O setor agroalimentar português é uma história de sucesso. Em 2024, de acordo com a análise do GPP, o setor exportou 10 mil milhões de euros, o que corresponde a 13% do valor total das exportações de bens de toda a economia nacional.
Só no setor das frutas, legumes e flores – que já exporta 2,5 mil milhões – triplicámos as exportações em pouco mais de uma década, ganhámos reconhecimento nos mercados mais exigentes, apostámos em certificação, inovação, digitalização, robotização e rastreabilidade.
A Agricultura está a mudar o presente e pode moldar o futuro de Portugal. Mas para isso é preciso ambição. Primeiro, na gestão dos recursos hídricos. Depois, nos acordos comerciais estratégicos, como o Mercosul, que muito podem contribuir para diversificar mercados e valorizar os nossos produtos.
Comecemos pelos recursos hídricos. Sem água não há produção, não há alimentos, não há coesão territorial. E não haverá sustentabilidade para um setor que já provou ser competitivo, resiliente e estratégico. Em 3,7 milhões de hectares agrícolas, apenas 15% têm regadio. Isto é inaceitável num país com condições de clima de excelência e com produtos de elevada qualidade e segurança, reconhecidos em toda a Europa. Na Andaluzia, por exemplo, onde existem 3,6 milhões de hectares agrícolas, há 1 milhão de hectares de área regada.
A estratégia Água que Une, apresentada em março de 2025, não pode ser mais um projeto com um nome bonito. Tem de ser um projeto de interesse nacional e liderado pelo próprio primeiro-ministro. Promete 5 mil milhões de euros até 2030, mas estão por conhecer as datas concretas para este investimento. Sem barragens, charcas, reservatórios e sistemas modernos de distribuição, não há milagres. Os agricultores já produzem mais, utilizando menos água, usam sensores, tecnologias de precisão e novas variedades mais resistentes. Mas sem modernização das infraestruturas, as perdas de água são cada vez mais elevadas (antes mesmo de chegarem aos agricultores) e não há inovação que trave este problema, com tão grande impacto para o ambiente e a economia. Corremos o sério risco de perder competitividade e ficar dependentes de importações. Comprometemos, assim, a segurança alimentar, a sustentabilidade e o equilíbrio do território.
O ponto seguinte que gostaria de abordar é relativo aos Acordos Comerciais, nomeadamente, o Mercosul. A segurança alimentar está em risco em toda a União Europeia. Embora seja o líder mundial das exportações neste setor, a verdade é que, nos últimos anos, as importações têm vindo a crescer a um ritmo muito superior.
Em 2024, a UE exportou 233 mil milhões de euros, ficando à frente dos Estados Unidos (com 168 mil milhões de euros) e do Brasil (com 133 mil milhões de euros). A China, com 77 mil milhões de euros de exportações, e o Canadá, com 63 mil milhões de euros, fecham o top 5. Nas importações, a UE ocupou o terceiro lugar das geografias que mais compram produtos alimentares nos mercados externos, com 171 mil milhões de euros em 2024, atrás da China com 182 mil milhões de euros, e do líder das importações mundiais, os EUA, com 194 mil milhões de euros. O Reino Unido com 78 mil milhões de euros e o Japão, com 58 mil milhões de euros, fecham o top 5.
Em suma, em 2024 as exportações da UE cresceram 3% face a 2023 e as importações cresceram 8%, o que reforça a preocupação com a nossa segurança alimentar.
Estes números representam as trocas comerciais do agroalimentar entre os vários blocos geográficos a nível mundial, e evidenciam a necessidade da União Europeia em conseguir acordos robustos para aumentar e diversificar as suas exportações. O Acordo de Comércio entre a União Europeia e os países do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) é uma oportunidade globalmente positiva para o agroalimentar da UE, já que possibilita o acesso a um mercado de 270 milhões de consumidores. Na minha opinião, também é uma oportunidade muito positiva para o agroalimentar nacional.
As salvaguardas previstas no acordo sobre as importações para a UE defendem os sub-sectores que, à partida, são mais vulneráveis. Há, agora, que exigir o cumprimento e fiscalização das regras incluídas no acordo. O Brasil, pela nossa história, pelo conhecimento dos consumidores brasileiros de alguns produtos que já exportamos e pela facilidade da língua, é o mercado de maior potencial para os produtos portugueses. No entanto, importa também olhar para a Argentina, o Paraguai e o Uruguai de forma a atingir os 270 milhões de consumidores que este acordo nos trás, em vez de apenas 210 milhões. O azeite, os vinhos, os queijos, as frutas, entre outros, poderão ter uma enorme oportunidade de acesso sem tarifas a um mercado de elevado potencial.
A decisão do Parlamento Europeu de remeter o acordo UE-Mercosul ao Tribunal de Justiça da UE é um sinal errado para um mercado mais aberto e global e principalmente para os nossos parceiros sul-americanos.
Desde Setembro, tenho participado em várias feiras internacionais, missões empresariais e missões de prospecção. Passei por Hong Kong, Dubai, Berlim, Madrid e São Paulo – onde acompanhei a missão comercial da UE ao Mercosul liderada pelo Comissário Europeu para a Agricultura e Desenvolvimento Rural. Estive ainda em Barcelona onde realizei uma formação no IESE Business School, e em Budapeste. Em todos estes locais visitei mercados e supermercados e pude observar e sentir que os consumidores estão cada vez mais exigentes e informados. O crescimento mundial dos consumidores (já ultrapassam os 8,2 mil milhões, serão 8,5 mil milhões em 2027 e, em 2037, atingirão os 9 mil milhões), regista-se em blocos geográficos fora da Europa, principalmente, na Ásia e em África.
Temos um setor que cria emprego, promove a biodiversidade, protege o interior, contribui para a balança comercial e tem margem para crescer muito mais. Mas é preciso visão estratégica. Apostar na água. Aumentar a escala através da organização da produção. Abrir novos mercados com uma diplomacia económica eficaz. Acima de tudo, agir. Porque Portugal pode ser uma potência agroalimentar na União Europeia.