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O que fizermos hoje será julgado pelas gerações futuras

Na 14.ª Assembleia de Alumni da AESE, Patrick Dixon falou sobre "O mundo de amanhã: desafios"

Reconhecido como um dos mais importantes visionários da atualidade, Patrick Dixon interpreta o futuro do mundo como se de um cubo de seis faces se tratasse: rápido, urbano, tribal, universal, radical e ético. Alertando para o facto de muitas das maiores tendências globais estarem a evoluir de uma forma relativamente previsível, elege ainda a robótica e a inteligência artificial, em conjunto com a manipulação genética da vida humana, como as principais ameaças da tecnologia à humanidade. Numa apresentação sua, afirmou que “o mundo pode mudar mais rapidamente do que o tempo que demora uma reunião de um conselho de administração”.

Entre as centenas de possibilidades de mudança e inovação, quais são as principais tendências que antevê como as que terão maior impacto na vida empresarial e pessoal neste novo Mundo 4.0?
PD: "A questão é muito abrangente e, obviamente, depende de que indústria estejamos a falar. Mas existem algumas temáticas que estão já a ter impacto em números consideráveis de empresas em todo o mundo. Costumo agrupá-las em seis fatores, os quais correspondem à forma como se soletra a palavra FUTURE, cada um deles representando uma das faces de um cubo. E a energia que faz este cubo girar é a EMOTION – as reações aos acontecimentos ou tendências que, na maioria das vezes, assumem-se como mais importantes que os próprios eventos que lhes deram origem.
F de FAST [rápido]: todos nós reconhecemos que, com os media sociais e a globalização, o nosso mundo está tão justaposto que pequenos acontecimentos podem criar ou destruir oportunidades de negócio em minutos. Recordemos o exemplo do enorme tremor de terra que abalou o Japão e destruiu um reator nuclear. Em 40 segundos, 40 anos de políticas energéticas foram alteradas no Japão e na Alemanha, na medida em que ambos os países decidiram suprimir a energia nuclear.
U de URBANO: o mundo conta agora com mil milhões de crianças e serão estas que irão moldar os mercados globais ao longo de toda uma geração. Mil milhões de crianças irão deslocar-se das zonas rurais para as cidades nos próximos 30 anos e o que se gastará em infraestruturas ao longo deste período será superior ao montante investido em toda a história da humanidade. A esperança de vida para a maioria das pessoas que pertence à classe média em todo o mundo tem vindo a aumentar uma semana em cada mês ao longo das duas últimas décadas e testemunharemos acréscimos enormes [na longevidade] nas próximas três décadas, globalmente.
T de TRIBAL: cada língua cria uma tribo e cada marca forma uma tribo também. O tribalismo é aquilo que nos torna diferentes e é a base de todo o marketing eficaz. O mundo tornar-se-á crescentemente tribal, enquanto reação à próxima Face.
U de UNIVERSAL: a globalização é uma força imparável, apesar das tentativas de a travar levadas a cabo por alguns governos através de restrições no comércio. Basta pensarmos na web, ou na disseminação da língua inglesa ou no crescimento em escala das empresas de maiores dimensões. Em toda a UE, 50% de todos os gastos em retalho são recolhidos por apenas 10 empresas. Existem somente dois grandes fabricantes de aviões a nível global, apenas dois sistemas operativos para telemóveis e dois sistemas operativos para os computadores. Assim, é expectável uma consolidação e escala crescentes. E com a fusão dos Pagamentos Móveis, da Internet das Coisas, do Big Data e da Nuvem, esperam-se ainda maiores vulnerabilidades no que respeita aos ciberataques, perpetrados por criminosos e por governos – por vezes, trabalhando em conjunto.
R de RADICAL: estamos a testemunhar a ascensão de novos tipos de movimentos políticos – não tanto suportados em divisões esquerda-direita, mas em clusters sobre questões particulares. O Presidente Trump é um exemplo – eleito devido a políticas de migrações, protecionismo e ação nula face ao aquecimento global. Muitos destes movimentos tornar-se-ão crescentemente radicais, alimentados por ideologias extremas ou pouco usuais. E a questão mais importante é a sustentabilidade – é expectável que pelo menos 40 triliões de dólares sejam investidos nos próximos 20 anos em inovações tecnoPatrick lógicas “green”, para transformar o nosso planeta.
E de ÉTICA: esperemos igualmente um enfoque significativo face à forma como vivemos, aos nossos valores, paixões e códigos morais. O que significará ir bem mais além das exigências de compliance. E a ética final será moldada por uma frase de quatro palavras: Construir um Mundo Melhor.

Tendo em conta o ritmo acelerado da mudança, como é possível para empresas – e para a sociedade – antecipar estas profundas alterações e preparar-se para um mundo repleto de esperanças e oportunidades, mas também de uma certa incerteza?

