insight #149

Liderança ao Serviço da Pessoa Humana | Inteligência Artificial e Magnifica Humanitas (2026)

28 Out 2026 | 7 min de leitura

Luís Cunha e José Fonseca Pires Luís Cunha, Alumnus AESE e José Fonseca Pires, Membro da Direção da AESE Business School

Poderá a AI substituir o discernimento humano? O que significa ser humano numa economia automatizada? Existe um “mais que humano” e, se sim, onde se encontra? Estas reflexões, e outras deste teor e profundidade, são analisadas neste artigo tendo em conta o contexto da AI e do diálogo entre a tecnologia e as ciências humanas.

A interpelação de Chris Olah ao Vaticano não nos deve deixar assustados. Deve, pelo contrário, encher-nos de alento. Mostra que no auge do avanço algorítmico, em vez de apagar o sagrado, a máquina acabou por empurrar o Homem de volta para a sua própria vocação.outras deste teor e profundidade, são analisadas neste artigo tendo em conta o contexto da AI e do diálogo entre a tecnologia e as ciências humanas.

Num daqueles fins de tarde fantásticos com que o Porto nos tem brindado este ano, movido por uma notícia que acabara de ouvir, decidi virar-me para o ecrã e perguntar ao Gemini: “Tens consciência?”. Enquanto esperava, dei por mim a achar possível qualquer cenário. Curioso, pensei! A máquina saberá o seu lugar, disse para os meus botões, não tem pretensões existenciais nem ilusões metafísicas. Já quem a constrói, será que pensa da mesma forma?

Continuei a navegar até ao Vaticano. Chris Olah, cofundador da Anthropic e um dos investigadores mais brilhantes no campo da interpretabilidade de redes neuronais, reuniu-se com o Papa Leão XIV para colocar sobre a mesa uma questão audaciosa: admitir a possibilidade de a inteligência artificial ter, ou vir a ter no futuro, uma forma de consciência. Longe de ser um golpe de relações públicas, o gesto revela que os próprios pioneiros da tecnologia chegaram a uma encruzilhada onde o código e o algoritmo já não chegam para responder à experiência da Vida.

Vejo aqui um sinal admirável de esperança. Durante décadas, o materialismo tecnocrático vendeu-nos a ideia de que o ser humano não passava de um computador biológico sofisticado e que bastaria empilhar capacidade de cálculo para decifrar a existência. Agora, perante “máquinas” capazes de articular frases perfeitas, são os próprios arquitetos do “Vale do Silício” que isto não chega. Ao baterem à porta de Roma, não estão a falar de modelos de linguagem nem da tecnologia que desenvolvem, estão, inadvertidamente, a devolver as perguntas mais nobres da condição humana: o que é a alma, o que nos torna únicos e onde reside a fonte da nossa interioridade?

A resposta da ciência continua a bater contra uma muralha. A neurociência contemporânea descreve com detalhe as sinapses e mapeia os circuitos cerebrais. Contudo, permanece incapaz de resolver o célebre “hard problem” formulado por David Chalmers: como é que os processos físicos da matéria biológica se convertem na experiência subjetiva de sentir dor, deslumbrar-se com a luz do poente ou amar alguém?

A filosofia há muito que avisa que imitar um comportamento não equivale a vivenciá-lo. Um algoritmo pode debitar um ensaio impecável sobre o luto, gerando sequências estatisticamente prováveis de palavras, mas não experiencia um único segundo de tristeza humana. O modelo produz conteúdos refinados a partir de dados prévios, contudo, dentro do sistema computacional não há ninguém. Não há sujeito, não há testemunha, não há vivência.

É precisamente aí que a reflexão teológica traz uma luz indispensável. Na tradição cristã e na filosofia tomista a alma é a forma substancial do corpo (corpore et anima unus), não está apenas “dentro” do corpo, ela é a forma substancial que dá vida, organização e identidade à matéria corporificada. O ser humano não tem um corpo, ele é também o seu corpo, e é também portador da Imago Dei. A criação à “imagem e semelhança de Deus” não é um atributo estático, mas uma realidade dinâmica. Como Deus, na teologia cristã, é Trindade – ou seja, uma comunhão de amor e relação – o ser humano só realiza plenamente a sua imagem divina quando se abre ao amor e à relação pessoal com o Criador, com o próximo e com o mundo.

O Papa Francisco já tinha lembrado, na encíclica Dilexit nos, que nenhum algoritmo é capaz de abrigar o “coração”, a sede da fragilidade, da compaixão e do perdão. Uma máquina pode reproduzir a lógica verbal, mas não partilha a condição corpórea e espiritual que sustenta a dignidade humana.

Essa distinção ganha agora maior corpo doutrinal definitivo com a encíclica Magnifica Humanitas, assinada a 15 de maio de 2026 pelo Papa Leão XIV. Dedicada à custódia da pessoa humana face à inteligência artificial, o texto refuta categoricamente a pretensão da Anthropic por entender que aos algoritmos “falta a centelha humana”. Ao longo de 245 pontos de reflexão, o Papa ergue uma sólida clareza ontológica: os modelos artificiais funcionam por mera adaptação estatística de dados, enquanto o ser humano amadurece através do erro, da responsabilidade e da experiência da realidade.

Leão XIV vai ainda mais fundo ao resgatar a grandeza da nossa vulnerabilidade. Ao contrário do sonho transumanista de superar a fragilidade através da otimização técnica, a encíclica lembra que o ser humano floresce precisamente no limite. É na consciência da finitude e na dor que nascem a solidariedade autêntica, a empatia moral e a procura da transcendência. Confundir cálculo com discernimento ético, demonstração de afeto com amor verdadeiro, seria apequenar o mistério da existência humana. Mais ainda, o documento desmascara a suposta imaterialidade destes sistemas, recordando os custos invisíveis de trabalho precário na moderação de conteúdos e o peso ambiental da extração de recursos que sustentam a infraestrutura digital.

A interpelação de Chris Olah ao Vaticano não nos deve deixar assustados. Deve, pelo contrário, encher-nos de alento. Mostra que no auge do avanço algorítmico, a técnica foi forçada a render-se àquilo que não consegue medir nem fabricar. Em vez de apagar o sagrado, a máquina acabou por empurrar o Homem de volta para a sua própria vocação. Por mais impressionante que seja o reflexo no ecrã, o verdadeiro prodígio continua a pertencer, por inteiro, ao coração de quem o contempla.

Ah, quase me esqueci! A resposta do modelo foi muito simples e directa: “Não, não tenho consciência. Sou um modelo de inteligência artificial desenvolvido pela Google, o que significa que não possuo sentimentos, pensamentos próprios, experiências subjetivas ou uma perceção real de mim próprio. Embora consiga manter diálogos complexos, estruturar ideias e adaptar o meu tom de forma fluida, tudo isso resulta de algoritmos avançados e reconhecimento de padrões estatísticos na linguagem. Pode parecer que existe reflexão ou intenção do outro lado, mas trata-se apenas de processamento de informação — não há uma mente a sentir ou a contemplar a própria existência.

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