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Os desafios de sustentabilidade para o Terceiro Setor

30/05/2022

A AESE recebeu a 30 de maio de 2022, a comunidade GOS para o encontro anual do setor de Economia Social. Desta feita, os participantes das edições GOS 2022, a decorrer, e antigos e potenciais futuros alunos do Programa, todos eles ocupando cargos de gestão e liderança em instituições deste setor, reuniram-se em torno do tema “Desafios de sustentabilidade”.

Deste encontro ficaram algumas conclusões importantes, num tempo desafiante para o setor na resposta a uma crise sanitária e geopolítica sem precedentes, com implicações económicas e sociais bem conhecidas.

Constata-se que existem fundos para investimento no setor, importa desbravar os caminhos de acesso aos mesmos. Este poderá ser um tempo de oportunidade, no que concerne ao diálogo setorial e intersetorial – trabalhar em rede, com propósito e numa base de resiliência são desafios que alimentam esse sentido de oportunidade. O setor social constata que mais do que de donativos, precisa de parceiros constantes de futuro, num investimento que permita cruzar interesses e agendas.


Fazer bem o que deve ser feito a cada dia
As palavras de abertura foram proferidas por José Ramalho Fontes, Presidente da AESE Business School, que aludiu ao facto de este ser já um encontro tradicional e positivo na AESE, com vista “a contribuir para que os dirigentes das instituições sociais sejam cada vez melhores lideres”.


“A partilha de boas práticas de gestão com o setor social” é relevante não só por integrar a “missão da AESE, cidadã com responsabilidade social, mas também porque o terceiro setor apresentar os mesmos problemas sentidos pelo setor corporativo, sendo que aprendermos todos no curto, médio e longo prazo.


O setor social, segundo José Ramalho Fontes, deve guiar-se por uma “Liderança servidora”, uma orientação partilhada por todos os participantes no encontro, que procuram acrescentar valor à sociedade no exercício das suas funções.


Uma visão macroeconómica
O Prof. Manuel Rodrigues propôs uma reflexão conjunta sobre os desafios atuais que o mundo abraça globalmente.
O seu objetivo consistiu em abrir espaço a novas perspetivas. “Temos dificuldade a Ocidente em gerir o facto de haver quem não concorde connosco. É nesse diálogo e nessa capacidade de conviver com quem discordamos que encontraremos soluções económicas e geopolíticas” para os desafios do presente.


A crise passou a fazer parte da vida independentemente da sua origem – sanitária, geopolítica, ambiental ou outra. Há que “aprender a lidar com estas contrariedades e ter sucessos com elas”.


Com a Covid-19, houve uma resposta articulada em todo o mundo pelos Bancos Centrais que permitiu em 18 meses passar do período de maior recessão para a recuperação. A inflação que começamos a enfrentar é resultado de uma política monetária expansionista. Ainda não incorpora totalmente o impacto do novo contexto geopolítico provocado pelo conflito deflagrado na Ucrânia, pela Rússia. O crescimento rápido em todo o mundo deu origem a picos de preços sem precedentes, a nível de bens alimentares, metais e energia, que se começaram a sentir antes da guerra.

“Nas organizações precisamos de ter previsibilidade e confiança, para concretizar as nossas missões.” Atualmente, temos um sistema bancário mais sólido. “O nível de capital próprio é 2 vezes mais alto que antes da crise financeira” e “as condições de financiamento são muito favoráveis, já que o custo de financiamento das empresas e das famílias atingiu o nível mais baixo de sempre.”


O Prof. Manuel Rodrigues terminou a sua intervenção com um olhar sobre a guerra, aludindo à possibilidade de se poderem retirar as matérias-primas da Ucrânia e a viabilizar o restabelecimento do comércio. Fez notar que há muita gente a perecer com o conflito e sobretudo com a fome, pela escassez dos alimentos. E que será necessário equacionar as bases de um acordo de paz, não obstante o ataque russo ser condenável e a Ucrânia merecer a solidariedade global.


Saber aplicar os Fundos do Plano de Recuperação e Resiliência no Setor Social?
Pedro Caldeira Santos, Diretor Municipal da Captação de Recursos da Câmara Municipal de Cascais (CMC) explicou como a autarquia está a gerir fundos do PRR.


“Existem 40 mil milhões de euros para Portugal financiar a economia até 2027.” Contudo, Pedro Caldeira Santos prefere usar a expressão “alavancar a economia”, por se referir à boa gestão dos fundos e ao modo correto de os aplicar, sem equívocos e sem uma utilização fraudulenta.


“O tempo e como se irá gastar o dinheiro”, enquadrado no PRR na dimensão da Resiliência, “é muito importante.” Com recurso a vários exemplos do que se faz na CMC, tornou-se evidente o papel das autarquias na gestão dos fundos do PRR.


Clarificado foi igualmente o desafio, para as entidades do setor de economia social, de articular a sua intervenção com os respetivos municípios, trabalhando em rede para poderem, elas também, beneficiar dos fundos do PRR. Sendo processos francamente burocráticos e burocratizados, não podemos correr o risco de não os rentabilizar em prol do bem comum, referiu.


