AESE insight #67 > Thinking ahead

Aconteceu por estes dias | Responsabilidade Social e voluntariado de competências

Cátia Sá Guerreiro

Professora de Fator Humano na Organização, Diretora Programa de Gestão das Organizações Sociais (GOS) e do OSA – Liderança no Feminino

Muito se fala de Responsabilidade Social, enquadrada no grande tema da Sustentabilidade, matérias que emergem como essenciais nas organizações, sendo sinal e marca de atualidade, inovação e integração no mundo global. Não existe uma definição universal para Responsabilidade Social. Os primeiros estudos que tratam o tema foram elaborados nos Estados Unidos, na década de 50, e na Europa, nos anos 60. Sem nos determos em conceitos, considerações históricas ou análises paradigmáticas dos mesmos, vamos assumir a definição da Comissão Europeia, no seu Livro Verde (2001), segundo a qual a essência da responsabilidade social é “a integração voluntária de preocupações sociais e ambientais por parte das empresas nas suas operações e na sua interação com outras partes interessadas.”

Em 2002, a mesma entidade clarificou que não obstante “a ampla gama de abordagens da Responsabilidade Social, as suas principais características reúnem consenso generalizado”. Vale a pena rever quais são esses elementos de consenso num conceito nem sempre consensual. Diz a Comissão Europeia que por Responsabilidade Social entende-se um comportamento adotado pelas empresas, de forma voluntária e para além de prescrições legais, porque consideram ser do seu interesse a longo prazo. Esta está estreitamente associada ao conceito de desenvolvimento sustentável: as empresas deverão integrar nas suas operações o impacto económico, social e ambiental. Assim sendo, segundo esta entidade, a Responsabilidade Social não é um “acrescento” opcional às atividades nucleares de uma empresa, mas sim à forma como esta é gerida.

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), a adoção de uma cultura organizacional que promova a Responsabilidade Social oferece claros benefícios a uma organização, tais como atração e manutenção do capital humano qualificado na organização, promovendo simultaneamente a motivação dos mesmos e o aumento da sua produtividade; a atração e retenção de clientes, parceiros, fornecedores e investidores que queiram colaborar com a causa social; a resiliência para a gestão de riscos e cenários de crise; a geração de diferencial competitivo na organização; a promoção de uma imagem mais positiva da organização; a redução de eventuais cenários de escassez de recursos naturais, com impactos positivos quer na cadeia de fornecimento, quer na própria organização; a promoção de impactos positivos na sociedade e criação de oportunidades para as pessoas impactadas com as ações da organização.

Decorre na AESE um programa de formação dirigido a consultores da PwC, o LEAP. Trata-se de uma oferta formativa desenhada à medida, de longa duração, que permitirá a estes consultores uma aposta na sua formação com recurso a módulos temáticos que vão ocorrendo espaçados no tempo. Não sei ao certo o que motivou a PwC a enveredar pelo projeto InSocialConsulting, o qual constituiu um dos referidos módulos. Ouso dizer que poderá ter sido o foco na anteriormente referida, cito, atração e manutenção do capital humano qualificado na organização, promovendo simultaneamente a motivação dos mesmos e o aumento da sua produtividade. Se foi este o foco, valerá a pena avaliar o impacto do projeto a estes níveis.

Mais que um módulo de formação, uma experiência piloto

O projeto InSocialConsulting foi uma iniciativa de apoio a entidades do setor de economia social em matérias de gestão, com base em voluntariado de competências.

Recorrendo à intervenção de equipas de consultores, participantes no programa LEAP, em áreas de gestão identificadas como sendo de carência por parte de entidades do setor de economia social, previu-se um improvement no desempenho da entidade beneficiária, resultando na prestação de um cada vez melhor serviço prestado à comunidade.

Numa perspetiva de contextualização, recorda-se que o setor de economia social responde ao repto da promoção da dignidade humana atuando em muitas frentes e de variadas formas. Criadas sem fins lucrativos, com o intuito de produzir serviços que respondam a necessidades reais, as organizações que integram este setor, têm a particularidade de, baseadas na parceria entre pessoas com interesses comuns e recorrendo a intervenções de tipo participativo, priorizar as contribuições pessoais profissionais, sejam voluntárias ou remuneradas, sobre o lucro. A sustentabilidade das instituições deste setor é um tema de agenda em todo o mundo, reconhecendo-se a sua importância, tanto ao nível da assistência e serviços que prestam como pelo seu impacto na economia dos países e global. A gestão deste setor da economia tem vindo a sofrer francas alterações ao longo dos últimos anos. Se já lá ia o tempo em que bastava o bom senso e a convicção do desejo de bem-fazer, hoje gerir entidades de economia social reveste-se de amplos desafios na resposta às necessidades sentidas. Do diálogo intersectorial à captação de investimento, da gestão de recursos humanos à satisfação dos colaboradores e beneficiários, da resiliência a novos modelos de gestão, caminhos que os líderes destas entidades tentam percorrer com ânimo e determinação. O Programa de Gestão de Organizações Sociais (GOS), ministrado pela AESE de há 13 anos a esta parte, tem procurado responder ao desejo de bem-querer servir uma entidade social, proporcionando aos seus líderes momentos de paragem, reflexão, debate, planeamento e avaliação, numa ótica de gestão com inovação, qualidade e impacto. Temos assim, na AESE, uma comunidade Alumni deste setor composta por não menos de 400 instituições.

