Estamos num momento crítico de afirmação dos valores humanistas, num contexto em que surgem evidências preocupantes que põem em causa a liberdade, a democracia, a inclusão e a colaboração entre pessoas, instituições e entidades, criando uma ameaça clara ao desenvolvimento comum e sustentável. Esta realidade manifesta-se não só na dimensão social e política, mas também na vertente dos negócios.
As empresas, enquanto organismos vivos da sociedade, devem ser agentes fundamentais na preservação dos valores humanistas e na forma como nos relacionamos — seja entre colaboradores, seja na relação com todos os stakeholders de uma organização. Esta responsabilidade torna-se particularmente relevante nas grandes e médias empresas, pela sua dimensão e impacto no ecossistema económico. No entanto, não é menos importante nas pequenas empresas e startups, onde a proximidade e a influência do líder se fazem sentir de forma ainda mais direta e impactante.
Numa empresa de menor dimensão, o papel do líder empreendedor é determinante, pela capacidade de influenciar equipas. Muitas vezes essa influência estende-se à esfera familiar e até ao contexto local. Um empreendedor deve ser visto como um agente de mudança, de inovação e de desenvolvimento, não apenas nos negócios, mas, acima de tudo na transformação de pessoas. Nesse sentido, o mundo precisa de mais empreendedores humanistas: líderes que sirvam de alavanca positiva no desenvolvimento das empresas em três dimensões estratégicas fundamentais: Empreendedora, Sustentável e Humana.
Idealmente, estas dimensões deveriam interagir diariamente dentro de uma organização, de forma a melhorar o seu desempenho financeiro, organizacional, social e ambiental. O conceito de empreendedorismo humano pode ser entendido tanto como uma extensão como uma reinvenção do empreendedorismo tradicional. Baseia-se na ideia de que o comportamento empreendedor deve ir além dos objetivos económicos, incorporando também uma preocupação real com as pessoas, sociedade e planeta. Nesta perspetiva, os valores humanísticos orientam a criação de empresas mais responsáveis, que se preocupam tanto com os indivíduos como com o meio ambiente.
Todos os empreendedores assumem riscos e inovam para resolver problemas e satisfazer necessidades. Contudo, os mais humanistas fazem-no a partir de uma visão mais holística, que inclui uma forte preocupação com o bem-estar dos colaboradores, com a equidade e inclusão social, bem como com a responsabilidade ambiental.
Esta tipologia de líderes incorpora organicamente os princípios da Responsabilidade Social Empresarial (RSE), enfatizando o compromisso das empresas com todas as partes interessadas — incluindo colaboradores, clientes, fornecedores, meio ambiente e toda a comunidade do ecossistema onde se inserem. Trata-se de uma abordagem que promove práticas éticas e sustentáveis, que vão além da maximização do lucro.
Como consequência, as empresas mais humanas tendem a considerar os interesses de todos os stakeholders, e não apenas dos acionistas, o que implica uma governance mais equilibrada e equitativa. Além disso, o estilo de liderança associado a esta visão caracteriza-se por estar centrado nos colaboradores e nas relações, em vez de se basear na autoridade e no controlo.
Infelizmente, hoje em dia, e em paralelo com outras evidências negativas nas dimensões política e social, assistimos também a tendências preocupantes no plano comercial e económico, que caminham, em certas geografias, para o desumano. Exemplos disso são o aumento da assimetria digital a nível global, o impacto que a inteligência artificial está a trazer para grupos etários e sociais mais infoexcluídos, a valorização excessiva do lucro a curto prazo e, por vezes, relações menos transparentes entre negócios e política.
Vivemos, por isso, tempos difíceis que exigem empreendedores e líderes responsáveis, éticos e resilientes, com valores humanistas sólidos, capazes de contrariar estas evidências menos positivas. Neste contexto, o empreendedorismo humanista deve agir como uma forma de encontrar equilíbrio e alinhamento na gestão de uma empresa — independentemente da sua dimensão — entre as vertentes económica, ecológica e social, sem perder o foco na criação de valor para acionistas e stakeholders.
O papel do líder empreendedor deve ser o de procurar satisfazer todas as partes interessadas e desenvolver um ambiente de trabalho favorável e motivador. Só assim as empresas conseguem aumentar a sua atratividade no mercado de trabalho, atrair e reter os melhores talentos e, simultaneamente, fortalecer a produtividade e os níveis de inovação, conduzindo, em última análise, a um desempenho superior face aos concorrentes.
Ao integrar dimensões económicas, sociais e ambientais, as empresas que adotam uma abordagem mais humana tendem a melhorar o seu desempenho global. Esta orientação caracteriza-se por procurar equilíbrio e alinhamento entre diferentes aspetos do desempenho, em vez de dar prioridade exclusivamente os resultados financeiros. Através desta visão holística, as organizações não só prosperam economicamente, como também contribuem positivamente para a sociedade e para o meio ambiente, criando valor duradouro para todas as partes interessadas.
A nível individual, os empreendedores humanistas estão numa posição única para considerar a humanidade no contexto da sua atividade económica. Embora cada empreendimento, isoladamente, não consiga garantir por si só um sistema económico humano, o impacto agregado de novos empreendimentos e o seu efeito cumulativo ao longo do tempo têm potencial para contrariar os sinais de empresas autoritárias, marcadas por uma dimensão excessiva, pela padronização em massa e pela desmaterialização.
Em resumo, a adoção de uma orientação empresarial humana permite que as empresas maximizem o seu impacto, integrando dimensões centradas no ser humano na sua estratégia global. Esta estratégia holística não só reforça o desempenho económico, como também gera efeitos positivos na sociedade e no ambiente. Ao mesmo tempo, promove maior satisfação e envolvimento dos colaboradores, contribuindo para um melhor desempenho organizacional e social.