Quando “ver com outros olhos” deixa(r) de ser metáfora
Dezembro de 2025, aeroporto de Heathrow. Enquanto aguardava pela hora de embarque o olhar ficou preso numa loja de óculos onde se anunciava ‘uma novidade’, tão discreta quanto perturbadora: óculos com inteligência artificial incorporada, disponíveis em alguns mercados. À primeira vista é apenas um acessório elegante, mas depois de os experimentar percebe-se que há ali ‘camuflado’ mais do que design: câmara, microfones, áudio e um assistente virtual capaz de ler o contexto… captar momentos sem tirar o telemóvel do bolso, responder a perguntas sobre o que está à frente e até apoiar tradução de idiomas em determinados cenários. A sensação “uau(!)” foi imediata: parecia um daqueles ‘artefactos 007’ cujo upgrade facilmente se imagina no próximo filme com estreia prevista para 2027. O teste rápido, porém, trouxe uma conclusão inesperada: aqueles óculos, aparentemente inofensivos, tinham algo de desleal, talvez até pouco ético, por tão subtilmente adicionarem ‘capacidades’ ao seu utilizador. Eis-nos assim perante a inversão do paradigma – qual é, afinal, o objeto: os óculos ou quem os usa?
A decisão de compra foi lenta, mas fácil: não avançar. Lembrei-me nesse momento das palavras que ouvira recentemente de um amigo, a propósito de um dilema ético: “podes [comprar] porque deves ou deves [comprar] porque podes?”. No ar ficou uma pergunta incómoda e inquietante, porém reveladora: “como seria uma discussão em sala de aula se todos, menos o professor, tivessem aqueles óculos?”. A tecnologia avança, mas o paradigma deve prevalecer inalterado: ‘pensar real’ e adquirir eficiência com aquilo que me atrevo a designar de ‘pensamento postiço’ (ou “inteligência” emprestada), muito útil como auxiliar, perigoso como substituto… se algum dia fosse substituto, algo de fundamental para a humanidade estaria a falhar profundamente.
O Método do Caso ao vivo: na AESE, claro!
Quando aos 30 anos frequentei o XIII PDE (Programa de Direção de Empresas) na AESE Business School tive a primeira confirmação prática da força do Método do Caso, colocando pensamento crítico e decisão ética no centro da aprendizagem. O espanto surgiu na sala de aula: perguntas bem formuladas e colocadas no tempo certo torna(va)m visíveis pressupostos, obriga(va)m a fazer escolhas e desloca(va)m o foco no “que parece bem” para “o que se decide e porquê”. A preparação dos casos era, e continua a ser, uma tarefa decisiva para estimular o pensamento, potenciar a aprendizagem e inovar com humanismo. O método é indubitavelmente uma abordagem ímpar no ensino da gestão porquanto protege e potencia aquilo que dificilmente se aprende em abordagens teóricas: julgamento com sentido de responsabilidade e ética, capacidade de sustentar decisões sob contraditório e enriquecer a partilha de pontos de vista.
Naquele tempo, a internet estava longe do conceito hoje indelével de “[estar] sempre ligado” e a inteligência artificial (1) era apenas conceito de ficção científica. Imagino-me se estivesse hoje no mesmo contexto de aprendizagem, sabendo que existe um “atalho” quase irresistível à distância de um pequeno prompt: pedir a um modelo de IA que me ajudasse a preparar o(s) caso(s), disponibilizando-me um bom resumo e sugerindo alternativas estratégicas, riscos e uma recomendação final. Mesmo sabendo hoje que o resultado desses outuputs seria provavelmente competente, aportando apetecível vantagem competitiva, estou certo de que rapidamente me teria apercebido da importância de separar as funções ‘apoio’ vs. ‘substituição’. Na realidade, quando surgem ambiguidades, restrições inesperadas, conflitos entre objetivos e riscos de enviesamento, o pensamento “emprestado” tende a falhar onde mais importa: na consistência sob pressão e na apropriação da decisão. E é precisamente aí que o Método do Caso reafirma toda a sua força como abordagem pedagógica ímpar e estimulante, sugerindo uma abordagem desafiante: proporcionar experiências onde a decisão não é apenas analisada, mas vivida na primeira pessoa, com consequências práticas e aprendizagem incorporada na dinâmica do grupo.