Voltando ao InSocialConsulting, os agentes do projeto foram então equipas de consultores, usufruindo de uma bolsa de horas de voluntariado de 40h, que procuraram responder a necessidades de gestão de entidades de economia social. Os beneficiários desta iniciativa foram entidades antigas alunas do Programa GOS.

Foram analisadas as áreas de competência dos consultores, agrupando-os em 6 equipas de acordo com as mesmas. As entidades antigas alunos GOS puderam candidatar-se, em processo próprio para o efeito, solicitando apoio em matérias de gestão. Procedeu-se à seleção das entidades a apoiar. Foram consideradas para apoio 6 candidaturas, 2 em apoio em gestão financeira e contabilidade, 1 em apoio em gestão de recursos humanos, 1 em transformação digital, 1 em desenho de plano de angariação de fundos, e 1 em desenho de plano de negócio.

Em novembro de 2021 tive o gosto de apresentar o projeto em sala de aula. Em Janeiro de 2022 colocamos frente a frente os consultores e as organizações com quem iriam trabalhar.

Não esqueço os rostos, ou melhor os olhares pois os rostos estavam praticamente tapados com mascaras. Não esqueço o silêncio. Imagino o que passava na cabeça dos consultores… com tanto para fazer, que haviam de inventar! Voluntariado de competências como módulo de formação, em meses que prometiam excesso de trabalho.

E o tempo começou a contar. Tinham 40h por pessoa para utilizar e os resultados deveriam ser apresentados a 17 de maio. Envolvendo partners da PwC, um facilitador e um coordenador AESE, ficou lançado o projeto.

A data esperada para o reencontro em sala de aula chegou rapidamente (é incrível como os dias deste ano têm corrido sem deixar rasto). Numa manhã deveria ser apresentado o resultado da implementação de cada projeto, dando a palavra às equipas de consultores e às organizações beneficiárias.

Entrei na sala de aula e a palavra que emergiu de imediato no meu pensamento foi contraste. O silêncio de Janeiro dera lugar a um barulho saudável de gente que se reencontra e tem assunto para falar. Os olhares refletiam alegria e em maio foi já possível ver os rostos sem máscara. Os sorrisos sobretudo.

Um a um, cada pedido de apoio foi exposto, não no pedido, mas na sua resolução. Todos sem exceção. Seis entidades sociais que viram respondidos pedidos de apoio concretos com ferramentas à medida e replicáveis, com estratégias operacionalizáveis. Seis equipas de consultores que haviam dado do seu tempo e do seu saber. Todos investiram as 40h, ouso dizer que certamente mais por vontade própria. Todos os projetos terminaram com um “vamos continuar” já não tanto naquele apoio específico, mas em outros que surgiram, próprios de quem trabalha em conjunto, de quem se relaciona. A palavra obrigado surgiu de parte a parte, num realismo do que fora mais agradável e também mais exigente, até difícil. Ouvir o relato de quem vivera estes meses na primeira pessoa, consultores, entidades sociais e partners, se por um lado “encheu o coração”, por outro deu força à convicção que doing good and doing well é um caminho para empresas que se querem inovadoras e enquadradas na realidade do tempo presente.

Fica-nos à AESE, a obrigação (e gosto e interesse sobretudo!) de avaliar este módulo que acabou sendo uma experiência piloto de voluntariado de competências em prol do setor de economia social, no âmbito da Responsabilidade Social. Avaliar para poder replicar, porque não? O InSocialConsuting não está ainda formalmente concluído. Vai ser avaliado. Daqui a 6 meses faremos o follow up que permitirá analisar o impacto desta iniciativa. Pode ser que nessa altura volte a dedilhar algumas linhas.


[1] https://eurocid.mne.gov.pt/artigos/responsabilidade-social-1

[2] https://www.dgae.gov.pt/servicos/sustentabilidade-empresarial/responsabilidade-social-das-empresas.aspx

When it makes sense to be a billionaire

Eugenio Viassa Monteiro
Professor de Fator Humano na I.I.M.Rohtak (India)

Aumento dos preços: Precisamos de solidariedade estratégica em toda a cadeia agroalimentar

Gonçalo Santos Andrade
Presidente da Portugal Fresh e Diretor do programa de Direção de Empresas Agrícolas e Agroindustriais (GAIN)

‘Open’ technology can tackle the world‘s biggest problems – here’s what’s holding it back

World Economic Forum
Photo: REUTERS/Amit Dave/File Photo

¿Qué promueves en tu empresa?

Anneloes Raes
IESE insight

The Impact of the Coronavirus Pandemic on Supply Chains and Their Sustainability: A Text Mining Approach

Frontiers on COVID19

The gift and power of emotional courage

Susan David, Harvard Medical School psychologist