A tecnologia já escreve, calcula, recomenda, compõe, desenha e resolve problemas. Torna-nos mais rápidos, amplia capacidades e promete libertar-nos de tarefas repetitivas. Mas não define o sentido do que fazemos, não julga por nós nem assume as consequências das escolhas.
Foi a partir desta tensão que o encontro “O Futuro Continua a Precisar de Pessoas” cruzou diferentes perspetivas — da liderança à estratégia, da arquitetura à música, da vinha à cozinha — para pensar aquilo que permanece profundamente humano num mundo cada vez mais tecnológico.
O futuro visto através dos mais jovens
A conversa entre Cátia Sá Guerreiro e Maria Pais do Amaral começou com a partilha de vivências pessoais com os seus filhos jovens: as perguntas que fazem, a naturalidade com que utilizam a tecnologia e a forma como olham para um futuro profissional que será muito diferente daquele que os adultos conheceram.
Estas experiências trouxeram o tema para um plano concreto. Falar de Inteligência Artificial não é discutir apenas ferramentas, produtividade ou modelos de negócio. É pensar o mundo em que os mais jovens vão crescer, aprender, trabalhar e construir relações.
Que competências precisarão de desenvolver? Como preservar a curiosidade e a criatividade quando tantas respostas estão imediatamente disponíveis? Como ensiná-los a pensar, a escolher e a assumir responsabilidades num contexto em que a tecnologia consegue fazer cada vez mais por eles?
A tecnologia pode apoiar a aprendizagem, abrir possibilidades e democratizar o acesso ao conhecimento. Mas o desenvolvimento de uma pessoa não se reduz à acumulação de informação. Exige relações, acompanhamento, confronto de ideias, tentativa, erro e tempo para construir um critério próprio.
A partir destas vivências, a conversa evoluiu para a criatividade, a disrupção no mundo do trabalho, a liderança e o desafio de uma formação capaz de desenvolver competências humanas e técnicas.
Num tempo marcado pela aceleração tecnológica, liderar começa na capacidade de compreender a mudança sem perder de vista a pessoa. A tecnologia pode ajudar-nos a fazer mais e mais depressa, mas não nos dispensa de escolher, de julgar e de assumir a responsabilidade pelas nossas escolhas.
A tecnologia não cria valor sozinha
A adoção de novas ferramentas só produz verdadeiro impacto quando é acompanhada por uma transformação das pessoas, das competências e da própria organização do trabalho.
Comprar tecnologia é relativamente simples. Transformar uma cultura não é.
Não basta disponibilizar sistemas de Inteligência Artificial e esperar que a inovação aconteça. É necessário preparar as pessoas para os compreenderem, integrarem e utilizarem com sentido. Isso exige formação contínua e adaptada à realidade de cada organização, mas também contextos nos quais seja possível experimentar, errar, aprender e partilhar conhecimento.
Falar de requalificação também não pode significar apenas ensinar pessoas a escrever prompts ou a operar uma nova plataforma. Esse será provavelmente o nível mais fácil — e o que mais depressa ficará ultrapassado.
O verdadeiro desafio está em formar profissionais capazes de combinar conhecimento técnico com critério, autonomia e responsabilidade. Pessoas que não se limitem a aceitar uma resposta porque foi produzida por um sistema, mas que saibam fazer melhores perguntas, reconhecer limitações e perceber quando é necessário parar, aprofundar ou contrariar a recomendação recebida.
A decisão permanece humana
A tecnologia pode libertar-nos de tarefas, analisar grandes volumes de informação, identificar padrões e apresentar diferentes possibilidades. Pode apoiar a decisão. Mas não nos liberta da tomada de decisão.
Decidir pressupõe julgamento.
Implica ponderar alternativas que nem sempre são comparáveis, reconhecer valores em tensão, considerar as circunstâncias concretas e assumir as consequências do caminho escolhido. Esta responsabilidade não pode ser transferida para uma ferramenta.
Mesmo quando uma decisão é apoiada por algoritmos, continua a existir uma pessoa ou uma organização que escolhe utilizar aquele sistema, aceitar determinada recomendação e agir sobre os seus resultados.
Por isso, a dignidade humana deve permanecer um pilar inviolável. A pessoa não pode ser reduzida a um conjunto de dados, a uma previsão estatística ou a um recurso produtivo que importa otimizar. A tecnologia deve estar ao serviço das pessoas e do seu desenvolvimento, e não transformar-se no critério último das decisões que as afetam.
A liderança terá, cada vez mais, de garantir este equilíbrio: aproveitar o potencial tecnológico sem abdicar do julgamento, da responsabilidade e do respeito por cada pessoa.
O que permanece humano?
A roundtable “Hi-Tech, Hi-Touch: O que permanece humano?”, moderada por Eurico Nobre, alargou a reflexão a quatro universos profissionais distintos.
