insight #139

Tem os dados todos. E agora?

29 Abr 2026 | 6 min de leitura

Diana Quina
Diana Quina Diana Quina é Teaching Fellow da Área Académica de Política Comercial e de Marketing e Diretora Comercial da ISDIN.

A arte de formular perguntas separa os líderes de marketing que decidem bem dos que apenas decidem depressa.

Abra qualquer painel de controlo moderno e a primeira sensação é de poder. Há números para tudo, alertas em tempo real, previsões automáticas, e gráficos que prometem transformar a incerteza em controlo. É tentador confundir esse volume de dados com clareza. Mas as decisões difíceis continuam difíceis e, muitas vezes, tornam-se ainda mais difíceis precisamente pelo excesso de informação!

Em marketing, a abundância de dados produz um efeito paradoxal: leva-nos a esquecer a complexidade do que acontece antes de qualquer decisão. Equipas diferentes leem o mesmo mercado, para os mesmos indicadores e para os mesmos sinais, mas chegam a conclusões distintas. Cada área traz os seus objetivos, os seus incentivos, a sua leitura do problema. Um pequeno enviesamento, introduzido cedo no processo, pode alterar o rumo da decisão, de forma quase impercetível. O mercado, no fim, só vê a consequência.

A pergunta certa

Nenhuma organização decide bem sem uma pergunta bem formulada. Não se trata de um detalhe metodológico. Trata-se da fundação do processo decisório. A pergunta certa define o que é relevante, o que é acessório e o que é ruído. Sem ela, os dados acumulam-se, mas não orientam.

“Devemos lançar este produto?” parece uma pergunta válida. Na realidade é insuficiente. Empurra a equipa para uma lógica binária que favorece posições já tomadas. Uma pergunta mais robusta explicita os trade-offs reais: queremos defender quota de mercado ou aumentar margem? Aceitamos canibalização? Esta decisão é reversível ou cria dependências difíceis de corrigir? Ao tornar explícitas as tensões da escolha, a pergunta obriga a análise a servir a decisão, em vez de servir o ego de quem já entrou na sala com a resposta pronta.

Os vieses que ninguém admite ter

Em teoria, os dados reduzem a incerteza. Na prática, sem disciplina, podem apenas sofisticar o erro. O viés de confirmação continua a ser um dos mais comuns: cada equipa procura nos dados a leitura que valida a sua perspetiva inicial. A falácia narrativa surge logo depois: transforma probabilidades em histórias coerentes, até que uma hipótese passe a soar a verdade incontestável. E, quando os números não resolvem a divergência, emerge o viés de autoridade: vence a interpretação de quem tem mais estatuto, mais influência ou uma performance mais confiante.

O problema não é termos vieses. Todos os temos. O problema é fingir que não temos, porque isso torna o processo vulnerável de forma invisível. Muitas decisões parecem data-driven apenas porque são acompanhadas de gráficos. Na realidade, são decisões já escolhidas à partida, e depois são data-supported por seleção.

O método como proteção

É aqui que o método deixa de ser burocracia e passa a ser uma vantagem competitiva. Um bom método não elimina a incerteza, mas reduz a probabilidade de erro evitável.

Duas práticas simples têm um impacto desproporcional. A primeira é a leitura independente da evidência: antes de qualquer reunião, duas ou mais pessoas produzem sínteses separadas, sem influência mútua, para impedir que a primeira voz a falar defina o enquadramento coletivo. A segunda é o pre-mortem: antes de avançar, a equipa imagina que a decisão falhou e pergunta porquê. Esse exercício legitima riscos que, num ambiente político, tenderiam a ficar calados.

A estas práticas podem juntar-se outras igualmente valiosas. Um red team, com mandato claro para desafiar a opção dominante, reduz o conformismo e melhora a qualidade do debate. Um registo de decisões, ainda que simples, força a explicitar hipóteses, métricas de validação e momentos de revisão. O benefício é claro: menos confiança excessiva, menos ruído político, mais consistência entre intenção e execução.

A IA e o problema da governance

Neste contexto, a inteligência artificial tem entrado nas organizações como promessa de aceleração. E pode, de facto, acelerar muito. Mas acelerar um processo mal desenhado só aumenta a velocidade do erro. O problema principal não é a IA dar respostas erradas. É dar respostas persuasivas a perguntas mal formuladas. Um modelo treinado para produzir linguagem convincente consegue construir argumentos sólidos para quase qualquer posição, sobretudo quando a equipa humana já está inclinada numa direção.

Sem governance, a IA amplifica vieses existentes. Consolida leituras parciais, mascara suposições frágeis e cria uma ilusão de robustez analítica. Com governance, o efeito pode ser precisamente o oposto. A IA pode consolidar fontes, sinalizar inconsistências, gerar cenários alternativos, explicitar sensibilidades e ligar decisões passadas aos resultados que produziram. Torna-se útil não porque pensa por nós, mas porque obriga o processo a ser mais transparente, mais comparável e mais exigente.

A execução

No mercado, não existe versão beta para a reputação. Uma decisão errada de pricing, um lançamento precipitado, uma promoção mal calibrada ou uma escolha de canal sem critério podem custar meses de trabalho e anos de equity construído devagar. Por isso, a qualidade da execução depende, antes de mais, da qualidade da decisão que a antecede. E a qualidade da decisão depende, antes de tudo, da qualidade da pergunta.

Numa era em que quase todas as empresas terão acesso aos mesmos dados, às mesmas plataformas e a ferramentas cada vez mais semelhantes, a vantagem competitiva desloca-se. Já não estará apenas em responder depressa, mas em perguntar melhor. E perguntar melhor, em gestão e em marketing, continua a ser uma das formas mais sofisticadas de liderança.

Quem dominar esta disciplina decidirá com mais foco, aprenderá mais depressa, alinhará melhor as equipas e transformará dados abundantes em decisões mais coerentes, corajosas, sustentáveis e duradouras!

Para aprofundar o tema, dois livros complementares merecem atenção: You’re About to Make a Terrible Mistake!,  de Olivier Sibony, pela forma pragmática como traduz vieses cognitivos em rotinas concretas de decisão; e The Paradox of Choice, de Barry Schwartz, pela clareza com que demonstra como o excesso de opções pode, paradoxalmente, deteriorar a qualidade das escolhas que fazemos.

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