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Os ganhadores e os perdedores da Globalização

Reflexão de Eduardo Catroga sobre os desafios e as oportunidades

“A globalização na história económica, mostra que este processo é altamente disruptivo: existem países e regiões vencedores e perdedores, setores e empresas ganhadores e perdedores e pessoas ganhadoras e perdedoras. Foi sempre assim ao longo da História. Tem tido ao longo da História avanços e recuos. Quais são as perspetivas do processo de globalização? Que tipo de globalização vamos ter nos próximos anos?” Eduardo Catroga, Presidente do Conselho Geral e de Supervisão da EDP, respondeu a estas questões na sessão de continuidade, realizada a 26 de janeiro, em Lisboa. À sua intervenção, seguiu-se um período de  debate das perspetivas distintas e complementares com os Alumni da AESE presentes.

“Mais do que apenas um movimento económico, a globalização significa interdependência das economias, dos mercados, com a aproximação de culturas, de padrões de consumo. Também representa uma redistribuição dos poderes políticos e sociais globais.”

Sobre Portugal

“Há aqui um grau de interconectividade da economia global diferenciado, entre países desenvolvidos e países em vias de desenvolvimento ou países emergentes. Sobretudo num país como Portugal, com um pequeno mercado interno, conseguir ser um vencedor na globalização, isso teria um efeito multiplicador muito importante no crescimento. Aliás, de acordo com um estudo do McKinsey Global Institute, existe o potencial de subida do PIB a longo prazo, de mais de 50 %, no caso dos países que não estão interconectados à escala global conseguirem ser vencedores. É um grande desafio.”

O que a História nos ensina?
“O PIB evoluiu nas duas vagas de globalização. Podemos dizer que os descobrimentos portugueses e espanhóis e depois o aumento do comércio marítimo com portugueses, espanhóis, holandeses e ingleses foi uma primeira ondinha de comércio global, de transporte e transferência de produtos, pois foram os primeiros primórdios.

A primeira vaga de globalização foi de 1870 a 1913, na sequência da Revolução Industrial. Os grandes beneficiários foram os países que se aproveitaram da Revolução Industrial: o Reino Unido, os Estados Unidos, alguns países da Europa Ocidental, nomeadamente, a Alemanha.

Aumentou o comércio mundial, começaram a aumentar os fluxos financeiros, com economias cada vez mais abertas. Há um crescimento do peso das exportações e importações no PIB, no grau de abertura das economias, verificando-se que se criaram desequilíbrios regionais e défices das balanças de pagamento, das transações correntes e uma distribuição desigual da riqueza. O que provocou reações. As políticas públicas não souberam atuar. Havia o regime do padrão ouro e a resposta aos défices externos, em que com o padrão ouro, as transações, no fundo, eram pagas em ouro, o que determinou uma política com uma forte queda da atividade económica, contração dela, gerando nacionalismos exacerbados que levaram à Primeira Guerra Mundial. Portanto, a primeira grande onda de globalização acabou com a guerra, a Primeira Guerra Mundial.

Depois da Primeira Guerra Mundial, houve uma interrupção do crescimento dos fluxos comerciais, de investimento, de capitais, de pessoas. A seguir, veio a crise de 1929-1933, os nacionalismos, até políticas neo-mercantilistas também, protecionismos, etc., etc., culminando a determinada altura na Segunda Guerra Mundial. Depois desta, gerou-se um ambiente propício à retoma do processo de globalização.
E a segunda vaga de globalização teve um período de desenvolvimento após a Segunda Guerra Mundial, que foi o período de ouro de reconstrução da Europa, da integração económica europeia, primeiro com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, depois a Comunidade Económica Europeia, gerando um período de ouro de crescimento económico na Europa.
E os drivers económicos, os drivers tecnológicos, o desenvolvimento da tecnologia de novos produtos, de novos processos, de novos serviços, o desenvolvimento do sistema de transportes, o embaratecimento do custo da mobilidade das mercadorias, das pessoas e depois, mais tarde, o desenvolvimento dos sistemas da informação, tudo isso criou um ambiente, conjuntamente com o fator político da queda do muro de Berlim e o vencimento da filosofia do modelo político e económico da economia de mercado, em que a China, com Deng  Xiaoping, iniciou as reformas no sentido da economia de mercado, a União Soviética desintegra-se e, portanto, parecia que o capitalismo tinha vencido por todo o mundo. Tivemos, portanto, um período deste 1989 (queda do muro de Berlim) até agora à crise de 2008, que lançou todo um conjunto de dúvidas, todo um conjunto de problemas, todo um conjunto de desafios que são ainda aqueles que temos de enfrentar agora no futuro próximo.”

