“Para que vou ser útil no futuro?” Numa sociedade em que a esperança de vida aumenta e as carreiras profissionais se prolongam cada vez mais, o desafio já não consiste apenas em trabalhar mais anos, mas sim em encontrar novas formas de contribuir com significado e impacto.
Para Manuel Alonso Puig, Professor do IESE Business School, a experiência acumulada ao longo de décadas de atividade pode constituir uma poderosa fonte de criação de valor, desde que seja acompanhada por um processo consciente de transformação e reinvenção pessoal. Estas foram algumas das ideias partilhadas numa entrevista concedida à AESE Business School, a 28 de outubro de 2026, a propósito da sua participação como orador no evento “Talento Experiente em Ação: Longevidade, Reinvenção e Interim Management”.
Qual é o principal desafio que os profissionais experientes enfrentam atualmente?
MAP: “O grande desafio é responder a uma pergunta essencial: “Para que vou ser útil no futuro?” Muitas pessoas conseguem explicar bem o que alcançaram ao longo da sua vida profissional, mas têm mais dificuldade em identificar de que forma podem continuar a criar valor nos próximos anos.
Pensar que vamos valer amanhã exatamente o mesmo que valíamos ontem é um erro. As circunstâncias mudam, as organizações evoluem e nós próprios temos de descobrir novas formas de contribuir.”
Como pode uma pessoa identificar essa nova proposta de valor?
MAP: “É necessário realizar um exercício profundo de autoconhecimento. Em primeiro lugar, compreender quais foram os comportamentos e as competências que estiveram na origem dos sucessos alcançados. Depois, identificar os ativos acumulados ao longo da vida, desde o capital intelectual às relações construídas e à experiência adquirida.
Também é importante analisar os valores, as crenças e aquilo que dá sentido à nossa vida. Só a partir dessa reflexão é possível construir uma proposta de valor relevante para o futuro.”
Porque é que esta reflexão se tornou particularmente relevante nos dias de hoje?
MAP: “Porque vivemos mais tempo e permanecemos ativos durante mais anos. Quem hoje tem 55 ou 60 anos enfrenta uma realidade muito diferente daquela que existia nas gerações anteriores. Estamos perante várias décadas adicionais de vida ativa e isso exige uma nova abordagem ao desenvolvimento profissional.
Já não basta pensar na reforma como fim da carreira. É necessário desenhar um novo ciclo de contribuição e impacto.”
Este é um processo que pode ser feito individualmente?
MAP: “A minha experiência diz-me que não. Quanto maior é a responsabilidade que uma pessoa teve ao longo da sua carreira, maior é a necessidade de apoio externo.
Todos temos pontos cegos. Precisamos de feedback, de mentoria, de processos estruturados de avaliação e de alguém que nos ajude a identificar oportunidades que não conseguimos ver sozinhos.”
Foi essa necessidade que motivou a criação do programa Nuevos Horizontes Profesionales?
MAP: “Precisamente. O programa nasceu para apoiar profissionais entre os 55 e os 65 anos na descoberta da sua próxima proposta de valor.
O objetivo não é apenas ampliar conhecimentos, mas ajudar cada participante a compreender de que forma pode continuar a contribuir para as organizações e para a sociedade, colocando a sua experiência ao serviço de novos desafios.”
Que papel podem desempenhar as escolas de negócio neste contexto?
MAP: “As escolas de negócio têm um papel fundamental. Durante décadas ajudaram a formar líderes, gestores e empresários para alcançarem melhores resultados. Hoje enfrentam uma nova missão: ajudar esses mesmos profissionais a transformar-se.
Cada vez mais pessoas não necessitam apenas de adquirir conhecimentos adicionais. Precisam de uma verdadeira transformação que lhes permita construir uma proposta de valor superior para a próxima fase da sua vida profissional.”
A sociedade está preparada para encarar esta nova realidade?
MAP: “Ainda não totalmente. Uma das maiores dificuldades é convencer pessoas que tiveram carreiras de sucesso de que precisam de passar por um processo de transformação.
Muitos profissionais continuam a definir-se pelos resultados que alcançaram. No entanto, a verdadeira questão não é aquilo que fizeram no passado, mas aquilo que podem aportar no futuro.”
Qual é a principal mudança de mentalidade necessária?
MAP: “Temos de passar de ‘conquistadores de resultados’ para ‘criadores de valor’.
Durante uma parte significativa da carreira somos avaliados pelos objetivos que alcançamos. Numa fase mais avançada da vida, o desafio consiste em utilizar a experiência acumulada para gerar um impacto mais amplo, criando valor para as organizações, para as pessoas e para a sociedade.”
O que dá sentido a esta nova etapa da vida profissional?
MAP: “O que dá sentido à vida é participar numa atividade com propósito, transformadora e capaz de criar valor para os outros.
A longevidade não deve ser vista como um problema. Deve ser encarada como uma oportunidade para colocar a experiência, o conhecimento e a sabedoria ao serviço de causas, organizações e projetos que deixem uma marca positiva no mundo.”
Exigente e otimista é a visão do Prof. Manuel Alonso Puig: viver mais anos é uma oportunidade para continuar a crescer, aprender e criar valor. Numa fase da vida em que muitos olham para trás para medir o caminho percorrido, o professor convida a olhar em frente, para uma nova etapa de contribuição para as organizações e para a sociedade.
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