À medida que a crise energética se desagrava e o conflito no Estreito de Ormuz se resolve, abre-se um novo ciclo de recuperação económica cujos primeiros sinais importa interpretar com cuidado. O preço do petróleo regressou a valores anteriores à crise de Ormuz: o barril abriu a sessão de 25 de junho a 74 dólares. Mas a centralidade do estreito não se mede pela cotação de um único dia. A narrativa destes últimos 4 meses aponta que cerca de um quinto do petróleo mundial passa por aquele corredor marítimo. Mas essa formulação pode ser equívoca se for lida apenas em termos de produção global. Para os países importadores, o que releva é o petróleo disponível para exportação, isto é, aquele que pode ser adquirido, transportado e consumido por economias que não o produzem. Segundo dados da OCDE e de outras fontes internacionais de energia, Ormuz e Rússia, representam cerca de 49% do petróleo exportável mundial1 – 38% associado a Ormuz e 11% à Rússia. Mesmo tomando números mais conservadores, a conclusão é a mesma: Ormuz é um ponto nevrálgico da economia mundial.
O restabelecimento dos fluxos de navegação comercial no estreito de Ormuz leva-nos a refletir sobre o mercado do petróleo e a regressar a uma velha lição da economia: nem todos os mercados se ajustam da mesma forma. O petróleo é um caso particularmente revelador. Em teoria, quando o preço sobe, a procura diminui. Na prática, no curto prazo, a procura de petróleo é muito pouco elástica. Famílias, empresas, transportadoras, indústrias e Estados não conseguem alterar instantaneamente padrões de consumo, frotas, cadeias logísticas ou infraestruturas energéticas. Um aumento abrupto do preço do petróleo pode travar alguma procura, mas dificilmente a reduz na proporção necessária para estabilizar rapidamente um novo equilíbrio entre procura e oferta. É por isso que os choques petrolíferos são tão impactantes. O problema não é apenas o preço; mas a inelasticidade da procura. A procura corrige, mas corrige devagar. E, quando a correção da procura demora, o choque inicial da inflação das matérias-primas energéticas começa a contaminar a formação de preços de todo o resto da economia. Primeiro a energia. Depois os bens. Depois os serviços.
A Europa sai deste quadro económico numa posição frágil. Cresce pouco, depende de energia externa, tem uma indústria exposta a custos de produção elevados e enfrenta uma conjuntura monetária mais complexa. As projeções do Banco Central Europeu de junho de 2026 mostram bem a natureza do risco: No cenário base, o BCE antecipa crescimento do PIB2 da área do euro de 0,8% em 2026. A inflação, por sua vez, prevê-se que se situe nos 3% em 2026. Sabemos que se o preço do petróleo sobe durante pouco tempo e depois recua, o choque é administrável e o seu impacto na inflação centra-se nos produtos energéticos. Mas se o preço do petróleo permanece elevado durante tempo suficiente para se infiltrar nos contratos e nos preços dos serviços, a inflação deixa de ser apenas energética e estende-se a toda a economia (como ocorreu). Nesta altura, mesmo que o preço do petróleo desça, os preços dos bens e serviços já não regressam ao ponto de partida.
Mas a energia não é o único risco. A outra vulnerabilidade, menos visível, mas talvez mais profunda, é a dívida global das várias economias que se encontra hoje muito acima dos patamares da Crise Financeira com início em 2008. Num mundo de choques recorrentes, a dívida pública é mais do que um indicador de prudência e soberania orçamental. É o referencial de estabilidade. Países muito endividados têm menos margem para proteger famílias, apoiar empresas, investir em infraestruturas, responder a crises e financiar transições estruturais. Além disso, ficam mais expostos a subidas das taxas de juro e a prémios de risco elevados.
É aqui que Portugal surge numa posição singular. Ao contrário de várias economias avançadas, o país tem vindo a reduzir a dívida pública e a reforçar a credibilidade das suas finanças públicas com excedentes orçamentais. É nesta trajetória de compressão da dívida pública que o equilíbrio orçamental e a disciplina financeira são fatores que diferenciam Portugal num contexto europeu marcado por maior fragilidade orçamental.
Esta diferença é estratégica. Menor dívida significa menor risco de crédito. Menor risco de crédito significa menores custos de financiamento não só para o Estado, mas principalmente para as empresas e para as famílias (com o menor encargo do seu crédito hipotecário). Menor custo de financiamento significa mais investimento, mais emprego, maior valorização dos ativos nacionais e maior capacidade de resposta perante choques externos. A redução da dívida reduz o prémio de risco de uma economia e, quando bem compreendida, não é apenas uma política de estabilidade. É a base de uma política de crescimento.
Mas a estabilidade não é convergência. Portugal pode dispor de um melhor desempenho económico que os restantes Estados membros da UE e, ainda assim, necessita de se aproximar da média europeia. A pergunta central é: que crescimento é necessário que Portugal tenha para convergir com a União Europeia, e em que horizonte pretende convergir? Para convergir de forma significativa, Portugal terá de continuar crescer de forma sustentada mais que os seus parceiros europeus. Na esteira de Ormuz, a energia voltou ao centro da economia. A redução da dívida voltou ao centro da soberania. E as políticas de crescimento ganham uma nova centralidade.
Manuel Rodrigues
Senior Lecturer, Financial Management Education, King’s Business School
Fontes:
ECB President of the ECB Hearing at the EP https://www.ecb.europa.eu/press/key/date/2026/html/ecb.sp260622~b060a27b78.en.html
OECD Economic Outlook, OECD Secretary General Presentation, Interim Report March 2026 https://www.oecd.org/content/dam/oecd/en/publications/support-materials/2026/03/oecd-interim-economic-outlook/EO119_PPT-testing-resilience.pdf