O orador convidado mostrou disponibilidade para apoiar as entidades que pretendam candidatar-se aos fundos do PRR, com o know how que tem acumulado ao logo da sua trajetória profissional.


O evento seguiu depois com vários painéis tendo sido possível rever a iniciativa Portugal Inovação Social, abordar o grande tema da relação entre as empresas lucrativas e o setor de economia social, e ainda os desafios da gestão de pessoas em instituições deste setor.


Portugal Inovação Social – Portugal 2020 – O que foi, que se tem aprendido, o que será?
Painel | Marta Albuquerque, EMPIS; Carmelita Dinis, Movimento de Defesa da Vida (MDV); Maria João Toscano, Associação Dignitude. Moderador AESE | Khalid Jamal, da AESE


Portugal Inovação Social é uma iniciativa pública que visa promover a inovação social e dinamizar o mercado de investimento social em Portugal, mobilizando cerca de 150 milhões de euros do Fundo Social Europeu, no âmbito do Acordo de Parceria Portugal 2020. Este painel permitiu, com a presença do MDV, a partilha da experiência de usufruir de um título de Impacto Social, sobretudo dos desafios de acesso e concretização dos fins do mesmo. Por outro lado, com a presença da Dignitude e a exposição do projeto A bem, foi possível compreender a dinâmica de acesso aos fundos para a concretização de projetos com objetivos claros que procuram responder necessidades concretas. Marta Albuquerque expôs a realidade atual da Portugal Inovação Social, sublinhado que há fundos para serem investidos e frisando que inovar não significa ser disruptivo. Foi francamente enaltecida a importância de olhar para o que fazemos e pensar como o poderemos fazer melhor – aí estará o caminho de inovação e nele um possível acesso aos fundos.


Empresas e entidades sociais – um diálogo possível.
Painel | Mariana Ribeiro Ferreira, GRACE; João Maria Condeixa, The Janssen; Filipa Pinto Coelho, Associação VilacomVida; Isabel Vieira da Cruz, Associação Cuerama. Moderador AESE | Prof. Jorge Ribeirinho Machado, da AESE

Existe atualmente um grande desafio em matéria de diálogo entre entidades do terceiro setor e empresas lucrativas: encontrar formas de comunicar e agir numa perspetiva win-win. E isto é possível. Falamos de pegada ambiental, temos de falar de pegada social a par de pegada na economia. Isto consegue-se com o estreitar de relação entre os dois setores. Os donativos “avulso” não respondem aos desafios da atualidade; as entidades sociais precisam de empresas que se comprometam com constância. Por outro lado, as empresas precisam de aliar lucro e propósito num diálogo com sentido e em verdade. Foi uma mesa de debate em que os temas fluíram entre a experiência vivida pelas associações VilacomVida e Cuerama e a empresas aqui representadas pela The Janssen e pelo GRACE. Foram partilhadas sugestões que certamente serão uteis a todos os que tiveram o prazer de assistir ao painel.



Desafios da força de trabalho em economia social
Painel | Sofia Simões Ferreira, ASSOL; Bárbara Mateus, SCM Grândola; Susana Lima, SCM Ponte de Lima; Marcos Abreu Pinto, CSP do Carmo. Moderador AESE | Prof. Paulo Miguel Martins, da AESE

Quando falamos de sustentabilidade pensamos de imediato no domínio financeiro. Não faria porém sentido terminar o seminário sem falar dos recursos mais impactantes nas organizações – as pessoas. Com a experiência de cada um dos presentes neste painel foi possível conversar e debater os desafios da gestão de pessoas no atual cenário de crise. Entre outros, foram abordados temas como os novos modelos de trabalho, a motivação humana, as questões salariais e de incentivos, a retenção de talento. Sendo um painel composto por intervenientes de diferentes geografias, foi possível enriquecer o debate com a experiência de norte a sul do país, passando pela ilha da Madeira.


Encerramento do encontro
Professoras Cátia Sá Guerreiro e Fátima Carioca, da AESE

Porque se tratou de um seminário setorial e entre instituições que têm em comum a AESE e o Programa GOS, o dia terminou com os desafios de futuro para esta comunidade – manter o diálogo e a aposta na formação e investigação que possa dar suporte Às temáticas em agenda no setor e ainda o desejo de operacionalizar uma avaliação de impacto retrospetiva do Programa de Gestão das Organizações Sociais.
A Dean da AESE, Fátima Carioca, despediu-se de todos os participantes recordando a importância do setor de economia social para a economia nacional e para a resposta concreta às necessidades da população portuguesa. Sublinhou ainda os laços que nos unem na AESE, não apenas entre os que são do mesmo setor e, portanto, alunos ou antigos alunos do mesmo programa, mas entre todos os que pertencem à grande família que é esta Business School.


No networking coffee, o qual marcou o final do evento, ficou evidente a vontade de voltar em 2023!