No âmbito do Alumni Learning Program, a AESE recebeu António Rios Amorim, Presidente da Corticeira Amorim, no Campus do Porto, para uma conversa sobre os desafios de liderar uma empresa familiar cotada em bolsa e sobre o percurso de transformação deste grupo, líder mundial no setor da cortiça. O encontro realizou-se a 3 de junho de 2026.
Mais do que uma apresentação sobre uma empresa de sucesso, a sessão foi uma reflexão sobre propósito, resiliência, inovação e criação de valor ao longo de gerações. Ao longo da conversa, tornou-se evidente que a história da Corticeira Amorim é também a história de uma organização que soube reinventar-se sucessivamente sem perder a sua identidade.
A chave dessa identidade está numa missão simples, mas poderosa: acrescentar valor à cortiça. Segundo António Rios Amorim, sempre que a empresa se afastou desta missão os resultados ficaram aquém das expectativas. Pelo contrário, sempre que regressou ao seu propósito fundamental encontrou novas oportunidades de crescimento. Esta ideia atravessa toda a história da organização, fundada em Vila Nova de Gaia pelo bisavô da família Amorim e atualmente liderada pela quarta geração.
Ao longo da sessão, o orador revisitou alguns dos momentos decisivos da evolução da empresa. Nos anos 50 e 60, uma nova geração impulsionou a expansão internacional do negócio, transformando uma empresa regional num dos maiores produtores mundiais de cortiça. Nessa altura, os países do bloco de Leste representavam um dos principais mercados consumidores.
Foi precisamente a implosão desses mercados, nos anos 80, que originou uma das maiores crises da história da empresa. A perda de uma parte muito significativa da atividade obrigou a organização a repensar o seu futuro. A entrada em bolsa revelou-se então uma decisão estratégica fundamental, permitindo reforçar a estrutura financeira, acelerar a internacionalização e criar condições para uma nova fase de crescimento. Mas talvez o maior teste tenha surgido no final dos anos 90, com o aparecimento das rolhas sintéticas e das cápsulas de alumínio. Muitos acreditavam que o futuro da cortiça estava comprometido. Perante esta ameaça, a família e a equipa de gestão reuniram-se durante dois fins de semana para refletir sobre o caminho a seguir. A conclusão foi clara: não abandonar a missão, mas aprofundá-la.
Aposta certeira de investimento em investigação e desenvolvimento
A resposta passou por um forte investimento em investigação e desenvolvimento, pela contratação de especialistas dedicados à inovação, pela criação de parcerias com universidades e pela procura de novas aplicações para a cortiça. A partir desse momento, a empresa deixou de olhar para a cortiça apenas como matéria-prima para rolhas e passou a encará-la como uma plataforma de inovação.
Os resultados dessa visão tornaram-se particularmente visíveis a partir da década de 2010. Hoje, para além do negócio tradicional associado ao setor vitivinícola, a cortiça encontra aplicações em áreas tão diversas como a engenharia aeroespacial, os transformadores elétricos, o calçado técnico, os revestimentos de elevada performance ou a substituição de madeiras nobres em iates de luxo. Esta lógica está particularmente presente na Amorim Cork Solutions, apontada por António Rios Amorim como a área com maior potencial de crescimento futuro.
O que está por fazer?
A pergunta que orienta esta unidade de negócio é simultaneamente simples e ambiciosa: o que podemos fazer com a cortiça que ainda não está a ser feito?
A inovação, contudo, não se limita aos produtos. Um dos aspetos mais interessantes abordados durante a sessão foi a preocupação crescente com a sustentabilidade da própria matéria-prima. Consciente de que a cortiça é um recurso natural limitado, a Corticeira Amorim tem vindo a investir significativamente em investigação florestal, seleção clonal, viveiros especializados e novas técnicas de extração de cortiça desenvolvidas e patenteadas pela própria empresa. Esta aposta traduz-se numa visão de longo prazo pouco comum no mundo empresarial. As decisões tomadas hoje na floresta produzirão resultados apenas muitos anos mais tarde. É uma lógica que exige paciência, consistência e capacidade de pensar para além dos ciclos económicos imediatos.
