AESE insight

AESE insight

AESE insight #51 > Thinking ahead

Competências distintivas de um país?

Eugenio Viassa Monteiro

Professor de Fator Humano na I.I.M.Rohtak (India)

Parece exagerado falar de competências de um país, ou de grupos étnicos, de determinadas origens, para um certo tipo de trabalho intelectual ou manual, em que se evidenciam particulares destrezas. É minha convicção que uma pessoa pode alcançar níveis de conhecimentos e habilidades, de acordo com a capacidade intelectual, a vocação pessoal ou uma certa propensão para eles. Mas conta sobretudo a dedicação para entender, assimilar e praticar os fenómenos em causa e ganhar domínio sobre eles.

Há aspetos técnicos a dominar, mas a inclinação pessoal e o exercício podem levar longe. Mais ainda se a prática da modalidade tiver começado muito cedo na vida da criança. Vejo, por exemplo, que nos países onde há um culto da música – penso na Itália, na Áustria, por exemplo -, as crianças desenvolvem uma aptidão e um ouvido apurado, impulsionado pelo ambiente de musicalidade reinante.

Abundam pintores de grande qualidade em Espanha, talvez porque o ambiente artístico e a “presença” de pintores famosos, com obras de alta qualidade, influi através dos museus que são alvo de visitas organizadas para grupos de crianças e adolescentes. Eles parecem conservar na sua memória longa a ressonância das emulações aos que sobressaíram, surgindo neles o desejo de pintar, como eco das exposições que visitaram.

Alguma vez pensei que em Portugal abundavam poetas, fruto, talvez, do ambiente de prestígio e admiração que eles gozam.

Vem tudo isto a propósito de que a Índia é uma das mais importantes potencias e um pool de especialistas, cientistas e técnicos, no domínio das TI-Tecnologias de Informação. Há quem atribua isso ao facto de serem os indianos dotados de um raciocínio lógico, favorável às matemáticas. Outros atribuem a destreza na Informática ao rigor e à precisão das suas línguas que têm por base o sânscrito, com aquelas características importantes para a escrita de software.

O cálculo mental e a lógica de pensar foram sempre alvo de exercício e treino nas escolas básicas da Índia com o veículo linguístico local, como me lembro bem das Escolas de Goa, em marathi.

É verdade que a Índia tem centenas de milhar, senão milhões, de Engenheiros, Informáticos e Matemáticos dedicados aos trabalhos de TI, com resultados brilhantes. Houve uma mudança de perceção sobre a Índia, passando da ideia das vacas sagradas e da pobreza, para o que há de mais avançado em computação.

Com certeza há outros países onde surgiram expoentes de ideias de software e da sua aplicação para fins práticos, para depressa ganharem uma projeção mundial.

Para a Índia, de que só conhecíamos a pobreza – pelo menos assim deixada pelos colonizadores, e que continuou por mais 43 anos após a Independência, até à mudança do seu modelo económico, passando do tipo soviético para o modelo de livre iniciativa, em 1991- surpreende-nos ver a extraordinária expansão das empresas dedicadas às TI. E encontrar pessoas singulares, indianas, de alto nível, catapultadas para posições de topo nas empresas norte-americanas.

A razão mais imediata porque as TI fizeram sucesso na Índia pode encontrar-se na justaposição de dois factos que criaram a ideia de uma facilidade natural dos indianos para as TI. Eles são:

Formação de Engenheiros de muito alta qualidade nos IIT – Indian Institute of Technology. Como eram poucos os IIT, para a população que se queria inscrever neles e formar-se, houve necessidade de grande seletividade. E os que entravam tinham boas possibilidades de trabalho, sobretudo no estrangeiro. Eram disputados pelo seu saber e preparação, como pelos hábitos de trabalho que traziam.

  1. Os que ficavam no país pareciam vegetar, mal pagos, sem desafios à altura. Por causa disso, muitos criaram a sua própria empresa de TI na Índia. Os emigrados, ao mostrar a sua valia eram solicitados para muitos trabalhos que eles, naturalmente levavam para as empresas dos seus colegas na Índia. E começa aí uma colaboração muito frutífera entre os emigrados e as empresas locais, em grande expansão, em número e dimensão, pelo valor que acrescentavam.
  2. A concentração de Engenheiros de alta qualidade nos EUA, deu notoriedade aos IIT-Índian Institute of Technology e outros Institutos de engenharia e aos seus formados, que eram avidamente procurados para preparar a superação do bug do ano 2000; e mais tarde para reforçar novos desenvolvimentos em TI, dadas as claras vantagens para as empresas e para o setor.

