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Shaping the future of work

Na 14.ª Assembleia de Alumni da AESE, o Prof. Vasant Dhar, da Leonard N. Stern School of Business, foi um dos oradores mais aguardados.

Muitos empregos do futuro são impossíveis de prever, apesar de termos a certeza de que eles irão surgir.

A “requalificação” dos humanos será imprescindível, as tarefas não rotineiras e as funções mais tradicionais serão substancialmente alteradas e os novos trabalhadores irão confrontar-se com um ambiente laboral muito diferente do conhecido pelas gerações que os precederam. Mas, para Vasant Dhar, há mais incertezas do que certezas, tal como existe uma visão otimista e uma outra pessimista. Resta saber qual vai vigorar no mercado laboral do futuro.

A possibilidade de as máquinas virem a substituir os humanos na força laboral é uma das questões mais preocupantes, e também uma das mais debatidas, na inovadora arena da IA. Mas escreveu, num artigo publicado no Fórum Económico Mundial, que “todos nós estamos a fazer as perguntas erradas sobre o futuro do trabalho”. Quais são, então, as “perguntas certas” que deveríamos estar a formular?
VD: "A pergunta correta que deveríamos estar a fazer é como será a qualidade do trabalho humano no futuro. Nomeadamente, qual será o potencial destes [novos] postos de trabalho no que respeita ao crescimento dos rendimentos? As vagas passadas da tecnologia criaram mais postos de trabalho novos do que aqueles que foram substituídos, na medida em que a maioria das funções não rotineiras tornadas possíveis pela nova tecnologia gozavam de um potencial mais elevado de rendimento. Será que desta vez será diferente? Esta é uma questão importante, com implicações profundas para os decisores políticos, para os líderes empresariais e para os trabalhadores. E, por acréscimo, terá também implicações para as instituições de ensino que são responsáveis por educar a força de trabalho do futuro, a qual, muito provavelmente, irá confrontar-se com um ambiente laboral muito diferente comparativamente ao vivido pelos seus pais."

Se as máquinas estão a aprender a aprender, uma qualidade até agora exclusiva dos humanos, quais serão as mais relevantes competências que estes últimos deverão ter para não serem “ultrapassados” pelas máquinas na força de trabalho?
VD. "De forma não muito diferente do que aconteceu em vagas tecnológicas anteriores, iremos precisar de pessoas que saibam desenhar as novas máquinas e utilizá-las eficazmente. O que exige um certo tipo de “requalificação”, na qual os humanos deverão ter as competências adequadas para conceber máquinas inteligentes e utilizar os seus contributos mediante formas criativas. É difícil vaticinar que possibilidades serão necessárias, mas estas exigirão, provavelmente, uma compreensão e “conforto” não só em face das máquinas inteligentes, mas também no que respeita a trabalhar com problemas que estejam relacionados com o tratamento e processamento de informação."

Citou um estudo recente realizado pelo McKinsey Global Institute (MGI), o qual concluía que 60 % das ocupações [atuais) serão automatizadas em 30 %. E sublinha também a importância em diferenciar os aspetos rotineiros e não rotineiros do trabalho. Este relatório, à semelhança de muitos outros, perspetiva os humanos a trabalharem ao lado das máquinas (algo a que também já estamos habituados) mediante novas formas. Deveremos estar otimistas no que respeita a este trabalho colaborativo “lado a lado”?
VD: "A “requalificação” que referi anteriormente, irá exigir que os humanos tenham as competências adequadas para desenhar máquinas inteligentes e para utilizar os seus contributos de forma criativa. É complexo antever estas oportunidades na medida em que elas ainda não existem, mas a questão da compreensão e “facilidade” em trabalhar com as máquinas inteligentes será, mais uma vez, imprescindível. O MGI estima que cerca de 250 mil funções desta natureza serão criadas até 2025. E serão estas as que maior potencial terão para o crescimento dos rendimentos. Contudo, não é de todo claro que uma situação com estes contornos venha a existir no ambiente laboral, com as pessoas a trabalhar em conjunto com as máquinas, ou se existirá uma acentuada diferença em áreas distintas do trabalho. Se as competências humanas forem largamente comoditizadas, então uma grande parte do trabalho rotineiro para o qual estas competências são necessárias, oferecerá um potencial reduzido de crescimento de salários e progressão na carreira. Esta é uma área importante que exige pesquisas adicionais."

