O “teste do espelho” é um conhecido instrumento de autorreflexão, que pode ser usado para confortar os nossos juízos éticos e favorecer a integridade pessoal. Consiste em perguntar-se, antes de realizar alguma acção que tenha implicações morais: “se eu fizer isso, que tipo de pessoa vou encarar no espelho amanhã de manhã, olhos nos olhos? É essa pessoa que eu deveras sou, que eu quero ser, ou deveria, ou gostaria de ser?”
O “espelho” dos dirigentes
Este exercício entronca numa antiquíssima tradição. Remonta ao género literário chamado “espelhos dos príncipes” (specula principum), que inspirou a demanda do príncipe ideal durante a Idade Média e no Renascimento. Os livros desse género apresentavam aos príncipes contemporâneos uma imagem modelar, convidando-os a procurar nela o seu reflexo profundo. Traduzindo, naturalmente, a evolução das condições sociais, políticas e religiosas ao longo daquele arco histórico, essas obras constam basicamente de uma articulação de conselhos, exortações e preceitos morais ad usum delphini (mas não só, porque essa literatura cobre também a prestação do pessoal político em sentido mais lato, cortesãos e magistrados). A ideia de fundo era a de que o mais importante para um dirigente (a par da experiência) seria o governo de si próprio. Os príncipes deveriam conhecer-se melhor; e, antes de dirigir outras pessoas, deveriam reflectir sobre a sua capacidade de dirigir-se a si mesmos.
A observação de si próprio no espelho, neste contexto, visava tornar patente a cada um os seus defeitos e os seus deveres, aprofundar o conhecimento próprio, manifestar traços que estavam antes apenas latentes ou insinuados, estimular a transformação moral. Seria algo radiográfico, desmascarador e revelador. No simbolismo do espelho, conhecer seria “reflectir”: ver a verdade sobre si mesmo, à luz de Deus. Quando Hamlet confronta a sua mãe pelo seu comportamento (casamento com o cunhado, pouco depois da morte do marido), que ele considera indecente, Hamlet intima-a com as seguintes palavras: «Não ireis até que vos ponha um espelho à frente, em que possais ver o vosso recesso mais íntimo». Do mesmo modo, os dirigentes devem explorar o seu “recesso mais íntimo”. Isto requer tempo, não é algo natural em pessoas de acção e não é necessariamente agradável, mas é preciso.
O espelho nos olhos dos outros
Contudo, a metáfora do espelho – o reconhecimento de si no espelho, ou a descoberta de quem somos, objectivamente (ver-se como se é visto), por autorreflexão – levanta os seus problemas. Por um lado, o espelho é fugidio e descartável: como diz S. Tiago, «se alguém é ouvinte da palavra e não a põe em prática, será comparado a um homem que contempla o seu rosto num espelho: mal se contemplou, tendo-se retirado, logo se esquece como era» (Tg, 1, 23-24). Por outro lado, tudo depende da qualidade do espelho, da integridade e limpidez da consciência (que são muito difíceis): o espelho pode estar riscado, deformado ou sujo; e a reflexão pode ficar distorcida, fragmentada ou embaciada. O sujeito pode estar no ponto cego de si. E o espelho pode converter-se num espelhismo ou numa miragem. Por fim, mesmo quando a imagem é nítida, ver-se ao espelho pode ser penoso, ou até insuportável, sobretudo à medida que passam os anos… Às vezes, veremos nesse espelho o rosto da nossa imprudência, injustiça, negligência ou leviandade, por exemplo. E, tal como Dorian Gray, que esfaqueia o seu retrato (em The Picture,de Oscar Wilde) – por não aguentar ver o que vê (porque esse retrato envelhecia e espelhava a deformidade da sua alma, registando visualmente cada um dos pecados da sua vida libertina e amoral, enquanto a sua aparência corpórea se mantinha jovem e bela) –, também nós corremos o risco de não suportar a nossa própria imagem … Mas se fizermos o mesmo que Dorian Gray – apunhalar e rasgar o retrato (ou, analogamente, atirar ao chão e estilhaçar o espelho) – acontecer-nos-á o mesmo que lhe aconteceu a ele: em vez de destruir sua representação, ele acaba por lacerar-se e despedaçar-se a si mesmo.
Para superar estes perigos precisamos da ajuda dos outros: da nossa família, dos nossos amigos, da nossa equipa.
