Notícias

Carta a um Amigo no "Ano da Fé"

dezembro de 2012

 

Embora passado tanto tempo desde a nossa última conversa, não esqueci a sua última objeção a respeito da fé. Da fé católica, naturalmente. Dizia-lhe eu que a fé é um ato racional – a nossa fé, pelo menos. Acreditar no que nos dizem é mesmo a principal fonte de informação de que dispomos desde crianças. E desde crianças nos habituamos a distinguir, do que nos dizem, o que é digno de crédito do que é absurdo, ou simplesmente possível, ou muito provável, ou certo. Depende do que se afirma e de quem o afirma: se é pessoa com autoridade, digna de confiança, quem nos diz algo verosímil, não seria razoável pô-lo em dúvida. A nossa inteligência deve aceitá-lo. E aceita-o geral-mente. A imensa maioria das nossas convicções ou certezas nasce daí.
Mas tudo isso se passa no domínio da nossa experiência e é comprovável, enquanto a fé cristã se refere a muitas realidades que não podemos comprovar. Essa era a objeção. Como verificar antes de morrermos o que sucede depois?
Há inúmeras razões ou argumentos que nos levam a crer em Deus, na Criação, na persis-tência do nosso eu, etc. Aliás, tudo o prova. A própria noção de Deus – infinito –, que não pode proceder da nossa experiência temporal e limitada, e que constitui, no entan-to, uma noção intuitiva e universal, e marca toda a história do pen-samento, é um fenómeno muito intrigante.
Hoje, porém, queria só lembrar-lhe que temos muitas certezas deri-vadas do testemunho de outras pessoas que não pomos em causa, embora não possamos comprová-las»: - Como estou  
certo, certíssimo, da existência de Napoleão, se não conheço o seu DNA? Apenas por testemunhos dignos de toda a confiança; não por ressurreição do dito senhor.
Ora a fé cristã corresponde a esse tipo histórico: não cremos prima-riamente no Céu, no Inferno, no Purgatório, na Sagrada Eucaristia, enfim, em todos os conteúdos do Credo; cremos primariamente que Jesus ressuscitou. Cremos no testemunho autorizado de muitas pessoas que O viram ressuscitado e deram a vida por isso. Nunca, de ninguém, recebemos testemunho tão digno de confiança. E esse é o anúncio fundamental da Igreja através dos tempos. A Boa Nova.
Está tudo resolvido? A própria Igreja diz que não. O testemunho histórico é credível e até mais credível do que nenhum, mas lança a nossa inteligência por realidades tão transcendentes, tão para além da nossa experiência, que só a graça divina nos pode capacitar de aderir a ele sem a mínima hesitação. A fé é perfeitamente racional, mas é um dom sobrena-tural.
 
Não quer dizer que seja difícil; qualquer criança a pode receber com uma simplicidade extraor-dinária. Quer dizer apenas que só Deus a concede. Mas é de tal modo luminosa, que todo o «puzzle» na nossa existência se esclarece, e nunca mais encon-tramos alternativa a esta sua reso-lução. 
 
Neste «Ano da Fé», seja esta carta o meu presente de Natal.

Embora passado tanto tempo desde a nossa última conversa, não esqueci a sua última objeção a respeito da fé. Da fé católica, naturalmente. Dizia-lhe eu que a fé é um ato racional – a nossa fé, pelo menos. Acreditar no que nos dizem, é mesmo a principal fonte de informação de que dispomos desde crianças. E desde crianças nos habituamos a distinguir, do que nos dizem, o que é digno de crédito do que é absurdo, ou simplesmente possível, ou muito provável, ou certo. Depende do que se afirma e de quem o afirma: se é pessoa com autoridade, digna de confiança, quem nos diz algo verosímil, não seria razoável pô-lo em dúvida. A nossa inteligência deve aceitá-lo. E aceita-o geralmente. A imensa maioria das nossas convicções ou certezas nasce daí.

Mas tudo isso se passa no domínio da nossa experiência e é comprovável, enquanto a fé cristã se refere a muitas realidades que não podemos comprovar. Essa era a objeção. Como verificar antes de morrermos o que sucede depois?

Há inúmeras razões ou argumentos que nos levam a crer em Deus, na Criação, na persistência do nosso eu, etc. Aliás, tudo o prova. A própria noção de Deus – infinito –, que não pode proceder da nossa experiência temporal e limitada, e que constitui, no entanto, uma noção intuitiva e universal, e marca toda a história do pensamento, é um fenómeno muito intrigante.

Hoje, porém, queria só lembrar-lhe que temos muitas certezas derivadas do testemunho de outras pessoas que não pomos em causa, embora não possamos comprová-las»: - Como estou  certo, certíssimo, da existência de Napoleão, se não conheço o seu ADN? Apenas por testemunhos dignos de toda a confiança; não por ressurreição do dito senhor.

Ora a fé cristã corresponde a esse tipo histórico: não cremos primariamente no Céu, no Inferno, no Purgatório, na Sagrada Eucaristia, enfim, em todos os conteúdos do Credo; cremos primariamente que Jesus ressuscitou. Cremos no testemunho autorizado de muitas pessoas que O viram ressuscitado e deram a vida por isso. Nunca, de ninguém, recebemos testemunho tão digno de confiança. E esse é o anúncio fundamental da Igreja através dos tempos. A Boa Nova.

Está tudo resolvido? A própria Igreja diz que não. O testemunho histórico é credível e até mais credível do que nenhum outro, mas lança a nossa inteligência por realidades tão transcendentes, tão para além da nossa experiência, que só a graça divina nos pode capacitar de aderir a ele sem a mínima hesitação. A fé é perfeitamente racional, mas é um dom sobrenatural. Não quer dizer que seja difícil; qualquer criança a pode receber com uma simplicidade extraordinária. Quer dizer apenas que só Deus a concede. Mas é de tal modo luminosa, que todo o «puzzle» na nossa existência se esclarece, e nunca mais encontramos alternativa a esta sua resolução.  Neste «Ano da Fé», seja esta carta o meu presente de Natal.


Pe. Hugo de Azevedo