Os computadores estão, cada vez mais, a tomar decisões por nós e a fazê-lo crescentemente em áreas que exigem o julgamento e o discernimento humano. Como poderemos alavancar os rápidos avanços protagonizados pela inteligência das máquinas em áreas como as finanças, os cuidados de saúde ou a educação?
VD: "Essa é outra área importante que exige uma pesquisa aprofundada. Em áreas como a das Finanças, estamos a testemunhar uma acentuada deslocação de humanos em funções que exigem a verificação de resultados num sistema financeiro que, de alguma forma, é antiquado, mas também nos pagamentos, nas transações comerciais, nos serviços pós-negociação, como a compensação e a liquidação, e até nos serviços de consultoria em torno dos portefólios individuais.
Os avanços das máquinas nestas áreas tradicionalmente humanas irão continuar de forma a criar eficiências massivas nas Finanças e substituir funções tradicionais ou, no mínimo, a alterá-las substancialmente. Mas continuará a existir a necessidade de níveis elevados de especialização, para a qual é crucial o julgamento e a criatividade humana, sendo que as restantes funções mais tradicionais sofrerão uma enorme pressão. As oportunidades nas Finanças irão, muito provavelmente, surgir na “Fin Tech”, a qual irá causar uma enorme disrupção na velha forma de fazer as coisas através de novas tecnologias e plataformas. Descrevi estas plataformas num artigo escrito em outubro de 2017 para a Association for Computing Machinery (ACM): https://cacm.acm.org/magazines/2017/10/221331-fintech-platforms-and-strategy/abstract.
Os setores dos cuidados de saúde e da educação são diferentes. Na saúde, assistiremos provavelmente a uma geração de dados pelos indivíduos jamais vista (genómica, dispositivos de rastreamento, etc.) e a uma utilização crescente da tecnologia para a prevenção e prestação de cuidados. Todavia, e devido ao aumento da população envelhecida e da sua preferência por cuidados de saúde orientados por humanos, existirão provavelmente níveis consideráveis de emprego neste espaço. Contudo, não é igualmente claro que este tipo de trabalho tenha um elevado potencial de rendimento.
Já a educação é um animal completamente diferente. O famoso teórico das organizações, James March, caraterizou as universidades mais como “templos” do que como negócios e, em particular, como detentoras de uma certa aura e de um poder de fixação de preços que as torna mais imunes à disrupção comparativamente a empreendimentos orientados para o lucro e onde a eficiência importa. E muito há a dizer sobre esta perspetiva. O que isto implica é o facto de as instituições educativas de renome e “marca” reconhecida continuarem a ser objeto de procura enquanto as pessoas valorizarem a marca e a escassez a ela associada. Mas a tecnologia já alterou a forma como ensinamos e continuará a oferecer novas capacidades e aumentos de produtividade, criando oportunidades para novos players."

Apesar de a pergunta não ser original, no fundo é a que todos nós formulamos: “irá a IA criar mais postos de trabalho do que aqueles que irá destruir, ou será o contrário”? Como antevê este desafio?
VD: "Não é tanto se a IA irá criar mais empregos mas, e como já mencionei anteriormente, se irá gerar mais empregos de elevada qualidade do que aqueles que vai substituir, tal como aconteceu com as gerações tecnológicas anteriores.
E esta é uma questão muito difícil de responder, porque muitos empregos do futuro são impossíveis de prever, apesar de termos a certeza de que eles irão surgir. Uma visão otimista seria a de que as novas indústrias do futuro – seja as que envolvem a exploração espacial, ou as que transformarão os humanos numa “super-espécie” através da engenharia genética – irão criar novos postos de trabalho, porque irão dar origem a novas possibilidades. A visão pessimista é a de que as novas tecnologias como a IA, serão diferentes ao ponto de assumirem o comando das tarefas cognitivas e físicas e de as realizar significativamente melhor do que os humanos, o que tornará o humano “médio” obsoleto."


Entrevista por Helena Oliveira, Editora do Portal Ver

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