insight #145

É para amanhã, bem podias fazer hoje

02 Set 2026 | 3 min de leitura

Pedro Alvito AESEinsight 03fev
Pedro Alvito Professor de Política de Empresa

Gostava de me centrar aqui num aspeto do planeamento que influencia muito o funcionamento das empresas e não só. Quando se faz planeamento numa empresa (e deve-se fazer sempre) algo que nunca podemos esquecer são todas as coisas que sabemos que irão mudar no futuro e que sendo conhecidas agora devem ter implicações nas decisões que são por nós tomadas hoje. Parece de facto uma verdade de La Palisse dizer que devemo-nos preocupar hoje na solução do que sabemos que vai acontecer no futuro.

É característica dos políticos evitarem tomar hoje decisões sobre questões futuras mesmo sabendo que amanhã essas decisões vão ser cruciais, mas como diz o povo quem vier depois que se arranje. E por isso não temos aeroporto, alta velocidade ou reformas na segurança social para dar apenas três exemplos. É que quem é lembrado ao fim de dez anos não é quem tomou a decisão, mas sim quem inaugura a obra. Na política como nas empresas querem-se decisões que resultem em resultados rápidos e visíveis para que quem lá está agora possa brilhar. Com isso compromete-se o futuro de muitos a troco do sucesso presente de alguns. 

O célebre desenrascanço tão típico em Portugal é complementado pelo “muito urgente” porque simplesmente não foi tratado no devido tempo. Segundo Peter Drucker “Planeamento de longo prazo não lida com decisões futuras, mas com um futuro de decisões presentes.” Faz-me confusão que sabendo que todos os anos existe colocação de professores, exames nacionais, incêndios, falta de médicos no algarve que é muito mais grave durante o verão, não se faça nada antecipadamente. Mas é fácil queixarmo-nos dos políticos e esquecermos que nas nossas empresas precisamos de pessoal qualificado, mas nunca apostamos na formação e se o fazemos muitas vezes é de forma circunstancial pensando que uma vez basta, evitamos manutenção porque não dá resultados a curto prazo e depois vamos investindo sempre no novo porque o “velho” está a cair aos bocados, não delegamos porque isso leva tempo e preferimos fazê-lo nós, não apostamos na criação de valor porque o que importa é vender agora. Será preciso continuar? 

A urgência é muitas vezes, e apenas, o resultado da falta de produtividade nos momentos certos. Conheci alguém que não tirando férias em agosto aproveitava para disparar para tudo e todos com assuntos sempre “urgentes”, mas corriqueiros que por manifesta falta de planeamento não tinham sido tratados no momento certo. Citando Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord “Quando é urgente já é demasiado tarde” por isso importa dedicar tempo ao que é importante antes de que o que realmente importa se torne urgente.

Machado de Assis brincando com este assunto escreveu num dos seus sonetos:

“Ilustríssimo, caro e velho amigo,

Saberás que, por um motivo urgente,

Na quinta-feira, nove do corrente,

Preciso muito de falar contigo.”

É caso para dizer “é para amanhã, bem podias fazer hoje, porque amanhã pode ser tarde demais”.

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