É costume associar a “solidão do poder” à “solidez do poder”, mas a necessária transformação de um dirigente dificilmente se consegue de modo solitário. O conhecimento próprio exige a mediação de um outro. Em Julius Caesar, de Shakespeare, a certa altura, Cássio pergunta a Bruto: «consegues ver a tua face?» Ao que este responde: «não Cássio, porque os olhos não se vêem a si próprios, senão por reflexão, através de outras coisas». Ao que Cássio replica: «uma vez que sabeis ser impossível ver-vos a vós mesmo, sem usar de um reflexo qualquer, eu, vosso espelho, modestamente vou mostrar-vos o que de vós desconheceis ainda». O dirigente – como qualquer outro indivíduo – precisa de ver-se ao espelho no olhar dos outros, e em particular nos olhos daqueles que o estimam (e também, embora de modo diferente, no dos inimigos), para reconhecer que tipo de pessoa ele é. Para isso, carece de colaboradores que sejam, simultaneamente, amigos, prudentes, firmes e corajosos, capazes de lhe dizer a verdade que ele não quer ouvir, precisamente porque lhe querem bem. E precisa de afastar os conselheiros servis e bajuladores, em cujos opacos e turvos olhos é impossível ver-se ao espelho com verdade…
Je ris de me voir si belle en ce miroir…
Estas palavras são cantadas por Marguerite na célebre Ária das Jóias da ópera Fausto, de Gounod. (Suspeito, contudo que são mais conhecidas por serem trovejadas por Bianca Castafiore, o “rouxinol milanês” do Tintim…). As jóias em questão foram-lhe entregues, juntamente com um espelho de mão, por Mefistófeles, em nome de Fausto, e foram instrumentais para que Marguerite sucumbisse à vaidade: ao ver-se deslumbrante nesse pequeno espelho, ornada por essas jóias que realçavam a sua beleza, ela ficou como que inebriada e, a seguir, enfraquecida e vulnerável ao assédio de Fausto, e por fim caiu em desgraça. Trata-se de uma ilustração da toxicidade da vaidade, como muitas outras que conhecemos, quer da vida real quer da literatura. Uma outra história instrutiva é a d’A Fada Oriana, de Sophia de Mello Breyner. A Rainha das Fadas tinha dito a Oriana: «entrego-te esta floresta. Todos os homens, animais e plantas que aqui vivem, de hoje em diante, ficam à tua guarda. Tu és a fada desta floresta. Promete-me que nunca a hás-de abandonar. Oriana disse: – Prometo». Porém, certo, dia, Oriana «viu a sua cara reflectida na água (…) e viu os seus olhos azuis como safiras, os seus cabelos loiros como as searas, a sua pele branca como lírios e as suas asas cor do ar, claras e brilhantes. – Mas que bonita que eu sou – disse ela. – Sou linda (…). Oriana estava maravilhada com a sua descoberta. Debruçada sobre a água, não se cansava de se ver. As horas passavam e ela continuava conversando com a sua imagem» e a «ouvir os elogios de um peixe» … Lembramo-nos talvez do que aconteceu a seguir. Apaixonada por si própria, Oriana descurou os seus deveres: faltou à sua promessa, abandonou a floresta, os homens, os animais e as plantas; abandonou o lenhador, o moleiro, o Poeta e a velha. As crianças tiveram medo e ela não os consolou, os pobres tiveram fome e ela não lhes deu comida, os pássaros caíram do ninho e ela não os apanhou.
Esta não é uma história para crianças. Ou, pelo menos, não só. Alerta-nos para um “pequeno problema”. Os dirigentes são pessoas que, por definição, detêm poder. E, como diz Sófocles, na Antígona, «é impossível conhecer verdadeiramente um homem, a sua alma, sentimentos e intenções, senão quando ele exerce o poder…» (Trata-se de uma ironia trágica, porquanto ele mesmo, Creonte, está a ser testado dessa forma naquele preciso momento, e a ponto de ser reprovado por Sófocles e por nós…). Uma pessoa não saberia de facto o que é, e quem é, antes desse embate, do confronto com prova, antes do padecimento da experiência do poder. Ora, os dirigentes estão naturalmente sujeitos a uma tentação comum e até provável: a vaidade decorrente desse poder. E, neste caso, “ver-se ao espelho” poderá converter-se num exercício de narcisismo. Em vez de instrumento de auto-reflexão e autodescoberta, seria um dispositivo de autocomplacência. E ninguém é insensível à lisonja… A personalidade narcisista procura não tanto ser amada ou ser temida, procura, sobretudo, ser admirada (em primeiro lugar, por si própria, depois, pelos outros). Mas isto pode acontecer a todos nós, como revela a feira de vaidades exibida sem pudor no Linkedin. E no cortejo da vaidade podem inscrever-se a arrogância, a suficiência e egoísmo; a insensibilidade ao conselho e aversão à crítica, a permeabilidade à adulação e a obstinação.
O termo “‘narcisismo” foi introduzido por Freud – não apenas no léxico da psicologia, mas também na linguagem comum – a partir do correspondente mito das Metamorfoses. Aí, Ovídio faz constar que Narciso era incapaz de amar e narra como ele desprezou Eco – a bela ninfa condenada por Juno a repetir as palavras alheias – e foi cruel com ela. (Mas é o narcisista que não consegue escutar senão o seu próprio eco e está condenado a ouvir para sempre apenas o ressoar monótono das suas brilhantes sentenças.) No fim da história, Ovídio conta que Narciso ficou deslumbrado quando se viu tão belo no espelho da água – debruçado sobre o seu reflexo, enamorado e embevecido de si próprio – e depois desesperado quando não conseguiu beijar-se e abraçar-se a si mesmo; e como, incapaz de cessar de se contemplar a si mesmo, – assim definhou até morrer: «louco ingénuo, [escreve Ovídio] porque intentas em vão apanhar uma imagem fugaz? O que procuras não está em lado nenhum».