No âmbito das iniciativas promovidas pelos Alumni da AESE, o Campus Porto recebeu a conferência “A Bolsa no contexto europeu: papel, desafios atuais e expetativas de evolução”, conduzida por Olga Jordão, a 20 de maio de 2026. A sessão proporcionou uma reflexão sobre o funcionamento dos mercados financeiros europeus, os seus desafios estruturais e o papel que desempenham na competitividade económica da Europa.
Com raízes alentejanas e um percurso internacional marcado pelos anos que viveu e estudou no Luxemburgo, Olga Jordão trouxe à sessão uma perspetiva simultaneamente técnica e estratégica, aproximando temas tradicionalmente associados ao universo financeiro de questões mais amplas relacionadas com crescimento, inovação e desenvolvimento económico.
O mundo complexo das Bolsas e o papel da Europa
Uma das ideias centrais da intervenção foi a de que a bolsa representa hoje muito mais do que um simples espaço de compra e venda de ações. Por detrás das transações, existe uma infraestrutura complexa responsável por assegurar confiança, transparência e segurança em todo o processo. Temas como as câmaras de compensação, os sistemas centrais de liquidação e os mecanismos de gestão de risco evidenciaram a dimensão tecnológica e operacional, que sustenta o funcionamento dos mercados.
Foi igualmente destacado o papel da Euronext enquanto plataforma única de negociação, permitindo uma maior integração entre diferentes mercados financeiros europeus. Esta integração procura reduzir barreiras entre países, aproximando investidores, empresas e instituições e promovendo uma maior eficiência, num espaço económico cada vez mais interligado.
Ao abordar os principais desafios atuais da Europa, Olga Jordão identificou três questões particularmente relevantes: a fragmentação dos mercados, os elevados custos associados às infraestruturas financeiras e a crescente pressão regulatória. Se, por um lado, a regulação desempenha um papel essencial para assegurar estabilidade e proteção do sistema, por outro, ao não ser aplicada da mesma forma nos diferentes países da União Europeia, coloca desafios adicionais à capacidade de inovação e competitividade europeia.
As questões colocadas pelos participantes permitiram aprofundar temas particularmente relevantes para o contexto empresarial atual. Perante a pergunta sobre o interesse da Euronext em aumentar o número de empresas cotadas, foi referido que existe naturalmente essa ambição, mas que a realidade é mais complexa do que simplesmente aumentar números. Muitas empresas optam por não entrar em bolsa devido ao grau de exigência, transparência e escrutínio associado a esse processo.
As empresas portuguesas e a Bolsa
Neste contexto foi apresentado o programa Elite, uma iniciativa direcionada para empresas que ainda não estão necessariamente a pensar numa entrada em bolsa, mas que procuram preparar-se para crescer, profissionalizar processos e desenvolver estruturas de suporte adequadas. A ideia central passa por criar um ambiente de aprendizagem, acompanhamento e preparação que permita às organizações ganhar maturidade para etapas futuras de desenvolvimento.
A discussão conduziu também a uma reflexão particularmente relevante para a realidade portuguesa. Num país fortemente marcado pela presença de pequenas e médias empresas, foi defendida a importância de criar condições para que estas possam crescer e ganhar escala. Sem desvalorizar o papel essencial das PME no tecido económico nacional, foi sublinhada a necessidade de existir ambição de crescimento, ultrapassando por vezes uma lógica centrada apenas na manutenção de modelos empresariais familiares que funcionam de forma estável.
As alternativas ao mercado bolsista
Outro dos temas abordados relacionou-se com a existência de alternativas ao mercado bolsista enquanto fonte de financiamento empresarial. A este propósito, foi referido o crescimento significativo do Private Equity, que tem assumido um papel cada vez mais relevante no investimento e aquisição de empresas. Ainda assim, foi salientado que muitas organizações, quando atingem determinada dimensão, acabam por recorrer ao mercado bolsista como forma de aceder a novas oportunidades de investimento e financiamento.
Uma das reflexões finais incidiu sobre o posicionamento europeu face a economias como os Estados Unidos e a China, especialmente num momento em que os mercados de capitais atravessam profundas transformações tecnológicas. Segundo Olga Jordão, o principal desafio europeu poderá não residir na inexistência de capital, mas antes na dificuldade em mobilizá-lo. O capital existe, mas encontra-se muitas vezes “adormecido”, tornando essencial criar condições que permitam ativá-lo e direcioná-lo para investimento, crescimento e inovação.
Mais do que uma discussão sobre mercados financeiros, esta sessão acabou por levantar questões relevantes sobre o futuro da competitividade europeia, a capacidade de crescimento das empresas e o equilíbrio entre regulação, inovação e desenvolvimento económico. Temas que ultrapassam o universo da finança e que dizem respeito à forma como organizações e países se preparam para responder aos desafios de um contexto em permanente transformação.
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