A reorganização da empresa em três áreas de negócio — Amorim Florestal, Amorim Cork e Amorim Cork Solutions — reflete precisamente essa visão integrada. A Amorim Florestal assegura o sourcing e a gestão da matéria-prima, a Amorim Cork concentra-se no negócio tradicional das rolhas e a Cork Solutions explora novas aplicações e oportunidades para a cortiça.
A sustentabilidade esteve igualmente presente através da reflexão sobre economia circular. A propósito dos programas de reciclagem promovidos pela empresa, António Rios Amorim partilhou uma ideia que resume bem a sua filosofia: “No mundo não há resíduos, apenas matérias-primas.” Esta perspetiva permite compreender porque continua a existir um investimento tão significativo em programas de reciclagem e valorização dos subprodutos da cortiça.
Os números apresentados ajudam a perceber a relevância ambiental deste recurso. Por cada tonelada de cortiça produzida são captadas cerca de 73 toneladas de dióxido de carbono, reforçando o papel dos montados na preservação da biodiversidade, na proteção dos solos e no combate às alterações climáticas.
Durante o debate, os participantes colocaram diversas questões sobre os desafios futuros da empresa. Uma delas incidiu sobre a utilização da Inteligência Artificial. António Rios Amorim explicou que uma das aplicações mais relevantes passa pela capacidade de ensinar as máquinas a aprender os complexos processos de seleção de rolhas, incorporando conhecimento acumulado ao longo de décadas. Referiu igualmente a existência de um programa corporativo de formação em Inteligência Artificial, bem como aplicações concretas nas áreas comercial e de marketing.
Curiosamente, o orador destacou também um benefício menos evidente: a capacidade destas tecnologias acelerarem a integração de jovens talentos na organização, permitindo-lhes contribuir e assumir responsabilidades numa fase muito mais precoce das suas carreiras. Abordou a possibilidade de escalar e comercializar o conhecimento desenvolvido pela empresa. A resposta incidiu sobretudo sobre o know-how acumulado na gestão do montado e nas técnicas de extração de cortiça, áreas onde a Corticeira Amorim desenvolveu competências distintivas ao longo de décadas.
A conversa permitiu ainda refletir sobre a evolução do próprio mercado do vinho. António Rios Amorim identificou vários fatores que ajudam a explicar a redução do consumo observada em diversos mercados: preocupações crescentes com a saúde, alterações demográficas, mudanças nos hábitos sociais das novas gerações, restrições associadas ao consumo de álcool e o crescimento das categorias low alcohol e no alcohol. A resposta da empresa tem passado por acompanhar esta transformação e desenvolver soluções específicas para estes novos segmentos de mercado.
Talvez uma das lições mais marcantes da sessão tenha surgido precisamente a propósito da relação com os clientes. Como afirmou António Rios Amorim, “um cliente ganho por preço é também perdido por preço.” A verdadeira diferenciação constrói-se através da criação de valor.
No caso da Corticeira Amorim, essa proposta de valor assenta numa hierarquia muito clara. Em primeiro lugar surge a performance do produto. Em segundo, a sua capacidade de reforçar a imagem premium dos seus produtos. Só depois aparece a sustentabilidade. Não porque seja menos importante, mas porque a sustentabilidade não substitui a excelência; complementa-a.
No final da sessão ficou uma ideia particularmente inspiradora para qualquer gestor ou líder: as organizações mais resilientes não são necessariamente as que mudam mais depressa, mas aquelas que conseguem adaptar-se sem perder a sua identidade. A história da Corticeira Amorim mostra que a inovação não exige abandonar o propósito. Pelo contrário, muitas vezes significa encontrar novas formas de concretizar a mesma missão, geração após geração.
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