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“Oportunidades? Haverá sempre”

Conferência do Presidente da CAP no GAIN

O GAIN, o programa para direção de empresas agrícolas e agroindustriais, convidou  Eduardo de Oliveira e Sousa, Presidente da CAP – Confederação de Agricultores Portugueses, para falar aos dirigentes e empresários do setor sobre o potencial de negócio e sobre o posicionamento da União Europeia sobre o tema.

Numa entrevista, o Presidente da CAP, resumiu as questões mais relevantes da agenda.



Quais as oportunidades e os riscos do setor agrícola tendo em conta as diretrizes europeias?
EOS: “As diretrizes europeias estão numa fase de enquadramento naquilo que será o futuro da União Europeia na sequência do chamado Brexit. E, portanto, os riscos são essencialmente de ordem financeira ou económica. Se houver um agravamento do Orçamento da União - o que é expectável que venha a acontecer - não sabemos ainda em que medida, e por consequência desse impacto, também na Política Agrícola Comum.

Oportunidades? Haverá sempre, porque o setor agrícola é um setor muito dinâmico e como nós estamos numa região da Europa onde se as condições climáticas não tiverem alterações muito para além daquilo que está a acontecer, podem constituir polos de desenvolvimento das agriculturas que estão em expansão. Associado obviamente às regiões onde o desenvolvimento possa crescer, como seja, o setor associado ao regadio do Alqueva e outras obras que venham a cimentar o desenvolvimento noutras regiões do país.

Por isso, tenho uma certa expectativa que essas oportunidades venham a consolidar-se. Mas temos de ter muita atenção em face das alterações regulamentares que a União Europeia venha a implementar na sequência do Brexit.”


Dado o boom nas exportações dos produtos agrícolas, considera ser este um fator episódico, ou uma tendência que se manterá no futuro?
EOS: “Espero que não seja uma situação episódica. Aliás, o facto de ter havido um crescimento já sustentado no setor em 2 ou 3 anos consecutivos, acima da dinâmica das exportações nacionais, é um sintoma ou um sinónimo de consolidação desse crescimento.

Isso significa que os agricultores estão a conseguir encarar o setor exportador de uma forma profissional, já com conhecimento comercial associado ao conhecimento produtivo. Isso tem a ver com a forma como se estão a organizar, com a dinâmica das organizações de produtores e também com o marketing associado ao saber vender, ao aparecer com uma imagem associada ao nome de Portugal. O vinho, o azeite, agora os frutos secos, os produtos hortícolas, a fruta e à volta destes grandes temas, podemos chamar-lhes assim, começa a haver uma consolidação do setor exportador e isso é muito positivo para a agricultura nacional.”


Qual a capacidade de criação de emprego no setor agrícola e agroindustrial em 2018?
EOS: “Em 2018, não sou capaz de fazer uma previsão, até porque estamos a atravessar um ano que poderá ser muito problemático em termos climáticos. 2017 foui também um ano muito difícil. É muito curioso ouvir o governo dizer que a seca não foi assim tão má, porque o país até conseguiu crescer em termos de produção agrícola. Mas esse crescimento foi sustentado no que aconteceu no ano anterior. Não houve uma crise muito grande no abastecimento de água às regiões que promovem esse emprego, que promovem as exportações, que é o regadio. Se este ano o tempo continuar como está, esse setor vai sofrer seguramente um impacto que é difícil neste momento prever a sua dimensão. Se isso acontecer, pode ter consequências no emprego. Principalmente, no emprego sazonal associado às colheitas. Seja na fruta, nos produtos vegatais, e nos horto-industriais, ou até mesmo nos mercados de frescos, como as saladas.

No emprego estruturante associado ao investimento, o ponto de interrogação pode ser ainda maior. Porque o desenvolvimento está relacionado com uma determinada dinâmica do próprio setor. Se essa dinâmica for prejudicada por algo que nós não podemos controlar, mesmo que a política desse uma ajuda (e aí também tenho algumas dúvidas), a situação climática é neste momento, uma ameaça ao desenvolvimento do setor, seja como está, seja numa perspetiva de crescimento.”

O que pensa da AESE Business School promover um programa de gestão como o GAIN para dirigentes e empresários do setor agroindustrial?
EOS: “Todos os programas que tenham a ver com acréscimo de conhecimento e de melhoria da performance principalmente na área da gestão, só podem ser algo de bom e só podem trazer valor acrescentado ao setor. Não só aos empresários em si, que ganham conhecimentos e, por isso, melhoram ou têm condições para melhorar a maneira como trabalham, como possibilita enfrentar os mercados globais onde hoje em dia as pessoas circulam e se situa a atividade agrícola, à semelhança das outras atividades. E, por isso, é de louvar este tipo de programas e este tipo de ações vocacionadas para o acréscimo de conhecimento; em ambiente de troca de impressões com outros empresários, os quais muitas vezes que não se conhecem e que, na partilha das suas próprias experiências, aportam conhecimento aos participantes. E, por isso, é uma medida seguramente com elevado valor.”

Qual a sua mensagem para os empresários e dirigentes saberem aproveitar os desafios e as oportunidades do setor, neste momento?
EOS: “A mensagem que deixo, é obviamente uma mensagem de esperança, de expectativa e também de confiança. Porque se forem os próprios empresários a partir para uma base de desconfiança, ou com “medo” do que aí vem, as oportunidades não se constroem, não aparecem. E, por isso, há que encontrar sempre uma luz ao fundo do túnel, mesmo num período com alguma negritude, como aquele que acabei de descrever. Por isso, a mensagem é de união, de darmos as mãos no sentido de ultrapassarmos estas questões e tentarmos, nomeadamente através de organizações como a CAP, sensibilizar quem tem poder político e administrativo, para a delicadeza do momento que atravessamos.

Seguramente que o mundo está a mexer com muita força, com muita velocidade. O setor agrícola é um setor fundamental em qualquer economia e em qualquer sociedade desenvolvida. A segurança alimentar está associada à região geográfica em que nós nos inserimos, a qualidade dos nossos produtos, a sua diversidade e a qualidade da forma como os nossos produtos estão a chegar aos mercados, é aí que as oportunidades vão surgir e é aí que têm de tomar atenção ao desenvolvimento desta sociedade que nos rodeia e que é onde nós temos de nos enquadrar.”

A sessão terminou com um debate com os participantes da 4.ª edição do GAIN.