No dia 11 de Abril de 2020, exatamente 30 dias depois de a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter decretado o estado de pandemia mundial COVID19, estava Patrícia Pereira no seu gabinete, pelas 19 horas, quando o telefone toca. Ligava Riad Mishlawi, Presidente dos Injetáveis do Grupo HIKMA, que a convocava para uma reunião urgente, pelas 20 horas desse próprio dia. A agenda, que recebeu de seguida no seu calendário, tinha um único tópico: Produção de Remdesivir. Passados exatamente 60 minutos, Patrícia, Supply Director dos injetáveis da HIKMA, chega à sala magna de reuniões do Concelho de Administração.
Já lá estavam também Natheer Masarweh e Gonçalo Veríssimo, membros do conselho de administração da HIKMA Portugal (HIKMA). Além do board e de Patrícia, também tinham sido convocados Carla Gomes, diretora de recursos humanos, Rodrigo Campos, diretor da Qualidade e ainda Susana Carvalho, responsável pela Direção de Financeira.
Riad inicia a reunião: “Meus caros, agradeço a disponibilidade e a vossa presença para esta conversa que será breve e que servirá para lançar um dos maiores desafios que a HIKMA Portugal já enfrentou: Fomos contactados pela Gilead, para contribuirmos para a produção de Remdesivir, atualmente o fármaco mais eficiente no combate ao COVID19. A Gilead propôs-se a contratar 6 milhões de unidades até ao final de 2020. Este é um produto de génese distinta dos que produzimos atualmente, mas é um desafio que não podemos recusar. Estamos perante uma pandemia mundial e é obrigação da HIKMA contribuir com as suas valências para o combate a esta crise.”
Natheer reforça. “O que Riad acabou de referir está perfeitamente alinhado com a missão da HIKMA, usamos a nossa visão única para transformar tecnologia de ponta em soluções inovadoras que transformam a vida das pessoas em todo o mundo, proporcionando melhor saúde a preços acessíveis todos os dias. A oportunidade de deixarmos o conhecimento e competência da HIKMA ligados ao combate da maior pandemia mundial dos últimos 100 anos é única”.
Gonçalo Veríssimo acrescenta “mais do que isso, temos uma oportunidade igualmente importante de alargar o nosso portefólio de produção, sendo a oportunidade ideal para alargarmos o leque de produção de liofilizados, com um parceiro de excelência. É uma oportunidade excelente e um desafio que não podemos recusar.”
Patrícia interveio: “Sem dúvida que estamos perante uma situação muito delicada, mas temos de estar conscientes que a opção de produção do Remdesivir tem de ser previamente analisada. Não estou certa de termos neste momento capacidade de produção que comporte a produção de 6 milhões de unidades adicionais até ao final do ano, sem comprometer a produção e compromissos atuais. Tenho receio que as nossas linhas de produção não estejam preparadas para o efeito, quer em termos de equipamento de linha, quer em termos das qualificações dos operadores que temos ao nosso serviço. O Remdesivir é um produto liofilizado, com características especiais, que obrigará a uma formação intensiva. Além disso, dado que estamos a trabalhar a 98% da nossa capacidade, a opção de acrescentar um produto à linha de produção, caso seja tecnicamente viável, levará possivelmente a incumprimentos contratuais previamente assumidos.”
Susana reforça: “temos que validar os contratos que temo assinados que possam ter cláusulas de penalização em caso de incumprimento. Este tema terá de ser analisado detalhadamente, tendo em conta o contexto de pandemia em que estamos contextualizados.”
Carla acrescenta, “há ainda que ter em conta que os operadores fabris terão de conciliar o atual horário de trabalho com horas extra de formação, o que poderá levar à necessidade de trabalho extraordinário.”
Natheer toma novamente a palavra: “sem dúvida que o desafio é grande e não vos peço resposta imediata para todas as dificuldades que estão a elencar. Deixo algumas notas que peço que sejas analisadas e trabalhadas, para apresentarem uma análise de viabilidade no sentido de que a HIKMA possa produzir o Remdesivir nas nossas instalações em Portugal.
. O que teremos que adaptar nas linhas de produção? De que forma? Quais as necessidades?
. Em termos de recursos humanos, temos as competências para tal? Se não temos, o que nos falta?
. Os processos de controle de qualidade existentes são suficientes para responder aos padrões de qualidade da Gilead?
. Quais as responsabilidades que temos assumidas com os nossos clientes, de que forma serão afetadas e como podemos mitigar eventuais incumprimentos? Como as podemos mitigar tendo em conta a flexibilidade exigida no contexto de pandemia?
. Em termos financeiros, a proposta da Gilead parece interessante, com um preço unitário de 10$/unidade.
. Finalmente, tenham em conta que a missão da nossa companhia invoca a nossa capacidade de criar soluções inovadoras que transformam a vida das pessoas em todo o mundo. Temos uma oportunidade única de ficar na história e apoiar a humanidade naquilo em que realmente somos muito bons.
Peço que trabalhem e me apresentem uma análise de viabilidade de produção de Remdesivir, com início de produção no espaço de 8 semanas. Peço que me apresentem um plano de ação no espaço de 7 dias. Parece-me que o principal desafio que temos pela frente será relacionado com a operação das nossas linhas, pelo que proponho que seja Patrícia a coordenar o trabalho da equipa.”
Ficou logo marcada uma reunião para o dia seguinte, às 08:30 da manhã, para iniciar os trabalhos deste inédito grupo de trabalho.