Uma tarde agradável de verão, uma longa extensão de areia em maré vazia, um dos meus filhos que quer fazer uma caminhada. Ele tem 9 anos e gosta muito de contar histórias e sobretudo de fazer perguntas. Sem relógio e sem outro destino que não fosse o final do longo areal, fizemos um jogo: inventámos uma história sobre a Bolota, um hamster aventureiro que queria ir mais longe do que a sua vida de animal de estimação parecia permitir. À medida que a história avançava, eu percebia que não estava apenas a ouvir uma narrativa imaginada. Estava a escutar o que lhe ia no coração: as suas alegrias, os seus receios, as suas questões. Quando lhe disse que lhe ofereceria um caderno para escrever aquela história tão divertida, ele surpreendeu-me: “Mamã, eu não quero escrever. O que gosto mesmo é que tu ouças as minhas histórias e as contes comigo.” Percebi de imediato a mensagem. Respondi-lhe que gosto muito de o ouvir e às suas histórias, ao que ele acrescentou “Ainda bem que conseguimos quase sempre jantar juntos, mas não dá para contar muitas histórias.”
Fiquei desarmada pela simplicidade e pela verdade das suas palavras. Falámos então sobre o tempo: o tempo da mãe e o tempo do filho. E fez-me alguns pedidos para este ano: mais passeios de bicicleta ao fim do dia, jantares mais cedo, mais trabalhos de casa feitos em conjunto. Nessa noite dormi pouco. Dei comigo a fazer contas ao tempo e a repensar a ordem das minhas prioridades. Percebi que conheço bem a teoria, e até a ensino, mas que aquela frase, “Ainda bem que conseguimos quase sempre jantar juntos”, revelou a distância que tantas vezes existe entre saber e viver. Foi uma lição de self-leadership.
Neste início de ano letivo, guardo um propósito que não quero esquecer até às próximas férias: num tempo de mudança acelerada, o verdadeiro teste da liderança não está na capacidade de dirigir os outros, mas na coragem de me dirigir a mim própria.
Falamos frequentemente de liderança como a capacidade de inspirar equipas, mobilizar pessoas, transformar organizações ou concretizar projetos ambiciosos. Admiramos mulheres e homens que conseguem influenciar outros, construir visões de futuro e alcançar resultados extraordinários. Afirmamos que o líder serve, o líder cuida dos seus. E é tudo verdade. Contudo, existe uma liderança mais discreta, menos visível e talvez mais exigente do que todas as outras: a liderança de nós mesmos, da nossa própria vida.
Em 1986 Charles Manz[1] define self-leadership como o processo de se influenciar a si próprio para alcançar a autodireção e a automotivação necessárias ao desempenho profissional. Esta liderança não se mede pelo cargo que ocupamos, pela dimensão da organização que dirigimos ou pelo número de pessoas que dependem das nossas decisões. Mede-se pela capacidade de gerirmos o nosso tempo, de ordenarmos as nossas prioridades e de permanecermos fiéis àquilo que reconhecemos como verdadeiramente importante.
O tempo é, provavelmente, o recurso mais democrático e mais escasso que possuímos. Todos recebemos as mesmas 24 horas por dia. Contudo, aquilo que fazemos com elas acaba por revelar o que realmente valorizamos. As nossas prioridades não são apenas aquilo que afirmamos. São, sobretudo, aquilo a que dedicamos tempo e atenção.
Vivemos numa sociedade que recompensa a disponibilidade permanente e que, muitas vezes, confunde atividade com realização. Conhecemos a sensação de terminar um dia exaustivo, com a agenda cheia e a caixa de correio respondida, mas com a inquietante dúvida de termos dedicado tempo suficiente ao que realmente importa. Podemos estar ocupados sem estarmos orientados. Podemos ser altamente produtivos e, ainda assim, falhar no essencial. Há dados científicos que alertam para estas falhas. Num dos maiores estudos internacionais sobre liderança, publicado em 2025[2], sete em cada dez líderes afirmam viver mais stress no presente, comparativamente com o seu passado. O mesmo estudo indica que 40% dos líderes admitiram ter considerado abandonar funções de liderança para proteger o seu bem-estar.
O trabalho é uma dimensão nobre da vida humana. Através dele criamos valor, servimos os outros, desenvolvemos talentos e contribuímos para o bem comum. O problema não é nem nunca foi o trabalho. O problema surge quando o trabalho deixa de ser parte da vida para se transformar na sua totalidade. Se investirmos na nossa liderança pessoal potenciaremos os resultados do nosso trabalho. Publicada em 2022, uma meta-análise envolvendo 57 estudos concluiu que a liderança pessoal apresenta uma relação positiva e robusta com o desempenho individual, sendo particularmente relevante para a criatividade e a inovação[3].