O Chef Kiko, a arquiteta Andreia Garcia, o compositor e musicólogo Edward Ayres de Abreu e a enóloga Joana Silva Lopes cruzaram a gastronomia, a arquitetura, a música e a enologia para falar da utilidade da tecnologia na agilização de processos, destacando como profundamente humanos a presença, a escuta, a experiência, a responsabilidade e o critério.
A tecnologia deve ajudar-nos, não conhecer-nos por nós
O Chef Kiko começou por estabelecer uma fronteira clara entre o que admite confiar à Inteligência Artificial e aquilo que entende dever permanecer estritamente humano.
Na esfera profissional, reconheceu o valor destas ferramentas. Podem organizar informação, apoiar processos, reduzir trabalho administrativo e ajudar a resolver problemas concretos. Mas recusou entregar-lhes a intimidade: os problemas familiares, as relações pessoais ou as decisões que tocam a identidade e a consciência.
Uma máquina pode simular atenção enquanto conversa, simultaneamente, com centenas de pessoas. Pode produzir uma resposta plausível sem estar verdadeiramente presente. Há assuntos nos quais não basta obter uma resposta tecnicamente competente. É necessária uma relação real, construída entre pessoas.
Esta posição não representa uma recusa da tecnologia. Representa uma defesa de limites. A questão não é apenas saber o que a IA consegue fazer, mas decidir aquilo que não estamos dispostos a confiar-lhe.
O humano não é aquilo que sobra depois da tecnologia
Andreia Garcia recusou a oposição fácil entre humanidade e tecnologia. A técnica sempre participou na construção da nossa ideia de ser humano, muito antes de se tornar digital. Por isso, aquilo que permanece humano não deve ser procurado apenas nas capacidades que as máquinas ainda não conseguiram reproduzir.
Definir o humano pela criatividade, pela imaginação ou pela empatia pode revelar-se uma estratégia frágil: à medida que a tecnologia evolui e começa a imitar essas capacidades, a fronteira volta a deslocar-se.
Andreia propôs outro critério: a responsabilidade.
Uma máquina pode gerar inúmeras soluções, mas alguém terá de determinar qual é adequada, onde será aplicada, a quem se destina, que recursos utiliza e que consequências poderá ter. O humano afirma-se não apenas na capacidade de produzir, mas na obrigação de responder pelo que escolhe.
Essa responsabilidade exige tornar visível aquilo que o discurso tecnológico tende a esconder. A Inteligência Artificial não é imaterial. Depende de territórios, mineração, água, energia, infraestruturas, trabalho humano e processos de classificação de dados. Toda a inovação tem uma geografia, uma ecologia e uma economia política.
As perguntas tornam-se inevitáveis: de onde vêm os recursos? Quem executa o trabalho invisível? Que território suporta o custo? Quem beneficia?
Andreia distinguiu ainda informação de participação: ter dados sobre as pessoas não equivale a produzir conhecimento com as pessoas. O feedback pode apoiar uma decisão, mas não substitui o envolvimento de quem será afetado por ela.
A inteligência pode ser assistida. O juízo tem de ser construído.
Quando tudo está disponível, escolher torna-se mais importante
Na música, a tecnologia alterou profundamente tanto a criação como a escuta. Hoje, um músico pode compor, produzir e divulgar sozinho. Um ouvinte pode aceder, em segundos, a um catálogo praticamente infinito.
Esta abundância abriu possibilidades extraordinárias, mas trouxe uma nova dificuldade: como descobrir alguma coisa quando tudo está disponível?
Edward Ayres de Abreu destacou a importância crescente da curadoria. Antes, uma loja de discos, um programador ou um crítico criavam percursos de descoberta. Agora, essa função é muitas vezes desempenhada por algoritmos que recomendam com base naquilo que já ouvimos.
A qualidade técnica pode ser excelente. O risco está na repetição, no fechamento e na perda do encontro inesperado.
Do lado da criação, Edward defendeu dois territórios ameaçados pela aceleração: o tédio e o contacto com os outros. O tédio cria espaço para imaginar. O encontro presencial permite que ideias, dúvidas e inquietações colidam e deem origem a algo que nenhuma pessoa teria criado isoladamente.
Uma plataforma pode responder a perguntas. Mas a magia criativa continua muitas vezes a acontecer quando várias pessoas permanecem na mesma sala, escutam, discordam, experimentam e falham em conjunto.
Mais do que produzir sons, importa formar hábitos de escuta: escutar criticamente, escutar o diferente e escutar com outros. Enquanto houver pessoas dispostas a viver a música em conjunto, haverá algo que não se deixa reduzir a um ficheiro, a um cálculo ou a uma recomendação automática.