Os ganhadores na globalização

“Os grandes ganhadores da primeira vaga de globalização foram os Estados Unidos e o Reino Unido. Portugal foi um perdedor nessa altura, porque o nosso século XIX foi desastroso, um século em que perdemos uma grande parte do nosso nível de vida em face da Europa: guerras civis, a invasão napoleónica, a bancarrota de 1891. Tivemos o fontismo, com um grande conjunto de obras públicas, mas o nível de vida das pessoas degradou-se relativamente e, portanto, nós perdemos o comboio da primeira Revolução Industrial e não soubemos criar as condições político-institucionais para sermos vencedores da primeira vaga de globalização. Como a Espanha foi também perdedora, a Índia e toda a América Latina e a África. Mas no pós-guerra (pós-1945), fomos ganhadores.

Quando abrimos a economia portuguesa ao exterior, tínhamos sido poupados à Segunda Guerra Mundial, acumulámos reservas, iniciámos um programa de infraestruturas, em recursos energéticos, de construção de barragens com início nos anos 50, a eletrificação do país, o desenvolvimento industrial a partir do condicionamento industrial e depois conseguimos entrar na EFTA, que foi o melhor dos mundos. Isto é, os outros abriram-nos os mercados e nós continuámos com o nosso mercado protegido para importarmos. Ainda sou desse tempo, em que para importarmos eram precisos os BRIs (Boletins de Registo de Importação) até meados dos anos 80. Conseguimos o melhor dos mundos e um período de ouro de crescimento. Com os mercados abertos, conseguimos um desenvolvimento das indústrias viradas para a exportação e fomos ganhadores no processo de globalização.

Ao longo da nossa história raramente temos ganho. Ganhámos ali durante 20 anos. Depois, tivemos outro período de ouro, quando entrámos na Comunidade Económica Europeia e até ao final do século passado, em que realmente acelerámos a convergência real com a Europa e agora estamos numa fase em que podemos ser ganhadores, podemos ser perdedores.
Isto explica o Brexit em parte. Os britânicos têm sido perdedores, os norte-americanos também estão a ser perdedores da globalização. Os grandes ganhadores são a China, a Índia e a Rússia.

Um país ganhador na globalização económica, ou consegue balanças correntes mais ou menos equilibradas ou com pouco défice, ou então consegue ter uma imagem de perceção no mercado de capitais conseguindo obter financiamentos a preços adequados. É o caso dos Estados Unidos por razões que conhecemos.”

A outra face da moeda
“A globalização tirou da miséria, nos últimos 30/40 anos, centenas de milhões de pessoas. A inserção das economias emergentes e de outras economias tem, no comércio global, permitido à Índia, à China e a outros países, com largas centenas de milhões de pessoas e também em certas zonas (África, por exemplo), tirar centenas de milhões de pessoas da miséria.

Mas não há bela sem senão. Estes benefícios têm como contrapartida uma maior desigualdade. Se analisarmos a evolução da distribuição de rendimentos nos países avançados, verificamos que 10 % da população dos mais ricos tem um maior quinhão do bolo crescente. Temos assistido entre os perdedores da globalização a um conjunto de pessoas, chamadas a classe média, que por pressão da concorrência, da desindustrialização, entre outros fatores, veem o seu nível de vida não crescer e até com perspetivas de baixar.

