A parábola da Net

Ocorreu, com pompa e circunstância, mais uma edição da Web Summit: um evento mundial dedicado às novas tecnologias, que teve o condão de reunir, em Lisboa, milhares de especialistas de todo o mundo, entre os quais o próprio inventor da net, Tim Berners-Lee.
Quando, em 1989, se criou a internet, ninguém supunha que, em pouco mais de vinte e cinco anos, tornar-se-ia no principal meio de comunicação mundial. Hoje, se não for ligado à net, já quase não se consegue trabalhar.
É pela net que nos chegam as principais notícias, em tempo real. Pelanet temos acesso, quase instantâneo, à realidade internacional, sem necessidade de esperar, à hora certa, um noticiário. Na net temos, a qualquer hora do dia ou da noite, acesso a uma central de dados verdadeiramente impressionante, muito embora nem sempre a informação fornecida seja fidedigna.
Mas este instrumento, que mais não é do que uma sofisticada e apurada tecnologia, é susceptível de se transformar num instrumento maligno, se for utilizado de forma contrária à dignidade humana. Com efeito, pela net pode-se fabricar uma bomba caseira; pode-se contactar uma organização terrorista; pode-se caluniar uma pessoa inocente; pode-se cair na armadilha de uma falsa amizade; etc. A própria net pode ser viciante: há quem tenha ficado tão dependente, que já não consegue despegar do ecrã.
Entre os que louvam e quase idolatrizam esta tecnologia e os que a diabolizam, há um justo meio, que é onde se situa, precisamente, a doutrina da Igreja. Como instrumento que é, a net não é, em si mesma, boa nem má. Como qualquer outro meio tecnológico, a bondade ou maldade da net depende do objecto da acção em que for utilizada, bem como da intenção do agente. A web é boa quando é utilizada para o bem, mas é prejudicial quando se transforma num mecanismo de ampliação do mal, numa estrutura de pecado.
Alguém, há dois mil anos, Jesus disse-o, profeticamente: “o reino dos céus é ainda semelhante a uma rede (net, em inglês) lançada ao mar, que colhe toda a casta de peixes. Quando está cheia, os pescadores tiram-na para fora e, sentados na praia, escolhem os bons para cestos e deitam fora os maus” (Mt 13, 47-48).
A net é, sem dúvida, uma tecnologia extraordinária, mas requer, como na homónima parábola de Cristo se refere, capacidade de discernimento. Na vida pessoal, familiar e empresarial, a net não deve ser um pretexto para o egoísmo, nem para a vã curiosidade, mas um instrumento ao serviço da fé e da caridade: um meio que nos una mais ao nosso próximo e não que dele nos afaste. Que esta rede não nos separe de Deus, nem dos outros, mas seja, em frutos de santidade pessoal, tão abundante quanto a rede da pesca milagrosa (cf Jo 21, 1-8), e nos faça, como aos apóstolos, pescadores de homens (Mt 4, 19)!
Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada

Ocorreu, com pompa e circunstância, mais uma edição da Web Summit: um evento mundial dedicado às novas tecnologias, que teve o condão de reunir, em Lisboa, milhares de especialistas de todo o mundo, entre os quais o próprio inventor da net, Tim Berners-Lee.

Quando, em 1989, se criou a internet, ninguém supunha que, em pouco mais de vinte e cinco anos, tornar-se-ia no principal meio de comunicação mundial. Hoje, se não for ligado à net, já quase não se consegue trabalhar.

É pela net que nos chegam as principais notícias, em tempo real. Pelanet temos acesso, quase instantâneo, à realidade internacional, sem necessidade de esperar, à hora certa, um noticiário. Na net temos, a qualquer hora do dia ou da noite, acesso a uma central de dados verdadeiramente impressionante, muito embora nem sempre a informação fornecida seja fidedigna.

Mas este instrumento, que mais não é do que uma sofisticada e apurada tecnologia, é susceptível de se transformar num instrumento maligno, se for utilizado de forma contrária à dignidade humana. Com efeito, pela net pode-se fabricar uma bomba caseira; pode-se contactar uma organização terrorista; pode-se caluniar uma pessoa inocente; pode-se cair na armadilha de uma falsa amizade; etc. A própria net pode ser viciante: há quem tenha ficado tão dependente, que já não consegue despegar do ecrã.

Entre os que louvam e quase idolatrizam esta tecnologia e os que a diabolizam, há um justo meio, que é onde se situa, precisamente, a doutrina da Igreja. Como instrumento que é, a net não é, em si mesma, boa nem má. Como qualquer outro meio tecnológico, a bondade ou maldade da net depende do objecto da acção em que for utilizada, bem como da intenção do agente. A web é boa quando é utilizada para o bem, mas é prejudicial quando se transforma num mecanismo de ampliação do mal, numa estrutura de pecado.

Alguém, há dois mil anos, Jesus disse-o, profeticamente: “o reino dos céus é ainda semelhante a uma rede (net, em inglês) lançada ao mar, que colhe toda a casta de peixes. Quando está cheia, os pescadores tiram-na para fora e, sentados na praia, escolhem os bons para cestos e deitam fora os maus” (Mt 13, 47-48).

A net é, sem dúvida, uma tecnologia extraordinária, mas requer, como na homónima parábola de Cristo se refere, capacidade de discernimento. Na vida pessoal, familiar e empresarial, a net não deve ser um pretexto para o egoísmo, nem para a vã curiosidade, mas um instrumento ao serviço da fé e da caridade: um meio que nos una mais ao nosso próximo e não que dele nos afaste. Que esta rede não nos separe de Deus, nem dos outros, mas seja, em frutos de santidade pessoal, tão abundante quanto a rede da pesca milagrosa (cf Jo 21, 1-8), e nos faça, como aos apóstolos, pescadores de
homens (Mt 4, 19)!


Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada