20/01/2026

A AESE Business School promoveu, no passado dia 20 de janeiro, em Lisboa, a Grande Conferência sobre Hospitalização Domiciliária, reunindo especialistas de referência nacional e internacional para refletir sobre um dos temas mais prementes da atualidade na área da saúde: a prestação de cuidados de excelência fora do contexto tradicional do internamento hospitalar.
Num momento em que a experiência do doente está a sofrer uma transformação profunda, com a crescente transferência de cuidados para o domicílio, a conferência partiu do princípio de que é possível assegurar qualidade, segurança e conforto, mantendo elevados padrões clínicos. Especialistas de diferentes áreas reuniram-se à mesma mesa para debater os desafios críticos, as oportunidades estratégicas e os fatores de sucesso necessários para repensar o sistema de saúde, colocando o doente no centro.
A mudança vai além da tecnologia
O tema das “Condições para a mudança” foi desenvolvido por Micaela Seemann, da CUF, que destacou a importância da transformação digital como meio — e não como fim. Na sua perspetiva, a simples implementação de tecnologia não equivale a transformação: esta só ocorre quando existe um propósito claro de melhoria sustentável do serviço, com maior eficiência e uma utilização mais racional dos recursos.
O sucesso destes projetos depende, sublinhou, do alinhamento entre todos os intervenientes, conjugando tecnologia, conhecimento e investimento financeiro. Exemplos concretos incluem a centralização do follow-up dos doentes por equipas especializadas de enfermagem, recorrendo a chatbots, ou a prestação de cuidados de saúde à distância, reduzindo tempos de espera e melhorando a experiência do utente. “A tecnologia ajuda-nos a encontrar soluções”, concluiu.
João Marques Gomes, da ULS Cova da Beira, apresentou o caso de sucesso “Hospital sem Paredes”, desenvolvido em parceria com o Hospital Universitário Infanta Leonor, em Madrid. A aposta na diversificação das portas de entrada dos doentes em situação de doença aguda, aliada à tecnologia, permitiu agilizar a triagem e reduzir tempos de espera. O orador destacou ainda a importância do conceito de Value-Based Health Care, alertando para a necessidade de medir resultados através de indicadores de desempenho. A monitorização contínua, referiu, é essencial para uma melhor tomada de decisão, lembrando que um aumento da despesa nem sempre se traduz numa melhoria da qualidade dos cuidados.
A Presidente da PAFIC – Portuguese Association for Integrated Care, Adelaide Belo, centrou a sua intervenção no papel determinante das lideranças intermédias. A identificação de líderes capazes de criar pontes, inspirar confiança e desenvolver as suas equipas é crítica para o sucesso da operacionalização dos projetos. Os incentivos, reforçou, devem estar alinhados com os objetivos estratégicos das instituições.
“Saúde em casa”: uma resposta com futuro
A mesa-redonda dedicada ao tema “Saúde em casa”, moderada pela Professora Cátia Sá Guerreiro, da AESE, reuniu vários protagonistas da hospitalização domiciliária.
Pedro Gameiro, Coordenador Nacional de Hospitalização Domiciliária, alertou para as assimetrias ainda existentes no território nacional, defendendo a expansão deste modelo a todo o país. Para tal, sublinhou a importância da inovação e da fixação de profissionais de saúde, bem como do investimento na formação das equipas clínicas para a correta codificação e registo de dados. “Só com bons dados se podem tomar boas decisões”, afirmou.
António Oliveira e Silva, da ULS São João, apresentou os resultados da atividade do serviço de hospitalização domiciliária do Hospital de São João, avançando com uma proposta concreta para a implementação de uma unidade dedicada, tendo em conta a experiência acumulada e as expectativas dos doentes, tanto no internamento clássico como nos cuidados em casa.
Carlos Bibiano, do Hospital Universitário Infanta Leonor, reforçou que o projeto “Hospital sem Paredes” vai muito além da digitalização de consultas. Implica a existência de tecnologia no domicílio do paciente e um plano de acompanhamento personalizado e digitalizado. A sua intervenção foi sustentada por um estudo realizado em Espanha sobre os níveis de literacia e adoção tecnológica necessários para uma hospitalização domiciliária eficaz.
Um tema na agenda social e política
O encerramento da conferência esteve a cargo de Francisco Rocha Gonçalves, Secretário de Estado da Gestão da Saúde, que agradeceu à AESE a iniciativa e destacou a relevância do tema. A transformação digital, lembrou, é uma prioridade estratégica do Governo, refletida no Registo de Saúde Eletrónico Único.
O governante sublinhou ainda que a hospitalização domiciliária só faz sentido se assentar em valores fundamentais como a dignidade da pessoa, a compaixão ativa, a solidariedade e o sentido de serviço.
No final, ficou clara a mensagem: a Hospitalização Domiciliária representa um passo decisivo para que o Serviço Nacional de Saúde possa tratar mais e melhor os cidadãos portugueses, respondendo de forma inovadora, eficiente e humanizada aos desafios do futuro.

