insight #140

Conseguir mais trabalhando menos dias?

O 1º de maio remete-nos, quase inevitavelmente, para uma reflexão sobre o Trabalho e, também, sobre o Descanso. Neste âmbito, hoje em dia, o pensamento deriva, de forma natural, para o grande tema da Inteligência Artificial e, em concreto, para o seu impacto em toda a nossa vida, desde o modo como trabalhamos, como nos relacionamos, como nos organizamos, como vivemos.  Contudo, seja porque a IA vai potenciando uma maior eficiência no trabalho que realizamos, seja porque é imprescindível considerar o equilíbrio com períodos de descanso, é frequente ouvir-se a pergunta: e se pudéssemos conseguir mais trabalhando menos dias?

Ainda não temos uma resposta satisfatória, mas a semana de 4 dias surge como um cenário cada vez mais plausível para muitas organizações. Não se trata de uma solução nem universal nem imediata, mas é uma tendência em muito comparável ao trabalho remoto na sua capacidade de desafiar pressupostos históricos profundamente enraizados, como sejam, a primazia do tempo face aos resultados, a centralidade da presença e da disponibilidade permanente, e a inflação de processos de coordenação com baixo valor acrescentado.

Na verdade, embora a semana de trabalho de 5 dias seja um pilar da vida moderna, é simplesmente um legado da era industrial. Não é sustentada nem pela ciência, nem por qualquer sabedoria ancestral e nem sequer por um qualquer dogma religioso. O que a ciência comprova, e a sabedoria e qualquer religião afirmam, são 2 factos. Em primeiro lugar, para o desenvolvimento e dignidade de cada pessoa, é tão importante trabalhar como descansar. Em segundo lugar, o excesso ou falta reiterada de alguma destas componentes na vida, mais tarde ou mais cedo, leva a que o bem-estar, físico e/ou mental e/ou emocional, seja afetado.

Contudo, a principal dificuldade reside em que mais do que reduzir dias de trabalho, A introdução desta medida implica repensar profundamente como o trabalho é organizado e implementado. Nas organizações em que tem sido bem-sucedida foi utilizada, seja por necessidade ou oportunidade, como catalisador de uma profunda transformação operacional e cultural. Não se trata de trabalhar menos mantendo tudo igual, mas de trabalhar de forma estruturalmente diferente (menos reuniões, decisões mais rápidas, adoção de IA).

Se se escolher diminuir um dia sem mudar a forma de trabalhar, no final, apenas se estará a reduzir a produtividade. Para a semana de 4 dias funcionar, a mudança exige redesenho — não compressão — de processos-chave, como sejam a cultura de reuniões e comunicação, tornando a colaboração mais intencional, a tomada de decisão e gestão de prioridades, a adoção de IA e tecnologia que acelerem a produtividade, a definição clara de emergências e escalamentos, o alinhamento entre objetivos estratégicos e o trabalho diário que cada um realiza.

Quando bem concebida, a semana de quatro dias pode então gerar benefícios significativos sem queda de produtividade e, em muitos casos, com desempenho superior ao da semana tradicional de 5 dias. Benefícios que se observam ao nível das pessoas, em termos do bem-estar, satisfação e motivação dos colaboradores; para a organização, potenciando uma maior eficiência, atração e fidelização de talento e incentivo à adoção de práticas mais produtivas, incluindo o uso de IA e, não menos relevante, para a sociedade em geral como consequência do tempo libertado.

E alguns casos de sucesso já se conhecem dos quais destaco a  Unilever (Nova Zelândia e Austrália) – implementou uma semana de 4 dias com salário integral, mantendo crescimento de receitas, satisfação total dos clientes e melhorias claras em bem‑estar e envolvimento), a Microsoft Japão – introduziu uma semana de 4 dias em piloto, registando um aumento de cerca de 40% na produtividade, além de reduções em custos operacionais e a Lamborghini – aplicou um modelo de semana curta nas unidades de produção, com foco em motivação, retenção e sustentabilidade do desempenho.

Então porquê a resistência? A implementação da semana de 4 dias é travada sobretudo por argumentos ligados à produtividade, ao serviço ao cliente e ao esforço de mudança organizacional. Muitas organizações receiam que menos horas signifiquem inevitavelmente menos resultados, sobretudo se a redução do tempo de trabalho for vista como mera compressão do horário e não como um redesenho profundo da organização. A isto soma‑se a preocupação com a continuidade do serviço a clientes e parceiros que operam cinco dias por semana e com a perda de competitividade face a concorrentes que mantêm o modelo tradicional. Em setores baseados na faturação à hora, como consultoria ou serviços profissionais, estes receios são agravados pelo confronto direto com modelos de negócio assentes em presença e utilização do tempo.

Um segundo grupo de barreiras é cultural e de liderança. Predomina ainda em muitas organizações uma cultura de controlo, visibilidade e avaliação por horas, pouco alinhada com lógicas de gestão por objetivos e resultados. A mudança exige esforço de planeamento, envolvimento das equipas e capacidade de enfrentar resistências internas, algo que muitas organizações tendem a protelar. Há também o receio de que a semana de 4 dias seja percecionada como um “privilégio” irreversível ou um direito, e não como um incentivo associado a desempenho e melhoria contínua. Por fim, persiste a crença de que os casos de sucesso são excecionais e não replicáveis, levando muitas lideranças a concluir que “poderia funcionar noutros contextos, mas não no nosso”.

Um exemplo clássico e muito citado é o de Henry Ford — não sobre a semana de 4 dias, mas como precedente histórico que ajuda a enquadrar o debate atual. Em 1922, Henry Ford introduziu na Ford Motor Company a semana de 5 dias e 40 horas, quando o padrão industrial ainda era de 6 dias e semanas muito mais longas. A decisão foi fortemente criticada na época, vista como um “incentivo à preguiça” e uma “ameaça à produtividade”. Ford justificou‑a de forma pragmática: trabalhadores com mais tempo livre e melhor remuneração eram mais produtivos, menos fatigados e, sobretudo, tinham tempo para consumir — incluindo conduzir os automóveis que produziam. O resultado foi um aumento de produtividade, menor rotatividade e um enorme efeito de imitação noutras empresas e sectores. Para além disso, contribui para o aumento em larga escala do mercado automóvel, com o acesso generalizado à compra de carro.

Tal como o modelo de 5 dias foi considerado radical e inviável no seu tempo, mas acabou por se tornar o novo padrão, a redução adicional do tempo de trabalho pode ser vista como o próximo ajustamento estrutural numa economia muito mais produtiva, tecnológica e intensiva em conhecimento. Ford mostra que reduzir tempo de trabalho não é filantropia, nem utopia, antes uma decisão estratégica acompanhada de uma boa implementação. Tal como noutras grandes transformações no mundo do trabalho, não se trata de trabalhar menos, trata-se de trabalhar melhor. E, como a história já mostrou, são esses os modelos que acabam por definir o novo normal.

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