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João Vale de Almeida reforça atualidade e relevância da parceria transatlântica

As oportunidades do Atlântico

"O Mundo e o Atlântico" foi o mote para o último painel de convidados na 13.ª Assembleia de Alumni da AESE, numa conferência que apresentou as vantagens e as oportunidades de criar roteiros de crescimento sustentáveis para Portugal num mercado sem fronteiras.

“Se queremos europeus e americanos com mais peso e alavancagem no contexto mundial, há que reforçar este bloco”
A iniciar o quarto e último bloco do dia, João Vale de Almeida, Embaixador da União Europeia nos Estados Unidos da América, trouxe à plateia aquilo a que chamou “cinco frases feitas” para, a partir delas, sublinhar a importância de construir um bloco transatlântico mais forte no contexto mundial:
1) “Isto está complicado” – ouvi esta expressão várias vezes desde que cheguei a Portugal para esta conferência, mas também a ouço na América. É verdade, basta pensar que ao contrário do que acontecia há uns anos, já nem sabemos quem são os nossos inimigos. O mundo está mais complicado, perigoso, imprevisível e globalmente mal governado e, com isto, temos de nos preocupar. Está também mais interdependente, pelo que uma ação local tem muitas vezes consequências inesperadas do outro lado do mundo.

2) “Os amigos são para as ocasiões” – extrapolando este ditado, cada país vai ter de encontrar aqueles que lhe são mais próximos, nos seus valores, princípios e interesses estratégicos, encontrando refúgio em relações mais seguras, ou seja, em tempos difíceis, junta-te aos amigos.

3) “It’s the economy, stupid” – no nosso contexto, esta frase de James Carville, dita em 1992, para promover uma viragem na campanha de Clinton contra Bush para a Casa Branca, muda para “it’s the Atlantic, stupid”. Se queremos europeus e americanos com mais peso e alavancagem no contexto mundial, há que reforçar este bloco. Foi por isso que lançámos o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP), que é o maior projeto transatlântico desde a NATO.

4) “Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!” – Temos de alterar esta frase de Fernando Pessoa – ele que me desculpe - para “Ó mar salgado, quanto do teu sal / São oportunidades para Portugal!”, porque não podemos desperdiçar as oportunidades de investimento nos EUA e há que apostar agora. E considerando não só nos EUA, mas mantendo uma visão mais global do Atlântico, olhando quer para o sul da América, quer para África.

5) “O que importa é o campeonato” – uso esta frase para sublinhar que, por razões demográficas, económicas e de décalage de crescimento, o campeonato joga-se cada vez mais no Pacífico. Só podemos ganhar o campeonato do Pacífico, se pudermos fazer o estágio no Atlântico, juntando forças para ganhar competitividade.

Há ainda muitos dados que relativizam este jogo de forças, referiu João Vale de Almeida, focando, entre outros exemplos, que as exportações dos EUA para a UE são duas vezes e meia maiores do que para a China e que o investimento da UE nos EUA representa três quartos do total investido nos Estados Unidos. Há, por isso, uma massa crítica que é uma boa base de partida para reforçar esta parceria.

A CPLP tem tudo para ser uma potência económica mundial
A dinâmica empresarial na parceria África-China-Portugal e o seu potencial, foi reforçada por Salimo Abdulá, Presidente da Confederação Empresarial da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), que começou a sua intervenção caracterizando a CPLP como uma potência económica mundial, que pode ter grande potencial “se soubermos conjugar os recursos e a nossa posição geoestratégica no mundo”.
Com 266 milhões de pessoas que falam a mesma língua, em cinco continentes e com o quinto maior PIB do mundo, a CPLP tem uma balança comercial excedentária, recursos suficientes para se autofinanciar; tem terras aráveis, água e mar, e destaca-se ainda em termos de tecnologias de ponta no Brasil e também em Portugal. Tem ainda por desbravar o grande potencial do “Continente do Futuro” – o Africano, com uma população jovem e carente de formação.

As oportunidades reforçam-se quando pensamos nas comunidades em que estão integrados vários países da CPLP e na abertura a novos mercados que estas associações podem promover. Portugal na União Europeia, Moçambique e Angola na Southern African Development Community (SADC) e Timor em processo de entrar na Association of Southeast Asian Nations (ASEAN), são exemplos claros de que a CPLP tem várias portas de entrada para novos mercados, na Europa e em muitos países emergentes de África e Ásia.

A relação estabelecida com o gigante asiático apresenta também novas oportunidades, quer pela forte presença chinesa no Continente Africano, quer pelo investimento que começa a ser mais relevante em Portugal, numa cooperação que vai reforçar em muito a dinâmica deste triângulo África-China-Portugal.