Os dados ajudam. Mas é preciso ir à vinha
Joana Silva Lopes trouxe a discussão para a materialidade da vinha e do vinho. Na enologia, a tecnologia permite recolher e interpretar dados antes inacessíveis, acompanhar o estado das uvas e apoiar decisões com maior precisão. Ainda assim, nenhuma análise substitui a ida ao campo.
Os indicadores laboratoriais podem dizer que a uva está pronta. Mas é necessário provar a película e a grainha, perceber a maturação fenólica, observar a vinha e decidir com base na experiência. Os números informam; o paladar, a sensibilidade e o conhecimento acumulado permitem julgar.
O mesmo acontece na criação de um lote. Quando chega o momento de combinar vinhos e assegurar a continuidade do perfil de uma marca, não existe uma fórmula puramente teórica. Existe memória, sensibilidade e critério.
Joana não vê nisso um argumento contra a Inteligência Artificial. Pelo contrário: quer utilizá-la para classificar faturas, analisar custos e tratar tarefas processuais que lhe retiram tempo. Se a tecnologia assumir o que pode ser automatizado, poderá dedicar-se mais à vinha, aos vinhos e às pessoas que lidera.
Uma história ocorrida durante a vindima mostrou o lado mais pragmático desta relação. Perante uma máquina que teimava em não arrancar de madrugada, Joana recorreu à IA para explorar causas possíveis e preparar o diagnóstico. Não substituiu o técnico nem resolveu magicamente a avaria, mas ajudou-a a pensar o problema num momento em que ninguém estava disponível.
A tecnologia revelou-se útil precisamente por ficar no seu lugar: uma ferramenta ao serviço de uma pessoa que conhece o contexto e permanece responsável pela decisão.
Sem aprendizagem, não haverá critério
No final, Eurico Nobre colocou uma das perguntas mais incómodas da conversa.
O critério do chef, da enóloga, do compositor ou da arquiteta resulta de anos de aprendizagem, tentativa, erro, observação e acompanhamento por profissionais mais experientes. Mas, se as funções de entrada começarem a ser automatizadas, onde aprenderão os profissionais que terão de tomar decisões daqui a dez anos?
Uma organização pode ganhar eficiência imediata eliminando tarefas iniciais. Mas corre o risco de eliminar também o percurso através do qual se formam a experiência e o juízo. Se ninguém começar por analisar, provar, desenhar, ouvir, comparar e corrigir, quem estará preparado para avaliar o trabalho produzido pela máquina?
O Chef Kiko respondeu sem suavizar o diagnóstico: o risco é a banalização, a homogeneização e a “estupidificação”. Quando delegamos sucessivamente escolhas e experiências, o gosto estreita-se. As cidades ficam parecidas, as lojas repetem-se e os sabores tornam-se mais simples e previsíveis. O doce e o salgado vencem; o amargo, que exige aprendizagem, desaparece.
Também recusou um otimismo tecnológico confortável. Num mundo em que cada vez mais trabalho pode ser substituído, não basta afirmar que tudo acabará bem. Para quem dirige empresas, paga salários e atravessou crises concretas, a transformação tecnológica não é uma abstração. Tem efeitos sobre empregos, negócios e vidas.
A rapidez não escolhe a direção
Deste encontro não resultou uma defesa nostálgica de um mundo sem tecnologia. Resultou algo mais exigente: a defesa de uma tecnologia subordinada ao critério, à responsabilidade e ao sentido.
A IA pode tornar-nos mais rápidos. Mas rapidez não é direção.
Pode apresentar respostas. Mas não garante que saibamos formular as perguntas certas.
Pode analisar dados sobre pessoas. Mas não substitui a participação das pessoas.
Pode gerar música, imagens, receitas ou soluções. Mas não assume as consequências daquilo que se faz com elas.
Pode poupar-nos trabalho. Mas também pode eliminar experiências necessárias à formação do critério.
O desafio não está apenas em preservar as tarefas que as máquinas ainda não conseguem executar. Está em formar pessoas capazes de utilizar o melhor que a tecnologia oferece, sem renunciarem ao pensamento, ao julgamento e à responsabilidade.
Ficaram, por isso, algumas perguntas que não admitem respostas automáticas:
- Estamos a investir tanto nas pessoas como nas ferramentas?
- Que competências humanas e técnicas precisamos de desenvolver?
- Quem formará o critério dos profissionais do futuro?
- O que não estamos dispostos a delegar?
- Como protegemos a dignidade humana nas decisões apoiadas pela tecnologia?
- E, quando tudo acelera, quem escolhe o caminho ?
O futuro continuará a precisar de pessoas. Não apenas para fazer aquilo que as máquinas ainda não fazem, mas para dar sentido ao que se faz e produz, decidir o que não deve ser automatizado e assumir as consequências das escolhas.
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