Em Janeiro de 2004, o Dr. Govindappa Venkataswamy (Dr. V) revia a lista de médicos oftalmologistas interessados em visitar e receber formação no hospital Aravind durante o próximo Verão. Admirava-se por ter recebido um número de cartas muito superior ao dos anos anteriores, vindas de especialistas conceituados e também de responsáveis pelas áreas de gestão hospitalar de vários países.
Havia um aumento de interesse pelo trabalho que o Aravind vinha a fazer. O sistema organizativo inovador era reconhecido como um modelo a adoptar noutros países. Os resultados estavam à vista de todos; desde 1976, mais de 1 milhão de pessoas na Índia tinham recuperado a visão.
Para o Dr. V, a sensação de devolver essa capacidade às pessoas era maravilhosa e indescritível. Segundo ele, “quando crescemos na consciência espiritual, identificamo-nos com tudo quanto há no mundo e não há lugar à exploração. É a nós próprios que estamos a ajudar; não actuamos com aquele sentimento de que vamos fazer bem a uma pessoa pobre ou destituída.”
Vivera na ânsia de descobrir alguma forma para que todos os invisuais, em condições de o fazer, pudessem recuperar a vista. Interrogava-se se seria possível transformar aquilo que tinha feito no Aravind num sistema “franquiável”, como o McDonald´s. Como deveria proceder para que ainda em vida pudesse realizar o sonho de devolver a capacidade de visão a todos aqueles que sofriam de cegueira curável?
O Dr. V. tinha deixado a sala de operações e a direcção dos hospitais Aravind em 1997, dado que o avançar da idade já não lhe permitia realizar as delicadas operações cirúrgicas aos olhos. Tinha assumido o cargo de chairman e mantinha-se activo no hospital, colaborando no desenvolvimento das actividades de investigação e formação.
No entanto, e apesar dos bons resultados alcançados, havia algo que o preocupava. Este projecto tinha sido a concretização do sonho da sua vida, mas chegava o momento de reflectir no que tinha sido feito e no futuro da organização que criara. Prepararia uma reunião para discutir esse tema com a administração, mas, para tal, era importante avaliar toda a actividade e o que fora alcançado até aos dias de hoje.
Recordava-se das palavras com que tinha encerrado a última reunião: “Alguém me perguntou recentemente se há 20 anos atrás eu teria pensado que o Aravind ia progredir até ao ponto onde está hoje. Estabeleceram-se metas, é claro, e há talvez uma vaga ideia de como o futuro se desenha. Mas quando o trabalho é encarado numa perspectiva espiritual, ele transforma-se num trabalho divino. Se nas nossas acções permitimos que a força divina flua através de nós, fazemos coisas muito maiores do que tínhamos imaginado.”