BIGAMES®: transportar o conceito do caso para uma realidade vivida
É nesse contexto que se posiciona a marca BIGAMES® – Business Interactive GAMES: um portfólio de serious games integrados em simuladores de gestão que incorpora o conceito do Método do Caso e transporta os participantes para um cenário onde cada Case Study acontece em tempo real e são, eles próprios, as personagens vivas da ação. A informação chega por etapas, o tempo corre, os recursos são finitos e as escolhas deixam marca em indicadores. O “Caso” não está completamente escrito à partida, é uma coprodução durante a simulação, através das decisões, do debate, da coordenação e da forma como cada equipa lida com a incerteza. A palavra “Interactive” traduz a essência, o coração da gestão, o fator-chave que mantém as organizações vivas e as faz evoluir: comunicação e partilha, conflito e negociação, confiança e cooperação, liderança (e) ética.
A tecnologia pode acelerar tarefas, ampliar visibilidade e apoiar análises de causalidade, mas não dispensa o fator humano – apenas torna mais evidente o que já era verdade: as decisões continuam a ser tomadas por pessoas, e o desempenho continua(rá) a depender da qualidade das relações, do alinhamento e da forma como se coordena ação em contextos de tensão. E é precisamente por isso que, mesmo num mundo repleto de respostas automáticas ao estilo take-away, a aprendizagem que permanece é a que treina o essencial: pensar e decidir com pessoas, e não apesar delas.
Flexibilidade e costumização: um simulador adaptável às necessidades
Considero que um simulador de gestão não deve ser rígido e por isso os BIGAMES® foram concebidos com flexibilidade e capacidade de costumização: cenários, papéis, regras, níveis de pressão, variáveis críticas e indicadores ajustam-se para traduzirem realidades muito diferentes e públicos diversos. Essa adaptabilidade permitiu até hoje trabalhar contextos tão distintos como restauração, serviços de segurança, retalho e aluguer de equipamentos, consultoria avançada, tecnologias de informação e prestação de cuidados saúde. Neste simulador, o ‘corpo’ muda para refletir o setor, mas a ‘alma’ mantém-se: ponderar sob stress, medir consequências e decidir em consciência, aprender em equipa. Até hoje cerca de 700 profissionais de largas dezenas de instituições, de gestão pública e privada, experienciaram os BIGAMES©, confirmando com o seu testemunho a eficácia do método em ambientes organizacionais muito diferentes e desafiantes.
Digital: maior eficiência estimula o pensamento e potencia a criatividade
Quando bem desenhada, a tecnologia digital não serve apenas para ‘fazer mais depressa’, serve para libertar tempo e atenção para o que é mais importante: redesenhar processos, antecipar riscos e, sobretudo, investir na gestão das pessoas. Nos BIGAMES®, a tecnologia digital incorporada em contexto de simulação contribui para agilizar operações, incrementar a transparência de processos e fluxos, apoiar a decisão suportada em dados, e atuar sobre constrangimentos identificados (os famosos “gargalos”) em prol da melhoria de resultados. A tecnologia não substitui liderança, mas contribui para maior assertividade e eficácia na ação. Na AESE, esta lógica tem forte expressão na área da saúde: o simulador de um Serviço de Urgência Hospitalar (BIGAMES© SU) é utilizado no PADIS – Programa de Alta Direção de Instituições de Saúde, permitindo vivenciar, em contexto de emergência, o que se exige da gestão em ambientes especialmente exigentes e tensos: coordenação de recursos escassos, otimização de processos, satisfação simultânea de múltiplos stakeholders, qualidade de serviço, liderança e comunicação eficaz em contexto competitivo.
