insight #137

O empreendedor humanista

05 Mar 2026 | 6 min de leitura

Francisco Carvalho Professor de Entrepreneurship Initiative do AESE Executive MBA

Estamos num momento crítico de afirmação dos valores humanistas, num contexto em que surgem evidências preocupantes que põem em causa a liberdade, a democracia, a inclusão e a colaboração entre pessoas, instituições e entidades, criando uma ameaça clara ao desenvolvimento comum e sustentável. Esta realidade manifesta-se não só na dimensão social e política, mas também na vertente dos negócios.

As empresas, enquanto organismos vivos da sociedade, devem ser agentes fundamentais na preservação dos valores humanistas e na forma como nos relacionamos — seja entre colaboradores, seja na relação com todos os stakeholders de uma organização. Esta responsabilidade torna-se particularmente relevante nas grandes e médias empresas, pela sua dimensão e impacto no ecossistema económico. No entanto, não é menos importante nas pequenas empresas e startups, onde a proximidade e a influência do líder se fazem sentir de forma ainda mais direta e impactante.

Numa empresa de menor dimensão, o papel do líder empreendedor é determinante, pela capacidade de influenciar equipas. Muitas vezes essa influência estende-se à esfera familiar e até ao contexto local. Um empreendedor deve ser visto como um agente de mudança, de inovação e de desenvolvimento, não apenas nos negócios, mas, acima de tudo na transformação de pessoas. Nesse sentido, o mundo precisa de mais empreendedores humanistas: líderes que sirvam de alavanca positiva no desenvolvimento das empresas em três dimensões estratégicas fundamentais: Empreendedora, Sustentável e Humana.

Idealmente, estas dimensões deveriam interagir diariamente dentro de uma organização, de forma a melhorar o seu desempenho financeiro, organizacional, social e ambiental. O conceito de empreendedorismo humano pode ser entendido tanto como uma extensão como uma reinvenção do empreendedorismo tradicional. Baseia-se na ideia de que o comportamento empreendedor deve ir além dos objetivos económicos, incorporando também uma preocupação real com as pessoas, sociedade e planeta. Nesta perspetiva, os valores humanísticos orientam a criação de empresas mais responsáveis, que se preocupam tanto com os indivíduos como com o meio ambiente.

Todos os empreendedores assumem riscos e inovam para resolver problemas e satisfazer necessidades. Contudo, os mais humanistas fazem-no a partir de uma visão mais holística, que inclui uma forte preocupação com o bem-estar dos colaboradores, com a equidade e inclusão social, bem como com a responsabilidade ambiental.

Esta tipologia de líderes incorpora organicamente os princípios da Responsabilidade Social Empresarial (RSE), enfatizando o compromisso das empresas com todas as partes interessadas — incluindo colaboradores, clientes, fornecedores, meio ambiente e toda a comunidade do ecossistema onde se inserem. Trata-se de uma abordagem que promove práticas éticas e sustentáveis, que vão além da maximização do lucro.

Como consequência, as empresas mais humanas tendem a considerar os interesses de todos os stakeholders, e não apenas dos acionistas, o que implica uma governance mais equilibrada e equitativa. Além disso, o estilo de liderança associado a esta visão caracteriza-se por estar centrado nos colaboradores e nas relações, em vez de se basear na autoridade e no controlo.

Infelizmente, hoje em dia, e em paralelo com outras evidências negativas nas dimensões política e social, assistimos também a tendências preocupantes no plano comercial e económico, que caminham, em certas geografias, para o desumano. Exemplos disso são o aumento da assimetria digital a nível global, o impacto que a inteligência artificial está a trazer para grupos etários e sociais mais infoexcluídos, a valorização excessiva do lucro a curto prazo e, por vezes, relações menos transparentes entre negócios e política.

Vivemos, por isso, tempos difíceis que exigem empreendedores e líderes responsáveis, éticos e resilientes, com valores humanistas sólidos, capazes de contrariar estas evidências menos positivas. Neste contexto, o empreendedorismo humanista deve agir como uma forma de encontrar equilíbrio e alinhamento na gestão de uma empresa — independentemente da sua dimensão — entre as vertentes económica, ecológica e social, sem perder o foco na criação de valor para acionistas e stakeholders.

O papel do líder empreendedor deve ser o de procurar satisfazer todas as partes interessadas e desenvolver um ambiente de trabalho favorável e motivador. Só assim as empresas conseguem aumentar a sua atratividade no mercado de trabalho, atrair e reter os melhores talentos e, simultaneamente, fortalecer a produtividade e os níveis de inovação, conduzindo, em última análise, a um desempenho superior face aos concorrentes.

Ao integrar dimensões económicas, sociais e ambientais, as empresas que adotam uma abordagem mais humana tendem a melhorar o seu desempenho global. Esta orientação caracteriza-se por procurar equilíbrio e alinhamento entre diferentes aspetos do desempenho, em vez de dar prioridade exclusivamente os resultados financeiros. Através desta visão holística, as organizações não só prosperam economicamente, como também contribuem positivamente para a sociedade e para o meio ambiente, criando valor duradouro para todas as partes interessadas.

A nível individual, os empreendedores humanistas estão numa posição única para considerar a humanidade no contexto da sua atividade económica. Embora cada empreendimento, isoladamente, não consiga garantir por si só um sistema económico humano, o impacto agregado de novos empreendimentos e o seu efeito cumulativo ao longo do tempo têm potencial para contrariar os sinais de empresas autoritárias, marcadas por uma dimensão excessiva, pela padronização em massa e pela desmaterialização.

Em resumo, a adoção de uma orientação empresarial humana permite que as empresas maximizem o seu impacto, integrando dimensões centradas no ser humano na sua estratégia global. Esta estratégia holística não só reforça o desempenho económico, como também gera efeitos positivos na sociedade e no ambiente. Ao mesmo tempo, promove maior satisfação e envolvimento dos colaboradores, contribuindo para um melhor desempenho organizacional e social.

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