Nenhuma carreira, por mais brilhante que seja, consegue substituir a riqueza das relações humanas. Nenhum sucesso profissional é capaz de preencher o vazio deixado pelas presenças adiadas, pelas conversas interrompidas ou pelos momentos que decidimos sacrificar em nome de algo aparentemente mais urgente.
Talvez seja por isso que uma das maiores provas de liderança pessoal seja a forma como escolhemos estar presentes, por exemplo, na vida dos nossos filhos. É fácil dizer que a família é importante. Mais difícil é reservar espaço para ela numa agenda preenchida por reuniões, viagens, relatórios, chamadas telefónicas e compromissos sucessivos. É fácil afirmar que valorizamos a amizade, a participação cívica ou a saúde. Mais difícil é protegê-las das constantes urgências que procuram ocupar cada instante disponível.
Os filhos crescem enquanto estamos ocupados. Crescem enquanto acreditamos que teremos mais tempo no próximo mês, no próximo ano ou quando o projeto terminar. E, muitas vezes, quando nos damos conta, o futuro já chegou, e com uma rapidez desconcertante. A infância não espera por agendas mais tranquilas. A adolescência não fica suspensa até surgir uma oportunidade conveniente. Há momentos que não regressam. Um almoço a sós com um dos filhos. Uma conversa ao final do dia. Uma dúvida partilhada antes de adormecer. Um entusiasmo inesperado. Uma conquista celebrada. Uma fragilidade escondida atrás de uma pergunta aparentemente simples.
A evidência científica[4] tem demonstrado, de forma consistente, que o envolvimento parental e a qualidade das relações familiares constituem fatores decisivos para o desenvolvimento integral das crianças, influenciando positivamente os resultados académicos, o bem-estar emocional e as competências sociais. Mais do que os bens materiais recebidos, são a atenção, a disponibilidade e a presença significativa dos pais que permanecem na memória afetiva dos filhos.
Mas os filhos não são os únicos que reclamam a nossa presença. Há também os pais que envelhecem e têm tanto para nos ensinar. Há amigos que atravessam momentos difíceis, ou têm alegrias para partilhar. Há causas que merecem o nosso compromisso e o nosso contributo. Há comunidades que necessitam de cidadãos disponíveis para construir soluções e não apenas para apontar problemas.
E há ainda outra dimensão frequentemente esquecida: o descanso. Vivemos como se parar fosse um luxo ou uma demonstração de fraqueza. No entanto, ninguém consegue liderar bem quando vive permanentemente cansado. O descanso não é uma interrupção da vida, integra-a. Não é uma recompensa pelo trabalho realizado; é uma condição para continuar a viver e a servir com qualidade. Devolve-nos lucidez, criatividade e equilíbrio.
A grande questão da liderança pessoal pode ser compreender que dizer sim a uma coisa implica dizer não a outra. Não podemos estar em todo o lado nem fazer tudo, ou responder a todas as solicitações. Self-leadership é também escolher.
Self-leadership não é a arte de renunciar ao trabalho, mas a sabedoria de lhe dar o lugar certo. É compreender que uma vida plena se constrói na harmonização de diferentes bens: o trabalho que nos desafia, a família, os filhos que nos são confiados, os pais que nos deram raízes, os amigos que partilham o caminho, as causas que ampliam o nosso olhar e o descanso que nos restitui a nós próprios. No fundo, liderar a própria vida é isto: não permitir que alguma dimensão absorva todas as outras, para que possamos viver com a serenidade de quem dedicou o melhor de si às pessoas, aos compromissos e às causas que dão sentido à vida. Nos próximos meses, dedicarei certamente muitas horas a estudar, refletir e ensinar sobre liderança de pessoas e equipas. Estou, porém, cada vez mais convencida de que o vasto tema assenta num mesmo alicerce: a capacidade de liderar a minha própria vida.
E agora… vou fechar o dia com um passeio de bicicleta com os miúdos à beira-rio! Já decidiu o que vai fazer neste final de tarde?
[1] Manz, C. C. (1986). Self-leadership: Toward an expanded theory of self-influence processes in organizations. Academy of Management Review, 11(3), 585-600.
[2] Development Dimensions International. (2025). Global Leadership Forecast 2025.
[3] Knotts, K., Houghton, J. D., Pearce, C. L., Chen, H., Stewart, G. L., & Manz, C. C. (2022). Leading from the inside out: A meta-analysis of how, when, and why self-leadership affects individual outcomes.
[4] Fan, X., & Chen, M. (2001). Parental Involvement and Students’ Academic Achievement: A Meta-Analysis. Educational Psychology Review, 13(1), 1-22.
Castro, M., Expósito-Casas, E., López-Martín, E., Lizasoain, L., Navarro-Asencio, E., & Gaviria, J. L. (2015). Parental involvement on student academic achievement: A meta-analysis. Educational Research Review, 14, 33-46.