De resto, África não pode deixar de ser vista como o grande polo do crescimento futuro, com necessidades em transportes, infraestruturas, formação, investigação e tecnologia.

“Portugal deve olhar com mais pragmatismo para esta parceria (CPLP), usando a capacidade dos recursos naturais de África e a juventude da sua população para levar mais longe a capacidade tecnológica europeia, alavancar sinergias e aproveitar oportunidades de investimento”, sublinhou Salimo Abdulá. “Se quisermos ir rápido, vamos sozinhos. Se quisermos ir longe, vamos juntos.”


Casos de sucesso em destaque
Três Case Studies de internacionalização “Made in Portugal” fecharam o último bloco do dia “O Mundo e o Atlântico”, trazendo-nos exemplos de internacionalização e sucesso nas indústrias agroalimentar, do têxtil e de software, com a Sovena, a Mundotêxtil e a WeDo.


Azeite de qualidade de Portugal para o mundo
“Olive Oil For The World”. Foi com esta ambição, que a Nutrinveste criou a Sovena e foi com ela que passou de um conglomerado nacional a uma multinacional que, em pouco mais de 10 anos, passou de uma faturação de 200 milhões para 1,2 mil milhões de euros, 80% dos quais gerados fora de Portugal.

Hoje, a Sovena tem presença direta em oito países, em quatro continentes e exporta para mais de 70 territórios. Com mais de 1.100 colaboradores e de 12 mil hectares de oliveiras, com oito fábricas e quatro lagares, tornou-se a maior empresa e o maior fornecedor privado de azeite do mundo.

“Quando um mercado externo tem massa crítica suficiente, fixamo-nos e promovemos o desenvolvimento nessa região” explica António R. Simões, Presidente da Sovena, acrescentando que estão atualmente a considerar a China, o Brasil e Angola como novos mercados base.
Segundo o responsável, tudo isto assenta em oito alavancas, que são pilares estruturais do negócio: liderança, vantagem competitiva, qualidade, inovação, marcas fortes, parcerias, sustentabilidade e capacidade financeira.

A primeira, liderança, está bem expressa no crescimento sustentável que a levou à liderança da indústria e no facto de fornecer as maiores cadeias de retalho na Europa, EUA, América Latina e Ásia, incluindo Auchan, LIDL, Mercadona, Walmart, Pão de Açúcar e Carrefour, entre muitas outras. A sua vantagem competitiva advém essencialmente da sua presença em todas as etapas da cadeia de valor do azeite, desde a agricultura à comercialização, sendo a única empresa do setor com esta integração completa.

Além da força das marcas que apresenta estrategicamente nos diferentes mercados – Oliveira da Serra em Portugal, Andorinha no Brasil, Olivari como marca premium global e Fontoliva como marca acessível - destaca-se ainda neste mix a sua capacidade para estabelecer parcerias de longo prazo que acrescentam valor às várias etapas da cadeia, desde a Logoplast ao Walmart.

“Os EUA são um mercado de grande potencial, porque ainda tem um consumo per capita baixo e não produz praticamente nenhum azeite”.


Mundotêxtil junta a vanguarda portuguesa à competitividade africana para reforçar reputação do “Made in Portugal”
Quando há duas ou três décadas, a indústria têxtil foi apontada como um exemplo do que não deveria ser feito – com a mão-de-obra infantil e os sinais de riqueza dos seus empresários nas primeiras páginas dos jornais – José Pinheiro não se resignou à morte anunciada do setor e foi um dos empresários que acreditou no têxtil português, na sua qualidade e capacidade de diferenciação.

“O têxtil continua cá e vai exportar perto de 4.300 milhões euros, o que diz muito sobre o setor”, sublinhou José Pinheiro, administrador da Mundotêxtil e representante da segunda geração à frente desta empresa, que converteu numa das principais empresas do setor têxtil-lar em Portugal e não só.

Fundada em 1975, a Mundotêxtil exporta para 40 países, nos cinco continentes e fatura 43 milhões de euros. Trabalha com os grandes players internacionais, que são responsáveis por 58% da produção, e assume com orgulho a qualidade e reputação dos seus têxteis. “Somos dos mais caros de Portugal pela inovação e pela qualidade. A inovação está no nosso DNA e temos de inovar todos os dias” e o seu esforço tem dado frutos, tornando o “Made in Portugal” num sinónimo de reconhecimento e qualidade, mesmo nos mercados mais exigentes, como é o caso do norte-americano.

Com três marcas principais para mercados diferentes – Bianca para os EUA, Blank como marca premium para a Europa Central e Risart para Espanha - a Mundotêxtil está igualmente a apostar numa marca global – a My Home – que serve a distribuição dos grandes armazéns, grandes superfícies, catálogos e vendas online por todo o mundo.

