Num contexto de transformação tecnológica acelerada e de profunda alteração dos hábitos de consumo de informação, a AESE promoveu um Breakfast Seminar, na AESE Campus Lisboa, para discutir o futuro dos media tradicionais: os legacy media. O convidado foi José Carlos Lourenço, CEO do Media N9ve Group, membro da Comissão Executiva do Emerald Group e Alumnus do PADE | Programa de Alta Direção de Empresas da AESE Business School.
A sessão proporcionou um diagnóstico da evolução das empresas de media nas últimas décadas, bem como apontar perspetivas de futuro para um modelo de negócio que o orador considera “necessário” pelo seu impacto social.
Um setor profundamente transformado
Com uma trajetória que inclui passagens pela VASP, Impresa, Controlinveste Media, Global Media Group e Lusa, José Carlos Lourenço, hoje como CEO da Media N9ve Group, trouxe uma visão realista e informada sobre o setor.
Segundo o orador, “o racional do negócio dos legacy media”, i.e. televisão, imprensa, rádio, revistas e meios especializados,” alterou-se, profundamente, a partir da bolha da internet 1.0″. A revolução digital introduziu aquilo que designou como o “pecado original”, que se traduz no primado do acesso gratuito aos conteúdos. A este fator juntaram-se: investimentos tecnológicos significativos sem retorno proporcional, dificuldades na geração de valor face às novas formas de consumo de informação, o impacto das plataformas tecnológicas internacionais e uma receita publicitária insuficiente para garantir a sustentabilidade dos títulos.
Publicidade: uma mudança estrutural
A análise da evolução do investimento publicitário em Portugal, nos últimos 25 anos, revelou tendências claras: uma quebra acentuada na televisão (−19%) e na imprensa (−26%), o crescimento da televisão por cabo e uma afirmação inequívoca do digital, com um aumento na ordem dos 32%.
Para José Carlos Lourenço, “a erosão de valor tem um impacto brutal na sustentabilidade das empresas de media”. Daqui resultam fenómenos como “instabilidade corporativa, degradação da competitividade da oferta, apropriação de conteúdos pelas plataformas tecnológicas sem contrapartida e, mais recentemente, o impacto das ferramentas de Inteligência Artificial”.
Atualmente, a Inteligência Artificial assume um papel central enquanto motor de busca e intermediário de informação, substituindo parte do valor tradicionalmente gerado pelos media e pelos jornalistas, na disponibilização de conteúdos.
O papel insubstituível do jornalismo
Apesar do diagnóstico desafiante, o orador deixou uma mensagem otimista. “Há empresas com negócios lucrativos ou em situação equilibrada” e “existem novos projetos que têm encontrado o seu espaço e evoluído de forma sustentável”.
Num contexto de “crescente desinformação”, sublinhou, “nunca foi tão relevante o papel dos publishers”. A procura por informação credível mantém-se e os media continuam a ser, para grande parte do público, uma referência de confiança.
Para garantir o futuro do setor, José Carlos Lourenço defende “a necessidade de acelerar mudanças a nível regulatório e de reforçar o compromisso das empresas com a sua relevância social.
A sessão terminou com um período de perguntas e respostas, num diálogo aberto entre o orador e os participantes, espaço que aprofundou os desafios e as oportunidades que se colocam aos media, num tempo de transformação acelerada.