobretudo, indicam qual a decisão correta a tomar.
A inteligência artificial aplicada no âmbito 4.0 e do Big data vai permitir:
• que dados de entidades técnicas permitam uma aprendizagem e a organização autónoma
• configurações rápidas de máquinas com capacidade para mudar setups sem intervenção humana
• a integração de equipamentos e software, possibilitando a interação entre conceitos de diferentes plataformas
• a representação virtual de objetos, interagindo entre eles através de sistemas de software
• a agregação e análise de dados durante o tempo de vida completo do produto e, assim, ajudar à sua melhoria contínua, tanto de processo, como de produto
• a proteção das pessoas relativamente às máquinas, podendo estas agir dentro do mesmo espaço físico, trabalhando lado a lado.
As pessoas estarão sempre no centro, a Indústria 4.0 nasce para ligar e servir pessoas."


A condução autónoma é, sem dúvida, um dos setores mais promissores da indústria 4.0, aguerridamente disputado pelos fabricantes de automóveis e pelos incumbentes tecnológicos. A empresa que representa é, atualmente, um dos proeminentes players neste mercado, com a fábrica da Bosch em Braga a contribuir para o início da produção em série, a partir de 2020, de várias tecnologias que visam generalizá-la a nível mundial. É mesmo expectável que daqui a menos de cinco anos, os veículos autónomos comecem a partilhar as estradas com outros carros, peões e ciclistas, ou continuará a existir uma grande diferença entre “veículos que não precisam de condutor”e veículos que podem, ao invés e graças à IA, aumentar a segurança dos condutores e dos demais?
CR: "Podemos dividir a condução autónoma em vários níveis.
Três desses níveis já são hoje aplicados regularmente na indústria automóvel. Estamos a falar da assistência ao estacionamento, do controlo de distância e velocidade para o veículo da frente e da condução semi-autónoma em autoestradas com infraestruturas adequadas. Até 2020, teremos ainda o módulo de piloto automático em ambiente controlado com a infraestrutura adequada e estimamos que a partir de 2025 irá ser possível a condução 100 % autónoma. Acredito que a Bosch, através da fábrica de Braga, bem como de projetos de inovação conjuntos com a Universidade do Minho, vai contribuir fortemente para que a condução autónoma se torne uma realidade e queremos ser pioneiros.
Desta forma, o automóvel do futuro irá ser um potente e muito confortável computador conectado sobre rodas.
Resta, porém, ainda um grande número de assuntos a resolver, tais como: Legislação para condução autónoma, situação de seguros, em caso de acidente como julgar, etc."

Que principais desafios, nomeadamente éticos, considera serem os de mais complexa resolução nesta quarta revolução industrial, tão promissora quanto inquietante?
CR: "A principal discussão, e para já sempre numa área de especulação, é o grau de substituição do trabalho humano pela automação, o emprego e o capital humano necessário.
Já se iniciou a substituição de categorias de trabalho manual, repetitivo ou de precisão, pela automação. A tendência é que novas categorias e ocupações também sejam automatizadas com a evolução tecnológica da Indústria 4.0.
Um estudo de dois pesquisadores da Oxford Martin School, Carl Benedikt Frey e Michael Osborne, buscou quantificar os efeitos da inovação tecnológica no desemprego. Nessa pesquisa, foram analisadas 720 ocupações nos EUA.
Os pesquisadores concluíram que, num período de até duas décadas, 47 % destas funções estarão sob risco. A possibilidade de aumento acentuado do desemprego, a queda de salários via substituição e extinção de empresas, indústrias e postos de trabalho, existirá. Da mesma forma, haverá uma procura por novas profissões, empresas e indústrias que vão nascer em consequência desta 4.ª Revolução Industrial.
Segundo estes pesquisadores, evidências mostram que a 4.ª Revolução Industrial criará menos trabalho em comparação com as três revoluções anteriores. A Indústria 4.0 vai privilegiar profissões que exijam criatividade, cognição, decisão sobre incertezas e desenvolvimento de novas ideias.
Talvez a realidade venha a ser muito diferente.
Se olharmos hoje para os países com menos desemprego, estamos precisamente a falar dos mais industrializados e automatizados.
A segurança e a robustez dos sistemas de informação são outros grandes desafios para o sucesso da Indústria 4.0.
Problemas como falhas de transmissão na comunicação máquina-máquina ou até mesmo a “latência” na resposta dos sistemas, podem causar transtornos na produção. Os sistemas de segurança têm que garantir a proteção e a integridade do know-how das empresas."

Entrevista por Helena Oliveira, Editora do Portal Ver

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