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AESE insight #135 > Thinking ahead

Artigos

Maria de Fátima Carioca

Dean da AESE Business School e Professora de Fator Humano na Organização,

2026 – Lições de 250 Anos de História dos EUA

No início de 2026, um amigo dizia-me que “há anos em que o tempo parece pedir silêncio antes de ser pronunciado. 2026 é um desses anos.” E acrescentava “não porque tenha em si qualquer mistério extraordinário, mas porque se aproxima com a exigência de um começo verdadeiro”.

Referia-se ao adjetivo “verdadeiro”, no sentido de busca e conformação com a Verdade. De resto, nunca se trata de um verdadeiro começo, já que trazemos connosco a herança de muitas gerações, a sombra e a luz das épocas atravessadas. E ainda bem que assim é. O verdadeiro futuro só se alcança, olhando o passado e reconhecendo nele a nossa identidade mais profunda. O passado não é uma âncora que nos imobiliza; é a consciência que nos permite sabermos quem somos e uma referência que nos permite construir o futuro.

Entre as várias datas que 2026 nos oferece, uma ergue-se com particular relevância: os 250 anos da independência dos Estados Unidos da América. Há algo de épico nesta fundação. Um povo, pequeno e disperso, ousou declarar que a liberdade é um direito natural, que Deus vela sobre a dignidade do homem e que a justiça não nasce da força, mas da verdade que antecede o próprio Estado. O que ali se afirmou não foi apenas a autonomia política de um território. Foi a proclamação de uma nova possibilidade humana. E o país tornou-se potência, tornou-se exemplo, tornou-se medida comum de um mundo que se organizou, segundo o seu ritmo e as suas promessas. Durante mais de um século, a força americana não foi apenas militar ou económica: foi simbólica.

No entanto, todos sabemos o momento singular que hoje atravessamos. A mudança de época entrou no quotidiano e tornou-se comum. Já não habitamos a segurança das décadas anteriores. E, neste sentido, também os EUA têm algo a ensinar-nos. As suas grandezas foram grandes, porque se apoiaram na liberdade, na democracia, na energia criadora, na paz. Mas também os seus excessos se tornaram claros: o individualismo que enfraquece o bem-comum, o relativismo que dissolve a verdade, a prosperidade que não sacia, a fragmentação que empobrece a alma. Crescemos dentro deste modelo, mas também reconhecemos que ele já não basta.

Num contexto de incerteza, ante crises económicas, migratórias ou sociais, tendemos a procurar líderes que projetem segurança, mesmo que isso signifique renunciar a valores humanos e políticas humanizantes. Como Daniel Kahneman aponta, “as emoções dominam as nossas decisões em tempos de incerteza, eclipsando a razão.” E abrimos espaço, sobretudo na política, à emergência de líderes caracterizados por uma retórica agressiva e divisiva e estratégias autoritárias, independentemente da ideologia que preconizam. A persistência do populismo autoritário, em diferentes momentos da história e em diferentes latitudes, mostra que não se trata de um fenómeno exclusivo da esquerda ou direita, mas de uma dinâmica de poder que explora o descontentamento social e as quedas estruturais da democracia. Em ambos os casos, o denominador comum é a promessa de uma solução fácil para problemas complexos, com um líder carismático e desafiante.

Coincidentemente, ou talvez não, os EUA, mais uma vez invocando a liberdade, iniciaram o ano com uma operação militar que resultou na captura do Presidente Nicolás Maduro, removendo-o do poder e inaugurando uma nova fase política na Venezuela. Sobre este acontecimento, a análise é complexa. Por um lado, há o direito de não ingerência e salvaguarda da soberania de todos os países – nesse sentido, haveria uma motivação. Por outro lado, há, bem explícita na Carta das Nações Unidas, a pretensão de vivermos num mundo de igualdade de direitos entre todos os cidadãos e, nesse sentido, há uma motivação para que se deponham todos os líderes que, despoticamente, governam os povos, renegando-lhes direitos e condições de vida mínimas. Por um lado, muitos venezuelanos viram renascer a esperança e estão, compreensivelmente, entusiasmados e confiantes. Mas, por outro lado, existe o risco muito real de que a intervenção unilateral de Trump na Venezuela incentive ações semelhantes noutras geografias.

2026 pode assim ser um momento verdadeiramente definidor. E é aqui que a lição dos 250 anos dos EUA se torna, de novo, relevante. O futuro não se constrói contra o passado, mas também não se sustém apenas nele. Uma época só ultrapassa outra quando recupera o seu princípio vital. No caso dos EUA – e da Europa também -, esse princípio foi sempre a consciência de que a liberdade precisa de transcendência (para muitos, Deus) para não se perder em si mesma. Se queremos que 2026 seja um verdadeiro início, devemos aprender com a História. A liberdade deve ser reencontrada como responsabilidade, a democracia como bem comum, a prosperidade como consequência e não como fim. Acima de tudo, devemos reencontrar a ideia simples e antiga: a de que nenhuma civilização permanece sem reconhecer aquilo que a transcende, de algo que a preceda e a ultrapassa, que lhe dá sentido e impulsiona a sua própria renovação.

No fundo, talvez o problema não seja apenas o tipo de líderes que escolhemos, mas porque continuamos a acreditar que a liderança é um fenómeno individual e não um processo coletivo, uma responsabilidade de todos. Um líder autoritário prospera quando a sociedade abdica da sua voz, em troca de uma suposta segurança. Tal não acontece numa sociedade que assume a sua própria responsabilidade na construção do futuro. E essa responsabilidade está em jogo em cada escolha que cada um de nós faz, diariamente. Na grandeza das nossas decisões, mesmo que muitas vezes pequenas, se encontra a verdade sobre que mundo queremos mesmo construir.

O ano está no ainda no início. Temos 352 dias nas mãos para moldar o mundo, o nosso mundo e aquele que queremos deixar como legado! Mãos à obra!



Artigo publicado no Jornal de Negócios

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