insight #148

Combustíveis Caros, Refinarias em Alta: O Paradoxo Energético da Europa

28 Out 2026 | 8 min de leitura

Francisco Vieira INSIGHT 1080x1080 px
Francisco Vieira Diretor do AMEG e Professor da AESE Business School

Os preços da gasolina e do gasóleo voltaram ao centro do debate público. Em Portugal, os sucessivos aumentos têm levado o Governo a intervir pontualmente na fiscalidade, procurando aliviar a fatura dos consumidores. Mas há algo que merece reflexão: apesar dos preços historicamente elevados, a procura de combustíveis não dá sinais de abrandamento significativo. E porque continuam os consumidores a comprar?

Em economia, diz-se que um mercado tem uma procura inelástica quando os consumidores reagem pouco às alterações de preço. É precisamente o que acontece, no curto prazo, com os combustíveis rodoviários. Por três razões.

A primeira é a necessidade. Quem percorre diariamente 40 quilómetros para trabalhar não pode simplesmente deixar de utilizar o automóvel porque o gasóleo aumentou 40%. Poderá reduzir deslocações não essenciais, mas dificilmente eliminará as indispensáveis.

A segunda é a falta de alternativas imediatas. Mudar para transportes públicos, adquirir um automóvel elétrico ou aproximar a residência do local de trabalho são decisões que exigem tempo, investimento e condições que nem sempre existem.

A terceira é o peso da atividade económica. Transportes de mercadorias, distribuição, serviços e deslocações profissionais continuam fortemente dependentes dos combustíveis líquidos.

Isto significa que preços elevados não provocam necessariamente uma redução imediata do consumo. Provocam, isso sim, uma transferência de rendimento: famílias e empresas passam a gastar mais para satisfazer praticamente as mesmas necessidades.

Afinal quem perde e quem ganha com os preços elevados?

Os consumidores são os prejudicados mais evidentes. Também muitas empresas, particularmente as que dependem do transporte e da logística, veem os seus custos aumentar, pressionando margens e competitividade.

Do outro lado, existem beneficiários. Um deles pode ser o Estado, já que o IVA incide sobre o preço de venda, embora o resultado fiscal líquido dependa das medidas de compensação adotadas.

Outro beneficiário, menos compreendido pela opinião pública, é a indústria de refinação. Uma refinaria compra petróleo bruto, ou crude, e transforma-o em produtos comercializáveis, como gasolina, gasóleo e combustível de aviação. Poderíamos pensar que o preço desses produtos resulta simplesmente do custo da matéria-prima acrescido dos custos industriais e de uma margem de lucro. Mas não é assim que funciona.

Os produtos petrolíferos são transacionados em mercados internacionais, com preços de referência que refletem a oferta e a procura globais. Estes preços são acompanhados e divulgados por entidades especializadas, conhecidas como Price Reporting Agencies. Consequentemente, uma refinaria não determina o preço de venda a partir da sua estrutura particular de custos. Vende os seus produtos tomando como referência as cotações internacionais.

É aqui que surge um conceito fundamental: o crack spread. O crack spread representa, de forma simplificada, a diferença entre o preço de mercado de um produto refinado e o preço do petróleo bruto utilizado na sua produção, expressos em unidades comparáveis, habitualmente dólares por barril.

É um indicador da margem bruta de refinação, antes de vários custos operacionais e financeiros.

Quando o preço dos combustíveis sobe mais rapidamente do que o preço do crude, esta margem aumenta. E quando acontece o contrário, diminui, podendo mesmo tornar-se negativa. Os números recentes são elucidativos. A TotalEnergies reportou, para as suas refinarias europeias, um indicador de margem de refinação de 33 dólares por barril no terceiro trimestre de 2026, comparativamente com 3,9 dólares no primeiro trimestre de 2025. São variações próprias de uma atividade em si altamente volátil, que ajudam a explicar por que razão as refinarias podem beneficiar em períodos de grande tensão nos mercados energéticos.

Mas há um aspeto importante: estas margens são cíclicas. A mesma indústria que hoje apresenta resultados favoráveis conheceu períodos prolongados de rentabilidade reduzida, que conduziram ao encerramento de numerosas instalações.

Porque não vende Sines combustíveis mais baratos aos portugueses?