Isto gera todo um conjunto de insatisfação, de expectativas, de movimentos populistas, quer de esquerda, quer de direita e que agora tendem a atacar a globalização, como se fosse realmente a causa primária de todos os males.”

O futuro da globalização
“Há três cenários possíveis:
1.    A globalização acaba. Já não era a primeira vez na história. Acabou sempre com guerras, ou com grandes crises económico-financeiras.
2.    A globalização continua a crescer, apoiada com a digitalização, com o aumento da conectividade dos fluxos informativos e com as plataformas digitais globais. A globalização digital faz com que pequenas empresas, microempresas, as pessoas participem na globalização e não, como aconteceu anteriormente, em que só grandes empresas, empresas multinacionais atuavam.
Está a verificar-se uma tendência para micro-multinacionais que nascem já globalmente: o mercado delas é o mundo, portanto, uma tendência de empresas globais.  
3.    Uma globalização não crescente, plena, com a procura de novos equilíbrios, a apontar possivelmente, numa hipótese de cenário central, para uma globalização multipolar, com alguns polos estratégicos, alguns polos globais. Os Estados Unidos serão seguramente um polo global e a China será também outro polo global. A Europa conseguirá ser ou não? Esta é a grande dúvida.”

A Europa
“Não há dúvida de que a Europa e os Estados Unidos estão aqui perante um conjunto de problemas. Conflitos militares, ataques terroristas, problemas de imigração, crise da imigração, fraco crescimento económico, sobretudo, na Europa, mercados financeiros com impacto negativo na população, impacto no emprego, desigualdade no crescimento económico, aumento do desemprego na sequência da crise financeira, alterações no mercado de trabalho e desindustrialização e a Rússia com vontade imperialista e crescente influência política (o caso da Ucrânia, o caso da Crimeia, o caso da Síria, etc.). Na realidade, todo o clima na Europa e nos Estados Unidos explica o populismo, o descontentamento em face das elites políticas, económicas e sociais que aparecem como corruptas, como geradoras da crise aos olhos da perceção da população em geral, quebra do nível de vida da classe média. Com a desindustrialização, muitos empregos com valor acrescentado desapareceram e, portanto, o desemprego nos Estados Unidos é muito baixo, estão quase em situação de pleno emprego, 4 % de desemprego. Simplesmente, os empregos de maior valor acrescentado foram substituídos por empregos de fraco valor acrescentado, com rotações mais baixas (empregos de serviços domésticos, serviços de baixo valor acrescentado, no turismo, etc., etc.).

Isto gera quebras de expectativas, as pessoas começam a dar ouvidos a pressões nacionalistas, protecionistas. É o que se gera com o movimento de Le Pen em França, com o Brexit. Quem beneficiou o Brexit foi também o mundo rural que não quer mais imigrantes, que se sente ameaçado no seu estilo de vida. É um conjunto de fatores que gera uma forte insistência no curto prazo.
Nos próximos 2, 3 anos, vamos ter alguma estagnação, alguns recuos no processo. É preciso encontrar novos equilíbrios e esses novos equilíbrios penso que vão dar num mundo multipolar, isto é, com alguns polos.

Nas perspetivas futuras, há agora uma nova variável que há 10 anos atrás não tinha a intensidade, que é o desenvolvimento e a expansão dos fluxos de informação. Hoje temos fluxos digitais internacionais, em que, por exemplo, em termos de banda, 2014 comparado com 2005, a velocidade é 45 vezes superior. Portanto, temos a evolução tradicional do comércio e os fluxos digitais internacionais. O que é que isto significa?

Significa que há uma nova fase da globalização, em que o aumento do acesso à interconecção e à digitalização, está a gerar microempresas multinacionais e está a gerar o desenvolvimento de plataformas digitais, em que as pessoas têm acesso a bases de dados de clientes globais, permitindo que não só as pequenas empresas, mas também pessoas com capacidades adequadas, participem no processo da globalização e procurem ser ganhadores da globalização. Permite a participação individual na globalização. Quem estiver preparado para isso.”