No grupo de emigrados, bem preparados e dedicados, surgem expoentes que são catapultados para posições cimeiras de muitas Organizações internacionais, como na Microsoft, Google, Cognizant, Adobe, Nokia, Harmann, IBM, etc., pelo seu incontestável mérito pessoal.

Hoje as maiores empresas de TI nascidas na Índia, nos anos 1970, 80 e depois, atingiram uma dimensão completamente inimaginada, para além de centenas de milhar de dimensão média e pequena, muito especializadas. Cito uns poucos nomes:

  • TCS-Tata Consultancy Services, com um staff de 509.000 trabalhadores especializados;
  • INFOSYS, com 260.000;
  • Wipro, com 210.000.
  • HCL, com 169.000;

Entre as Multinacionais de TI com grandes operações na Índia podem-se citar:

  • a IBM com ~150.000 na Índia, do total de 383.000;
  • a Accenture, com ~150.000, do total de 569.000;
  • A CAP-GEMINI, com ~125.000, do total de 270.000.
  • a Cognizant, com 150.000, do total de 281.000.

Em 2020, trabalhavam nas TI da Índia 4,36 milhões de especialistas diretos e cerca de 12 milhões de trabalhadores indiretos. As taxas de recrutamento são hoje muito elevadas, acompanhadas de uma elevada rotação, por haver muito procura de especialistas que transitam de empresa para empresa.

Embora a transição seja negativa para as empresas, que tem de repor os que saíram, para os especialistas e para o setor tem vantagens, pois é a forma de se valorizarem com as oportunidades que surgem para os mais competentes e preparados. Por vezes os aumentos de vencimento oferecidos, para transitar, podem ser de 100 % dependendo do especialista e da empresa contratante.

Durante e após a pandemia surgiu uma “febre de digitalização”, para seguir a rota da AI-Inteligência Artificial, das LO-learning organizations, do IoT-Internet of things, da robotização, … o que levou à procura de talentos, no imediato; a outra face disso é que com as automatizações que se fizeram, dentro em breve terá de haver redução de pessoal. O setor doméstico que emprega cerca de 16 milhões em TI, dos quais 9 milhões em ocupações de menor especialização, como em tarefas de BPO-Business Process Outsourcing, cerca de 30 % deles, de acordo com a NASSCOM, perder-se-ão com o impacto dos processos de robotização, no ano 2022. Também por isso a maioria de empresas está a recapacitar os seus colaboradores para as novas skillsnecessárias no futuro próximo.

Para além das TI, interessante é referir que há cada vez um maior número de Multinacionais (MNC-Multinational Companies) que se instalam na Índia para fazer Investigação e Desenvolvimento, que necessitam. A Índia tem atualmente cerca de 1750 GCC- Global Captive Centres de 1430 MNC. Deles 35 % são de TI-BPM e 34 % do setor de Engenharia e Produção. Espera-se que até ao Ano 2023 mais 500 MNC estabeleçam na Índia os seus GCC.

Porque as MNC escolhem a Índia? Por ter ampla oferta de cientistas, preparadas, com boa formação superior, nos mais diversos ramos de atividade; as suas remunerações continuam a ser ainda uma fração das da Europa ou dos EUA. Além de que são pessoas com hábitos de trabalho intenso, disciplinado e inteligente.

Toda a I&D em TI é feita na Índia por empresas privadas, com grande dinamismo, a par das mais avançadas empresas mundiais do setor.

Outros artigos da edição de 14 de outubro do AESE insight

Bons e novos desafios para o ecossistema da vinha e do vinho

José Ramalho Fontes, Presidente da AESE Business School e Professor de Operações e Tecnologia

Construir o Futuro faz sentido?

Pedro Alvito, Professor de Política de Empresa da AESE Business School e Diretor do Programa “Construir o Futuro nas Empresas Familiares”

What is the environmental impact of hydraulic fracturing?

Pietro Bonetti of IESE, Christian Leuz of the University of Chicago Booth School of Business and Giovanna Michelon of the University of Bristolm, IESE insight

6 Strategies for Leading Through Uncertainty

Rebecca Zucker and Darin Rowell, Harvard Business Review

The surprising link between creativity and risk

Michele Wucker, strategy+business

To control the anxiety produced by moments of intense pressure, first step back and analyze the stakes

Theodore Kinni, strategy+business

Próximos programas de formação

DEEP -Digital Emersion Executive Program – live online

Início a 25 de outubro

Programa de Alta Direção de Empresas (PADE)

Início a 2 e 3 de novembro, em Lisboa e no Porto

Hospital Business Enhancement (HBE) live online

Início a 8 de novembro