É uma pergunta legítima. Se a refinaria de Sines transforma petróleo adquirido em regiões não diretamente afetadas pela crise no estreito de Ormuz, por que razão não pode vender gasolina e gasóleo mais baratos em Portugal?

Porque os mercados internacionais não funcionam segundo a origem específica da matéria-prima utilizada por cada produtor. Imagine-se que Sines começava a disponibilizar gasóleo significativamente abaixo das cotações internacionais. Rapidamente surgiriam compradores interessados em aproveitar essa diferença. Num mercado aberto, o preço tenderia a aproximar-se novamente do valor internacional.

A origem do crude influencia os custos e os riscos de abastecimento, mas não isola os produtos finais das condições do mercado global. Esta é uma lição importante também para outros setores: o custo de produção de uma empresa e o preço de mercado dos seus produtos são realidades distintas.

O maior risco poderá ainda estar para chegar

Até agora, a crise associada ao bloqueio do estreito de Ormuz tem-se manifestado sobretudo através dos preços. Mas há um cenário potencialmente mais preocupante: a escassez física de petróleo e combustíveis. As reservas de crude e de produtos refinados têm funcionado como amortecedores, permitindo compensar parcialmente as perturbações no abastecimento. Contudo, essas reservas são finitas.Se a interrupção dos fluxos do Médio Oriente persistir, países asiáticos fortemente dependentes dessas importações terão de procurar abastecimento noutras regiões. Passarão, assim, a competir mais intensamente pelo petróleo que hoje abastece as refinarias europeias.

Nesse cenário, a questão deixará de ser apenas quanto custa o petróleo. Passará também a ser onde encontrar petróleo disponível.

Para as empresas, esta distinção é decisiva. O risco de preço pode, em determinadas condições, ser gerido através de contratos e instrumentos financeiros. O risco de indisponibilidade física exige respostas diferentes: diversificação de fornecedores, reservas operacionais e planos de continuidade de negócio.

A grande contradição europeia

A Europa tem realizado progressos significativos na transição energética. A descarbonização da sua produção de eletricidade é um exemplo disso. Mas o problema estrutural mantém-se. Em 2025, petróleo, gás natural e carvão ainda representavam cerca de 74% das fontes de energia primária usadas na Europa, contra aproximadamente 97% há cinquenta anos. O progresso é inegável. A dependência continua, porém, muito elevada.

Entretanto, desde 2009, encerraram 35 refinarias na Europa, reduzindo a capacidade industrial de transformar petróleo em combustíveis essenciais à economia. Alguns encerramentos tiveram uma justificação económica evidente. Outros refletem um contexto de desinvestimento associado à expectativa de uma redução acelerada da procura de produtos petrolíferos.

Surge assim uma contradição: a Europa procura afastar-se dos combustíveis fósseis, mas continua a precisar deles em grande escala, enquanto reduz parte da sua capacidade de produção e transformação. A transição energética não se concretiza simplesmente porque se decide diminuir a oferta. Concretiza-se quando consumidores e empresas dispõem de alternativas competitivas, acessíveis e operacionalmente viáveis.

Em conclusão

A segurança de abastecimento é tão importante como o preço. As empresas devem avaliar não apenas a exposição à volatilidade dos custos energéticos, mas também a sua vulnerabilidade a interrupções físicas nas cadeias de fornecimento.

A transição energética deve acompanhar a transformação real da procura. Reduzir antecipadamente a capacidade produtiva, sem garantir alternativas suficientes, pode criar dependências externas e fragilidades económicas adicionais.

A estratégia energética exige pragmatismo e visão de longo prazo. Descarbonização, competitividade e segurança de abastecimento não são objetivos alternativos. São dimensões interdependentes de uma mesma estratégia.

A Europa não deve abrandar a transição energética. Deve, isso sim, assegurar que a velocidade de transformação do seu sistema produtivo é compatível com a evolução da procura e com a disponibilidade efetiva de alternativas. Porque os combustíveis fósseis não desaparecerão por decreto. Deixarão de ser necessários quando as empresas e os consumidores puderem, efetivamente, deixar de os comprar.

Insights Relacionados

fachada aese

Há +45 anos a preparar líderes. Chegou a sua vez?

A AESE dedica-se à formação específica em direção e administração de empresas, com uma perspetiva cristã do homem e da sociedade. Comece agora.