insight #148

Pensar fora da concha

13 Out 2026 | 6 min de leitura

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Inês Magriço Sub-Diretora do AESE Executive MBA e Professora de Economia, Finanças, Controlo e Contabilidade

A concha protege. Abriga-nos do desconforto, permite-nos conservar o que conhecemos e oferece a segurança de um espaço que controlamos. Mas também limita o horizonte. Quando cada pessoa, organização ou país se fecha na sua concha, a sociedade perde a capacidade de construir aquilo que nenhum dos seus membros conseguiria alcançar sozinho.

Reconhecemos facilmente as consequências do individualismo. Falamos de fragmentação, solidão, falta de confiança e dificuldade em colaborar. Porém, quando chega o momento de decidir, o nosso bem-estar imediato tende a falar mais alto. O bem comum reúne amplo consenso enquanto princípio; exige outra coragem quando implica ceder uma vantagem, partilhar recursos ou aceitar que o melhor resultado não seja exclusivamente nosso.

A microeconomia ajuda-nos a compreender este paradoxo. Num equilíbrio de Nash, nenhum participante tem incentivo para alterar unilateralmente a sua estratégia, dadas as escolhas dos restantes. Isso não significa que o resultado seja o melhor para todos. O dilema do prisioneiro mostra como decisões individualmente racionais podem produzir um resultado coletivo inferior ao da cooperação. Colaborar pode criar mais riqueza; distribuí-la de forma justa exige também instituições, confiança e responsabilidade.

Na Europa, esta tensão é particularmente visível. Defendemos um mercado único que facilite a circulação de capital, trabalho, bens e serviços, mas continuamos frequentemente a torcer pelo nosso “bairro”. Queremos escala europeia, desde que o investimento, o talento e a decisão fiquem do nosso lado da fronteira. A soma destas preferências pode enfraquecer precisamente a Europa de que cada país precisa para prosperar.

A mesma lógica aparece nos ciclos políticos. Quando a alternância se transforma na vontade de apagar o rasto do mandato anterior, desperdiçam-se conhecimento, recursos e tempo. Reformar exige corrigir o que falhou, mas também preservar o que funciona. E manifesta-se na fiscalidade: perante impostos que incidem sobre diferentes momentos da vida económica, importa perguntar se avaliamos suficientemente o efeito acumulado sobre a mesma pessoa ou empresa. A aplicação de cada taxa pode ter fundamento; a visão do conjunto continua indispensável.

Não devemos, contudo, desistir. Há sinais de esperança: cresce a consciência de que a fragmentação e a complexidade administrativa têm custos que já não podemos ignorar. A necessidade de simplificar, atrair investimento e tornar a inovação economicamente viável aproxima sensibilidades políticas diferentes. Na Europa, começa a ganhar força a passagem do diagnóstico à execução.

Os relatórios Draghi e Letta, publicados em 2024, foram pontos de partida decisivos. Draghi identifica três prioridades: reduzir o atraso na inovação, conciliar descarbonização e competitividade e reforçar a segurança, diminuindo dependências. Letta propõe aprofundar o mercado único, incluindo nos setores financeiro, energético e das telecomunicações, e acrescentar uma “quinta liberdade”, centrada na investigação, inovação e educação. Ambos convidam a pensar à escala do problema, ultrapassando fronteiras nacionais e institucionais.

No discurso sobre o Estado da União de 16 de setembro de 2026, Ursula von der Leyen retomou esta preocupação: apesar da dimensão do mercado europeu, continuamos a fragmentar capital, redes e poder de compra. Na passagem dedicada ao mercado único e à simplificação, sublinhou que a redução da burocracia exige o compromisso de todos os níveis de decisão, incluindo dos Estados-Membros, evitando acrescentar exigências nacionais às regras europeias.

É neste esforço de implementação que se enquadra a ESNA – Europe Startup Nations Alliance, sediada em Lisboa. O seu mandato decorre da declaração ministerial Startup Nations Standard, assinada em 2021 por países europeus. A ESNA acompanha a aplicação de oito padrões de política pública: criação de empresas e entrada no mercado; atração e retenção de talento; opções sobre ações; inovação na regulação; contratação pública inovadora; acesso a financiamento; inclusão, diversidade e valores democráticos; e serviços públicos digitais. O diagnóstico permite comparar progressos e identificar práticas que outros países podem adotar.

A sua Data Platform acrescenta uma peça essencial: dados agregados sobre startups, investimento e desempenho dos ecossistemas, preparados para apoiar decisores políticos. Reunir fontes, harmonizar conceitos e assegurar comparabilidade e robustez metodológica permite discutir políticas com uma base comum de evidência. A ambição pode traduzir-se numa imagem: desempenhar, para as startups, uma função de conhecimento e comparação semelhante à que associamos à OCDE. Quanto melhor conhecemos a realidade, melhor podemos decidir em conjunto.

A OpportunityHub.EU concretiza outra dimensão deste mandato: apoiar a atração e retenção de talento e investimento na Europa, partindo da perspetiva do utilizador. Um fundador, profissional, investigador ou investidor procura oportunidades e orientação prática para trabalhar, criar uma empresa, investigar ou investir. Organizar informação dispersa sobre países, vistos, financiamento e mobilidade ajuda a transformar uma intenção numa possibilidade concreta.

Também a proposta EU Inc., integrada no chamado 28.º regime, procura ultrapassar a fragmentação: prevê um quadro societário harmonizado, procedimentos digitais e apresentação de informação uma única vez. É uma proposta, ainda dependente de aprovação, mas traduz uma mudança de orientação. A valorização do conhecimento produzido nas universidades, através da transferência de tecnologia e da criação de empresas, aponta na mesma direção: converter investigação em soluções úteis e negócios sustentáveis.

A mudança deve começar por quem tem maior capacidade de influenciar o sistema. Governos, instituições europeias, universidades e líderes empresariais têm uma responsabilidade proporcional ao seu poder de decisão. Mas essa abordagem não nos dispensa de agir. Em casa, no prédio, no bairro e no meio profissional e social, cada um pode perguntar: que consequências têm as minhas escolhas para os outros? Que vantagem estou disposto a partilhar? Que colaboração posso iniciar?

Pensar fora da concha começa por alargar o horizonte e aceitar a responsabilidade pelo que é comum. Queremos arriscar? Desafio aceite. Vamos a isso!

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