Grande desafio
“O grande desafio é criar um ciclo virtuoso da globalização inclusiva e de desenvolvimento no sentido do desenvolvimento das instituições, do desenvolvimento do pilar económico-financeiro, do pilar político-institucional, do pilar social e humano.

São precisos motores. Recuperação do crescimento económico, reforma dos mercados financeiros, com melhor regulação. Globalização com interdependência de mercados, mas verifica-se que provoca questões na sociedade, pondo em causa identidades, comunidades. Isso também vai ser outra preocupação. É um grande desafio a nível global. É para o António Guterres. A agenda estratégica para o António Guterres é gerir a mudança tecnológica e proteger e reforçar os sistemas de cooperação global.

O G20 é capaz de estar ultrapassado e temos de ter instituições globais de cooperação, instituições regionais de cooperação, network de cooperação, os problemas estão todos interligados e, portanto, a humanidade tem de cooperar.

E há os riscos ambientais que, num estudo de Global Risks do World Economic Forum, se salienta como os mais prováveis, os mais preocupantes.

Só se a Europa conseguir um grau de inovação muito superior à média será potência vencedora da globalização. E o investimento europeu tem caído. Temos ali o PIB real em 2008 e em 2015. Quando se diz que o investimento produtivo tem caído, há aqui um fator que é a diminuição do peso relativo da indústria transformadora e o aumento relativo do peso dos serviços, normalmente no modo de intensidade de capital.

Os perdedores da globalização, a nível de países, a nível de classes, fazem com que na Europa haja um convite ao crescimento dos partidos radicais defensores da anti-globalização, anti-projeto europeu, como é o caso em Portugal, onde temos um governo que funciona com o apoio parlamentar de dois partidos que são anti-União Europeia, anti-euro e anti-globalização. Como é que podemos ter consensos estratégicos (e não é só o caso português) sobre as políticas estruturais para sermos vencedores da globalização?

Isto é como numa empresa, onde não há coerência estratégica acionista, vai-se andando, não há políticas estruturais, porque não se acredita no modelo político-económico. Nós queremos é alterar o modelo. Nós não queremos aceitar a realidade. Somos contra a realidade. Mas isto é um problema político português, é um problema político espanhol e francês, em que não há uma interiorização dos agentes políticos, económicos e sociais das exigências para sermos ganhadores da globalização, no contexto de uma economia de mercado, no contexto de uma economia cada vez mais competitiva. Como é que podemos definir políticas no mercado de trabalho ou políticas de investimento público, ou políticas de estímulo à iniciativa privada, à iniciativa e ao risco?

Tem de haver soluções. Promoção de políticas europeias de infraestruturas, políticas europeias no sentido de se encontrar caminhos para a suavização da dívida pública dos Estados Membros excessivamente endividados (não é só Portugal). Portugal, Itália, etc., todo um conjunto de países excessivamente endividados, os custos sociais das mudanças das políticas de ajustamento. Depois, temos a dinâmica populacional que é o velho problema de a gente não conseguir ter uma integração inteligente de imigrantes para combater o envelhecimento, nem para promover a natalidade e a Sra. Merkel teve a coragem de abrir a porta a um milhão de imigrantes e estamos a ver o que está a ter na Alemanha. Se calhar, perde as eleições por causa disso. Aliás, o Brexit também se explica parcialmente por isso.

A União Europeia tem de ser muito mais forte nas reformas, de forma a simplificar, a dinamizar o aparelho de Estado e aumentar a competitividade fiscal e no campo da inovação está a ter um papel e deve reforçá-lo e no campo do investimento produtivo no sentido de o incentivar através dos fundos estruturais.

Na esfera política, conseguir estabilidade macroeconómica e políticas estruturais viradas para a produtividade e competitividade no contexto
português e sua relação com a Europa e depois deixar as empresas conseguir atrair investimento produtivo e deixar as empresas funcionar.”