A incorporação de Inteligência Artificial (IA) nos BIGAMES® foi pensada para reforçar pensamento humano, não para o substituir. Ao integrar IA em contexto de simulação é possível monitorizar padrões de comportamento (comunicação, coordenação, estilos de liderança, reação ao stress, consistência decisória) e devolver inputs objetivos e muito úteis para melhoria, durante e após a simulação. IRIA ou VOU? O trocadilho resume a intenção: quem entra num BIGAME© “percebe porque lhe disseram que não IRIA [I(nteligência) R(eal) (2) interagindo com I(nteligência) A(rtificial)] apenas jogar”… sente que “VAI [V(er), A(nalisar) e I(nterpretar) uma realidade dinâmica] estimular o pensamento crítico em contexto de pressão controlada”. O Cardeal Tolentino Mendonça afirmou, no seu mais recente livro: “Falta-nos uma nova gramática que concilie os termos que a nossa cultura tem por inconciliáveis: razão e sensibilidade, eficácia e afetos, individualidade e compromisso social, gestão e compaixão.” [in ‘Para os caminhantes tudo é caminho’, nov.2025]. Gostaria de pensar que os BIGAMES© podem dar um pequeno contributo nesse sentido.
Dimensão espiritual: desenvolver a pessoa pela partilha com o outro
Há ainda uma dimensão que não cabe apenas em KPI ou indicadores complementares: os BIGAMES® pretendem proporcionar um espaço de partilha contínua com o Outro. Escutar sem defender posição por reflexo, reformular para melhor compreender, reconhecer limites, pedir ajuda, dar feedback, escolher respeitando o outro e a pensar no bem comum. Num tempo em que ferramentas podem sugerir respostas rápidas, tantas vezes irrefletidas, torna-se ainda mais importante formar pessoas capazes de decidir com critérios, ética e humanismo. Num mundo em que o tal “pensamento postiço” se tornou prática habitual, tendencialmente banal, o fator humano diferenciador reside no pensamento crítico, na responsabilidade ética não delegável e na capacidade inalienável de decidir com (e para) pessoas. É isso que torna cada simulação diferente e faz com que, em cada edição dos BIGAMES©, o “Caso” seja sempre novo: porque é escrito por quem participa e vive espontaneamente cada momento, que interpreta a realidade com os seus sentidos inatos e aprende a “ver com outros olhos”.
No dia em que os óculos interpretarem por nós, quem terá a coragem de ler em silêncio, quem terá a capacidade de ver luz na escuridão?
(1) Conceito assim batizado por John McCarthy em 1955, antes do seminário de Dartmouth de 1956 – recomendo a leitura do livro de ficção “The Last Question”, publicado em 1956, onde um supercomputador inteligente (Multivac) surge na obra do autor russo-americano Isaac Asimov.
(2) Utilizo o termo “Real” como sinónimo de “Natural”, em oposição ao termo “Artificial” que no contexto podemos conotar com “Virtual”.
Nota Editorial:
Prémios e distinções: uma trajetória consistente
No reconhecimento internacional dos BIGAMES® – powered by Bigadvantage, destacam-se várias distinções: “Best Paper Award”, com o trabalho desenvolvido sobre o simulador SU apresentado na “Internacional Conference on Organisation and Management” (Abu Dhabi, 2019); distinções subsequentes atribuídas por “World Academy of Science, Engineering and Technology” em Lisboa (2020), Toronto (2021), Roma (2022) e Houston (2024), reforçando continuidade e validação internacional destes simuladores de gestão; mais recentemente, no Reino Unido, o prémio “Experiential Learning Provider of the Year” nos Global Awards 2025/26 atribuídos pela CorporateLiveWire. O Simulador SU foi também apresentado na QS Reimagine Education Awards & Conference 2025 (Londres, dezembro de 2025), merecendo destaque na categoria “Innovation in Business Education” pela combinação de simulação imersiva, indicadores de natureza operacional e comportamental, e incorporação de inteligência artificial.
Estaremos prontos?
Maria de Fátima Carioca
Dean da AESE Business School e Professora de Fator Humano na Organização,
Mudança constante e rápida
Teresa Ayres Pereira
Diretora do PADEM | Programa Avançado em Direção de Empresas de Moda e Coach da AESE Business School