Apesar da força destas suas marcas, o têxtil está bastante condicionado pelo reduzido número de produtores de algodão, com China, Índia e Paquistão como os mais representativos. Para fazer face a esta condicionante, a Mundotêxtil muniu-se de 3 parceiros – dois em Portugal e um em Moçambique – para fomentar a produção de algodão em Moçambique e noutros países africanos.

“Com a Intellect Holdings como parceiro em Moçambique, estamos a investir, a formar pessoas e vamos começar a produzir”, contou José Pinheiro, explicando que está a investir em Moçambique sem desinvestir em Portugal e que através de Moçambique, poderá entrar noutros mercados africanos, como, por exemplo, na África do Sul, sem as barreiras alfandegárias que levam Portugal a perder competitividade.

Com a internacionalização também na produção, a Mundotêxtil tem o melhor de dois mundos: a competitividade de África e a vanguarda portuguesa nos têxteis.

“No têxtil-lar, a qualidade portuguesa é internacionalmente reconhecida e pomos o Made in Portugal em letras grandes na etiqueta”
José Pinheiro


WeDo: uma empresa criada para ganhar mundo… com a perseverança para continuar a conquistá-lo
Antes de iniciar atividade, em fevereiro de 2001, a WeDo escreveu no seu “livro branco” as grandes linhas sobre o que queria ser esta empresa portuguesa nascida para se internacionalizar. 13 anos depois, se é certo que o “livro branco” foi muitas vezes atualizado, houve ideias que permaneceram intactas e a WeDo expandiu-se, primeiro pela via do crescimento orgânico e, desde 2007, através de aquisições - na Irlanda, no Brasil, na Inglaterra, em Portugal e nos EUA -, para se afirmar hoje como a líder mundial de software de Enterprise Business Assurance.

A ideia na génese do negócio teve, desde a origem, todos os condimentos do sucesso: implementar software capaz de aumentar até 7% as receitas do cliente. Para grandes empresas, basta 1% para adicionar milhões que, de outra forma, se teriam eclipsado das contas anuais e foi isso que perceberam já perto de 200 grandes corporações em 90 países, entre as quais oito das 10 maiores operadoras móveis do mundo.
Apesar do percurso ascendente que a levou da fornecedora das operadoras de telecomunicações às empresas de retalho e às energéticas, da presença em 12 países e dos 500 postos de trabalho criados, o progresso da WeDo deparou-se com muitas barreiras, nomeadamente na sua operação nos EUA, que Rui Paiva, Presidente Executivo da WeDo Technologies, aqui destacou.

“É fundamental melhorar o sistema de vistos nos EUA, para permitir a deslocação de profissionais de outros países que ali possam trabalhar, assim como fazer um alinhamento fiscal que permita retirar o dinheiro gerado e trazê-lo para Portugal”, refere o responsável, sublinhando ainda as questões relacionadas com os direitos de propriedade intelectual e as políticas aeroportuárias que dificultam as entradas e saídas dos EUA, nomeadamente de e para o México, onde a WeDo também está presente.

De resto, há igualmente barreiras culturais que só a experiência permitiu ultrapassar: “Estivemos anos a tentar captar clientes nos EUA e não conseguimos. Depois de comprarmos a norte-americana Connectiv, em 2012, os mesmos clientes vieram ter connosco para comprar aquilo que, durante anos, lhes tentámos vender”. Hoje, os EUA são o segundo maior mercado da WeDo, mas só a partir do momento em que se assumiram como empresa norte-americana, criando emprego e pagando impostos, houve abertura do mercado. “Neste aspeto, não há muito a fazer, pois tem tudo a ver com a cultura e a mentalidade empresarial americana”, sublinha.

Estas barreiras não constituem, no entanto, qualquer impedimento para este matemático e gestor que assume a Ásia (não a China) como desígnio para continuar a crescer e a entrada no NASDAQ como um salto importante.

A WeDo desenvolve software em Portugal (Braga) e nos EUA para operadores de telecomunicações, grandes retalhistas, empresas de energia e do setor financeiro em todo o mundo.


Notas
O que é o TTIP?
É um acordo de Comércio e Investimento que visa eliminar as barreiras comerciais, aduaneiras e não aduaneiras - incluindo as diferenças de regulamentos técnicos, normas e procedimentos de aprovação e certificação - de produtos e serviços aplicadas sobre uma vasta gama de setores da economia, facilitando a compra e venda de bens e serviços por empresas da UE e dos EUA. O objetivo é abrir os mercados aos serviços, ao investimento e aos contratos públicos, convergindo para uma maior eficiência.

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