As energias renováveis implicam custos indiretos que vão além da análise de lucros e perdas, como custos com a ocupação do território, biodiversidade e extração de matérias-primas
Sou um mero espectador no debatee sobre as energias renováveis e sou um espectador confuso: pessoas qualificadas e por quem tenho grande respeito dizem coisas que não batem certo umas com as outras.
Quem tem razão?
Há três pontos em que a Economia talvez possa clarificar e conciliar o desacordo.
Primeiro ponto: a curva da experiência
Em 2002, o relatório “World Ener-gy Outlook” previa uma redução do custo de capital dos painéis solares entre 50 e 60%. Pessimistas! Em 2024, o custo real já tinha baixado em 97%, de cerca de 5-6 dólares por watt para aproximadamente 0,10-0,12 dólares por watt (segun-do a página Our World in Data).
Neste caso, a China teve um papel decisivo: não inventou a tecnologia fotovoltaica, nem foi responsável pelas primeiras décadas de investigação e pelo arranque inicial do mercado, mas transformou os painéis solares num produto industrial fabricado em escala verdadeiramente mundial.
Estes processos de rápida melhoria das novas tecnologias não são um fenómeno novo. O caso mais conhecido corresponde à chamada Lei de Moore. Desde há pelo menos 50 anos o custo de computação permitido pelos microprocessadores decresce de forma exponencial (uma das poucas instâncias em que o adjetivo “exponencial” se justifica em sentido estrito). Entre 1971 e 2026, o número de transístores num processador de ponta aumentou de 2300 (Intel) para 200 mil milhões (Nvidia) – um aumento de aproximadamente 90 milhões de vezes!
O que quero dizer com isto é que não podemos comparar tecnologias num momento do tempo, especialmente quando as curvas de aprendizagem são tão inclinadas.
Segundo ponto: rendimentos marginais decrescentes
Suponham que estou cheio de fome e me apetece comer piza. (Ambos acontecem com frequência.) O valor que dou a uma fatia é enorme: mal posso esperar pela primeira dentada.
No entanto, após comer três fatias, o valor que dou a uma quarta fatia é praticamente nulo: chega de piza!
Esta observação de senso comum tem um pomposo nome em Eco-nomia: a lei da utilidade marginal decrescente.
Algo semelhante se passa com as renováveis. Num sistema em que inicialmente não figuram reno-váveis, o valor acrescentado pela energia solar ou eólica é grande. Num sistema já muito dependente das renováveis, o valor adicional de mais renováveis é muito menor. Por esse motivo, falar do valor das renováveis “no abstrato” faz tão pouco sentido como falar do meu apetite por uma fatia de piza (que depende de quantas fatias já comi).
Terceiro ponto: custos indiretos
Os custos das energias renováveis são comparados com as fontes tradicionais de energia, nomeadamente as fontes de energia fóssil. Além dos custos diretos de produção, as fontes de energia fóssil têm vários efeitos a considerar. Pensem na central Kahe, no Havai, que produz energia elétrica a partir do petróleo. Para lá dos custos diretos pagos pela central, temos de considerar o dano causado pelas emissões de carbono. Um primeiro problema é que, embora os rendimentos da central pertençam ao Havai, os custos recaem sobre toda a população mundial: apenas temos uma atmosfera! As coisas complicam-se ainda mais porque os prejudicados incluem gerações futuras que viverão sob a mesma atmosfera. Como medir o custo de uma tonelada de carbono? Que ponderação devemos atribuir às gerações futuras no cálculo do custo?
Para que fique claro, acrescento que as energias renováveis também implicam custos indiretos que vão além da análise de lucros e perdas do investidor, custos relacionados com a ocupação do território, a biodiversi-dade, a extração de matérias-primas e o tratamento dos equipamentos no fim da sua vida útil.
Conclusão
Suspeito que o desacordo entre especialistas sobre o valor das energias renováveis depende, em grande parte, dos parâmetros em que se baseiam. Oxalá os cálculos fossem mais transparentes. Pelo menos chegaríamos a um acordo quanto ao nosso desacordo.
Artigo publicado no Expresso >>