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Entre a estabilidade e a oportunidade: Miguel Morgado desafia Alta Direção a pensar o futuro do País

| 15 set 2026 | 5 min de leitura

15 set 2026 | 5 min de leitura

Perante uma audiência de mais de 50 diretores-gerais e administradores de empresas públicas e privadas, entre os quais vários Alumni do PADE | Programa de Alta Direção de Empresas, o politólogo e comentador político convidou a audiência a analisar os principais desafios estruturais que moldam o futuro do país. O debate, realizado a 15 de setembro de 2026, na AESE Business School, em Lisboa, foi marcado pela reflexão estratégica e pela análise das transformações económicas, demográficas e geopolíticas em curso.


Uma década de estabilidade incomum na Europa

Ao revisitar o período que se seguiu à crise financeira da Zona Euro, Miguel Morgado destacou que Portugal conseguiu evitar algumas das ruturas institucionais e políticas observadas noutras democracias europeias.

“Portugal conseguiu escapar a experiências traumáticas que marcaram outros países europeus”, revelando um grau de maturidade política e institucional digno de marca. O orador destacou a capacidade do sistema político nacional para resistir, durante vários anos, à fragmentação partidária que afetou países como Itália, França ou Grécia, permitindo a conclusão de legislaturas e a formação de maiorias governativas estáveis.

Ainda assim, alertou que os sinais de fragmentação surgidos mais recentemente já produzem efeitos visíveis no debate político e na capacidade de construir consensos duradouros.


Os motores do crescimento económico estão a perder força

Na análise da evolução económica recente, Miguel Morgado identificou três fatores decisivos para o crescimento registado na última década: o turismo, os fundos europeus e os fluxos migratórios.


O turismo foi apontado como um dos principais motores da economia portuguesa.

“Portugal deixou de ser um destino turístico barato e passou a atrair alguns dos turistas que mais gastam no mundo, fruto de uma estratégia particularmente bem-sucedida”, iniciada a partir de 2013.


Contudo, Miguel Morgado assinalou que o impacto positivo deste ciclo começa a mostrar sinais de abrandamento, quer pela limitação da capacidade instalada, quer pela alteração das circunstâncias geopolíticas que favoreceram o país, nos últimos anos.

Também os fundos europeus desempenharam um papel determinante no crescimento da economia. Porém, segundo o especialista, o impulso extraordinário associado aos programas de recuperação pós-pandemia está a diminuir, ao mesmo tempo que as novas orientações estratégicas da União Europeia poderão reduzir os benefícios para economias fortemente dependentes destes mecanismos de financiamento.

Relativamente à imigração, Miguel Morgado defendeu uma análise mais exigente dos seus efeitos económicos.

“Não é qualquer tipo de imigração que faz crescer de forma sustentável a economia de um país. O crescimento do PIB, por si só, não resolve os problemas estruturais nem garante convergência com os níveis de prosperidade europeus”, observou.

O convidado do Prof. Pedro Ferro, Diretor do PADE, alertou igualmente para a desaceleração dos fluxos migratórios observada nos últimos anos e para a contração do crescimento da produtividade registada em 2025, fatores que considera particularmente relevantes para a trajetória futura da economia portuguesa.

A vantagem estratégica que Portugal continua a subaproveitar

Apesar dos desafios identificados, Miguel Morgado assumiu uma perspetiva globalmente otimista sobre a posição de Portugal no contexto internacional.


“Portugal encontra-se numa posição geopolítica altamente privilegiada. Estamos no centro dos fluxos atlânticos, próximos da América do Norte, afastados dos principais focos de conflito e beneficiamos de uma atratividade que resulta da própria dinâmica da globalização”, sustentou.

Uma parte significativa da atual atratividade portuguesa resulta de circunstâncias favoráveis e não exclusivamente de opções estratégicas nacionais. Esta vantagem que, em larga medida, surgiu por acaso, deve ser aproveitadade forma mais proveitosa do que temos feito até agora”.

Segundo Miguel Morgado, o verdadeiro risco não reside na falta de oportunidades, mas na incapacidade de desenvolver políticas públicas consistentes que transformem essas vantagens conjunturais em crescimento sustentado e num problema de cognição do mundo geopolítico.


Pensar o país para além do ciclo político

Na reta final da intervenção, o convidado alertou para o impacto que a competição partidária pode ter na definição de estratégias nacionais de longo prazo.

“Muitas vezes, o jogo concorrencial entre partidos afasta-nos das questões essenciais e da construção de uma visão estratégica para o país”. Num contexto internacional marcado pela incerteza geopolítica, pelos desafios demográficos e pela reorganização das cadeias económicas globais, deixou uma mensagem de prudência aos líderes empresariais presentes. Os fatores que hoje favorecem Portugal não são permanentes. A estabilidade e as vantagens conjunturais não são eternas. O desafio é perceber se conseguiremos transformar esta oportunidade numa trajetória duradoura de prosperidade.”


Debate alargado sobre o futuro de Portugal

A sessão terminou com um período de debate particularmente participado, durante o qual os presentes colocaram questões relacionadas com a evolução do sistema político, os cenários de futuro para a economia portuguesa, o conceito de liberalismo defensivo e os desafios demográficos que o mundo enfrenta.

O encontro proporcionou assim um espaço privilegiado de reflexão para executivos e dirigentes, reforçando a missão do PADE | Programa de Alta Direção de Empresas de promover o diálogo entre líderes empresariais e personalidades de referência sobre os grandes temas que influenciam o futuro de Portugal e das organizações.

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