A transição energética vive hoje uma nova fase. Depois do forte crescimento das energias renováveis, o desafio passa agora por garantir um sistema energético que responda, simultaneamente, aos objetivos de competitividade, segurança e soberania energética e sustentabilidade, os três vértices do chamado trilema energético.
Foi esta a principal mensagem deixada por Vítor Santos, Professor Catedrático de Economia do ISEG e Presidente do Conselho de Administração da ERSE de 2007 a 2017, no encontro promovido pela AESE, a 27 de outubro de 2026
Neste encontro organizado para os Alumni do AMEG | Advanced Management in Energy e dos seus convidados, o orador convidado sublinhou que “nos próximos anos vamos estar mais concentrados na política energética” capaz de conciliar três objetivos. Na sua perspetiva, o próximo capítulo da transição será marcado pela passagem “da descarbonização da eletricidade à descarbonização do sistema elétrico”, através da “eletrificação dos usos finais”, um desafio que considera “muito difícil”. Como destacou, “a eletrificação não incide apenas na política climática, mas também no imperativo económico e estratégico”.
Apesar dos progressos alcançados na produção de eletricidade a partir de fontes renováveis, a Europa continua fortemente dependente do exterior em termos energéticos. Neste contexto, a eletrificação surge não apenas como um instrumento de descarbonização, mas também como um fator de competitividade económica e reforço da soberania energética. Ainda assim, Vítor Santos alertou que “descarbonizar a produção é mais simples do que descarbonizar o consumo final”. No caso português, identificou vários obstáculos à eletrificação que “são, muitas vezes, menos tecnológicos do que infraestruturais, económicos e regulatórios”, apontando diferentes medidas que poderão acelerar este processo.
Outro dos temas centrais da sessão foi a necessidade de aumentar a flexibilidade do sistema elétrico europeu. Para o especialista, “a insuficiente flexibilidade dos sistemas elétricos europeus” constitui um dos principais entraves ao cumprimento das metas definidas para 2030. O desafio, sublinhou, não passa apenas por instalar mais capacidade renovável, mas, sobretudo, por conseguir disponibilizar e gerir de forma mais eficiente a energia já produzida.
Neste contexto, o armazenamento assume uma importância crescente. Vítor Santos defendeu que o desenvolvimento desta área em Portugal exige maior ambição, enquadramento regulatório adequado e capacidade de resposta aos desafios existentes. Destacou, contudo, as vantagens competitivas do País, quer na área da bombagem hidroelétrica, quer nos investimentos mais recentes em soluções de armazenamento por baterias.
Apesar dos desafios identificados, a sessão terminou com uma nota de confiança. Através da apresentação de projetos-piloto inovadores e de exemplos concretos de transformação do setor, o convidado mostrou que existem motivos para otimismo quanto à construção de um sistema energético mais limpo, competitivo e resiliente, ainda que tal exija um esforço coordenado entre empresas, reguladores, decisores políticos e consumidores.
Realizado na véspera do arranque da 10.ª edição do AMEG | Advanced Management in Energy, este encontro voltou a evidenciar a relevância e atualidade de um programa que se tem afirmado como uma referência para os profissionais do setor da energia, promovendo a reflexão estratégica sobre os grandes desafios da transição energética em Portugal e na Europa.