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AESE insight #58 > Thinking ahead

O setor alimentar e de bebidas europeu em 2022. Tendências no comportamento do consumidor e na cadeia de abastecimento.

Adrián Caldart

Presidente do Conselho Académico e Responsável Académico de Política de Empresa da AESE Business School e Professor do IESE Business School

O setor alimentar europeu revelou-se altamente resiliente e capaz de responder com elevada eficácia aos desafios que a pandemia da COVID-19 apresentou desde março de 2020. Tanto o setor primário como a indústria e a distribuição estiveram à altura do desafio em países caraterizados por uma significativa produção e presença no mercado internacional como Portugal e Espanha. Por outro lado, a pandemia afetou imenso a procura do canal hoteleiro, o qual foi atingido fortemente pelas empresas industriais do setor cujas vendas eram muito direcionadas para esse canal, nomeadamente, os produtores de bebidas, café e snacks.

Perspetivas para 2022

O setor alimentar europeu entra em 2022 cheio ainda de interrogações face à evolução que possa haver de alguns fatores macro que o afetam de modo muito significativo. Destacamos entre esses os dois seguintes:

A evolução futura da pandemia. A variante Ómicron é, por um lado, preocupante pelo receio despertado pelos números de contágio que levaram países como Portugal, Áustria e Holanda a reestabelecerem fortes restrições à mobilidade e a maioria dos restantes países europeus a voltarem a endurecer os seus controlos. No entanto, numa nota positiva e de esperança, crescem as vozes dos especialistas internacionais que nos anunciam a chegada próxima do ansiado cenário de “imunidade de grupo” e de “gripalização” do vírus, que poderia conduzir a uma melhoria substancial (e definitiva?) na situação de saúde na Europa num prazo de dois ou três meses, desde que outras variantes da COVID-19 não introduzam novas dificuldades.

O regresso da inflação. Há uma preocupação crescente com o impacto do aumento generalizado do nível de preços verificado em todos os países europeus, Estados Unidos, China e Japão. Este fator é potenciado pelas renovadas tensões nas cadeias de abastecimento durante os primeiros dias de janeiro, que ameaçam constituir um problema durante grande parte do ano de 2022, devido às persistentes tensões de preços nos mercados do gás e da eletricidade, às emergentes tensões salariais e ao renascido debate a respeito do nível das taxas de juro. Todos estes fatores ameaçam fazer subir em espiral a inflação e convertê-la num fator estrutural que mudará o cenário económico mundial dado por adquirido durante mais de duas décadas.

Centrando-nos mais nos fatores especificamente ligados ao setor, identificamos as seguintes tendências como algumas que serão muito relevantes durante o ano de 2022:

Comportamento do consumidor. A responsabilidade ambiental ressentiu-se um pouco durante a pandemia, mas os consumidores estão conscientes da necessidade de fazer mais sobre isso. Igualmente, as preferências em termos de saúde, qualidade e valores que se revelavam com força crescente antes da pandemia, persistem vigorosas hoje, nomeadamente entre as gerações mais jovens. Entre estes temas, reforçam-se as apostas referentes a:

  1. A exigência de um embalamento sustentável e a rejeição das embalagens de plástico, especialmente as de uma única utilização, com o impacto consequente no custo do produto, cuja transferência para o preço final poderia não ser validada pelo consumidor.
  2. A redução do consumo de proteína animal e substituição por proteínas de origem vegetal, por serem consideradas mais sustentáveis. As aquisições das empresas europeias com foco em proteína animal, Vivera e BioTech foods, por parte da JBS. S.A., o maior produtor de carne do mundo, revelam que os grandes players do mercado consideram que esta tendência veio para ficar.
  3. A busca de mais e de melhor informação sobre as caraterísticas nutricionais dos produtos e o rastreio dos seus ingredientes, procurando alternativas mais saudáveis. Consequentemente, os alimentos e bebidas funcionais que reforcem o sistema imunológico, reduzam o stress e/ou melhorem a qualidade do sono continuarão a ganhar atratividade.
  4. O maior apreço por produtos provenientes de cadeias de valor mais localizadas e, por isso, menos poluentes.
  5. O crescente reconhecimento do produto local, embora ainda predomine a preferência pelos produtos das empresas das grandes marcas internacionais em muitas categorias.
  6. A maior valorização dos produtos considerados como “amigos” do meio ambiente e produzidos por empresas socialmente responsáveis.

Cadeia de abastecimento.A preocupação com a segurança alimentar aumentou nos últimos anos como resultado das tensões existentes nas relações comerciais internacionais, das epidemias virais que afetaram animais destinados ao consumo e da obsolescência dos métodos de produção agrícola nalguns países. Estas tensões foram agravadas seriamente pela COVID-19, por causa da escassez de oferta de trabalhadores, das disrupções na cadeia de valor resultantes das restrições relacionadas com a pandemia e da forte procura de produtos agrícolas por parte da China (com um crescimento de 6,1 % em 2020). Isto levou a um aumento interanual nos preços alimentares de 31,1 % em outubro de 2021, segundo dados da FAO. Em 2022, espera-se que se manifestem as seguintes tendências:

  1. Os produtores tenderão a acelerar a automatização do setor primário através da digitalização e da adoção de práticas da indústria 4.0, como modo de responder à falta de mão-de-obra no setor. Este fator manifestou-se já de modo significativo no Reino Unido, país além do mais prejudicado no seu comércio internacional e no acesso à mão-de-obra, devido às dificuldades suscitadas pela sua decisão de deixar de ser membro da UE.
  2. A OCDE estima que os preços dos alimentos nos países do G20 continuarão a subir acima do ritmo pré-pandemia neste ano de 2022. Isto permite prever que as tensões na cadeia de valor continuarão durante este ano, prejudicando imenso os elos intermédios da mesma. Daí se prever o aparecimento de movimentos estratégicos, já verificados em 2020 e 2021, de integração vertical por parte de empresas que procurarão assegurar fontes de fornecimento próprias num mercado com escassez de oferta e margens de lucro reduzidas nas suas operações.

Em síntese, o ano de 2022 continuará a ser um ano onde as empresas do setor alimentar e de bebidas atuarão num contexto que procura novos equilíbrios. E, como sucede sempre nestes casos, os que enfrentem as novas realidades adaptando as suas propostas de valor e os seus modelos de negócio àquelas, encontrarão nos fatores supracitados fontes de singulares oportunidades para protagonizar o futuro do setor.

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