PD: "A verdade surpreendente reside no facto de muitas das maiores tendências globais estarem a evoluir de uma forma relativamente previsível. Tomemos como exemplo o crescimento contínuo do poder computacional, o aumento da largura de banda a nível global, a ascensão dos mercados emergentes, o envelhecimento das populações na Europa, a crescente esperança de vida, etc.. Todavia, existe também um enorme potencial para muitas incertezas e choques, sendo que as estratégias [para com eles lidar] podem e devem ser assentes nos motores fundamentais do nosso mundo futuro e, em simultâneo, numa agilidade significativa dos nossos modelos de liderança."

A propósito da ética, e graças a uma persistente ausência da mesma em quase todos os domínios da vida, sente-se otimista face a um futuro mais ético?
PD: Cada ser humano tem o seu próprio código ético, as suas próprias perspetivas sobre o que é certo e errado, ou sobre o que importa ou não importa. E, em quase todas as nações, existe um reconhecimento crescente, por parte da sociedade, de que as empresas e os governos precisam de ser responsabilizados pelos seus atos. Basta olharmos para a dimensão das sanções que têm recentemente vindo a ser impostas tanto na América como na união Europeia, devido a mau comportamento, e percebemos o motivo devido ao qual as empresas estão a conferir uma maior atenção à ética.

“Tecnologia versus Humanidade” é uma das maiores incógnitas do nosso futuro. Como vaticina este relacionamento?
PD: Encaramos a ameaça da tecnologia à humanidade em duas áreas principais. Uma é a robótica e a inteligência artificial e a outra é a manipulação genética da própria vida humana.
São muitos os que temem a perda generalizada de postos de trabalho para a automação e para as máquinas inteligentes. Não é o meu caso. Em todas as gerações testemunhámos o mesmo: novas vagas de automação e industrialização que aumentaram a riqueza das nações, tornaram muitos empregos desnecessários e conferiram-nos o luxo de reintegrarmos os seres humanos em tarefas de maior valor. E o mesmo irá acontecer novamente. E sim, poderá haver alguma disrupção, mas não há qualquer sinal, no momento, para a ocorrência de um desemprego massificado por causa da automação. Existe, sim, um conjunto alargado de coisas que a sociedade desejará que as pessoas façam ao invés – de que é exemplo cuidar melhor dos idosos, o que seremos capazes de fazer com um menor número de pessoas a trabalhar em funções fabris ou administrativas.
Quanto à revolução genética, está a acelerar. E temos agora ao nosso dispor formas de editar facilmente o código da vida num ser humano, para melhorar a sua qualidade de vida, aumentar a performance e prevenir ou tratar doenças.
E podemos faze-lo de uma forma que seja transmitida para as gerações futuras durante milhares de anos – apesar de termos uma noção muito diminuta do impacto a longo prazo de tudo isto. Temos também, e já, a capacidade de destruir seletivamente milhões de nascituros, os quais consideramos não terem as características que desejamos e, assim, “reformular” o futuro da raça humana. E tudo isto significa lidar com questões éticas e espirituais gigantescas e sobre as quais as nossas sociedades não estão sequer no início de as considerar plenamente. Teremos de ter um cuidado enorme com a forma como utilizamos os poderes tecnológicos, sendo que as gerações futuras nos julgarão por isso."

A ‘sustentagilidade’ é uma outra premissa que junta a inovação e a agilidade como uma forma de resolver algumas das maiores ameaças que se colocam ao ecossistema do nosso planeta, às empresas e aos indivíduos, ao mesmo tempo que é gerado lucro. Na medida em que a nossa audiência é composta, na sua maioria, por gestores e executivos, que tipo de conselho gostaria de partilhar para que as empresas se adaptem com maior celeridade e se mantenham à frente dos seus concorrentes?
PD: "Em muitos países, os clientes e os acionistas terão como expectativa crescente que as empresas sejam boas cidadãs globais. Não desejarão que os recursos hídricos sejam poluídos, que se matem pessoas devido a emissões de gases perigosos, que os campos sirvam de reservatórios para lixo ou que se desperdicem recursos valiosos.
Esperarão igualmente que as empresas sejam cuidadosas no que respeita às quantidades de carbono queimado e responsáveis face à segurança dos seus trabalhadores. E custa muito pouco dar passos na direção certa e, em muitos casos, o período de reembolso será muito curto. O objetivo deverá ser sempre o de desejar que trabalhadores, clientes e acionistas se sintam, e com orgulho, como parte do seu futuro (sobre estas questões aconselho uma visita ao meu website http://www.globalchange.com).
São muitos os que temem a perda generalizada de postos de trabalho para a automação e para as máquinas inteligentes. Não é o meu caso. Em todas as gerações testemunhámos o mesmo: novas vagas de automação e industrialização que aumentaram a riqueza das nações, tornaram muitos empregos desnecessários e conferiram-nos o luxo de reintegrarmos os seres humanos em tarefas de maior valor. E o mesmo irá acontecer novamente.”

Entrevista por Helena Oliveira, Editora do Portal Ver

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