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AESE insight > Thinking Ahead

AESE insight #19

15 de outubro 2020

António Pita de Abreu

Presidente do Agrupamento de Alumni da AESE Business School
Alumnus do 1º PDE


A 25 de Junho de 2021 vamos realizar a 15ª Assembleia Alumni AESE. O tema será “Nova Economia para o Mundo e a Humanidade”.

Concebemo-la como um momento de abertura à reflexão sobre as causas para o estado em que nos encontramos enquanto sociedade organizada e as soluções a procurar.
As linhas de fratura do mundo de hoje…

Contra o Eclipse da Ética da Responsabilidade

A 25 de Junho de 2021 vamos realizar a 15ª Assembleia Alumni AESE.

O tema será “Nova Economia para o Mundo e a Humanidade”.

Concebemo-la como um momento de abertura à reflexão sobre as causas para o estado em que nos encontramos enquanto sociedade organizada e as soluções a procurar.

As linhas de fratura do mundo de hoje – a degradação critica do ambiente e dos recursos naturais, as desigualdades sociais, a ausência de cooperação, a falta de justiça e as falhas de liderança e de governança global – surgem, agora, expostas como nunca.
As crises que se vêm repetindo convocam-nos, individualmente e por dever ético, a assumir a responsabilidade de participar numa reinvenção. Um exercício que nos obriga a refletir com liberdade e abertura, sem ilusões nem demagogia, mas conscientes das dúvidas e sacrifícios que as mudanças de “estado de conforto” sempre trazem.

Dos muitos ângulos a analisar escolhemos quatro: “A Ecologia e a Ética”, “O Trabalho Humano”, “As Instituições: Estado, Empresa e Família” e “Ciência e Tecnologia”.

As questões e perplexidades são muitas.

A defesa do equilíbrio ecológico e a mitigação da emergência climática são prioritários. Mas como compatibilizá-las, sem hiatos, com a defesa de um edifício sociocultural que permita a justa felicidade do homem?

Na nova ética da vida na terra, que se julga necessária, haverá, julgo eu, que tratar do homem não apenas como um elemento “indistinto” de um grupo que partilha um conjunto de caraterísticas sociológicas ou económicas semelhantes. Há que assumir cada um como uma pessoa, um individuo único e irrepetível, com a sua própria e única circunstância, personalidade e idiossincrasia. Como consegui-lo?

Como equilibrar os direitos legais nacionais (Amazónia, Ártico, emissões poluentes) com a salvaguarda do bem de todos em todo o mundo?

O ritmo de ocupação do trabalho por máquinas (sejam elas inteligentes e com capacidade de aprendizagem ou apenas eficientemente incansáveis) será compatível com o ritmo de recapacitação dos trabalhadores humanos que elas substituirão?
Serão todos estes “recapacitáveis”?
Como garantir rendimento de subsistência aos novos “ociosos forçados”?
Que modelo de organização e governo das sociedades será necessário para garantir o reajuste do sistema socioeconómico, a redução das desigualdades sociais e de rendimentos, o progresso justo?

Que papel para o setor público e para a iniciativa privada na promoção da inovação e do desenvolvimento sustentável?

Como compatibilizar os interesses de Estados-Nação com os de Empresas-Transnacionais (Google, Microsoft, etc.)?

Como desacentuar as prioridades absolutas atuais, de lucro e bem-estar individual, por outras, inevitáveis, de maior partilha e bem comum?

Quem “ensinará” os novos skills comportamentais (criatividade, flexibilidade, adaptabilidade, etc.) que o mercado de trabalho exigirá, sendo que a redução das desigualdades depende muito da respetiva “difusão generalizada e democrática”? Serão as Escolas?
Ou serão as Famílias, como referiu o Prémio Nobel James Heckman?
E quem preparará as Famílias para o fazerem competentemente?

O mercado tem sido, até agora, o melhor sistema no que concerne ao desenvolvimento das atividades económicas. Mas nem tudo é economia. Tenho para mim que a excessiva enfase económica – a “economização” do mundo – prejudica a própria economia. O mercado e as empresas são fundamentais no nosso modelo social mas nem uma família é uma sociedade comercial nem as pessoas são apenas produtores e/ou clientes.
Muitas das coisas da vida, entre as quais as mais importantes – a amizade, a coragem, a lealdade, por exemplo – só se operam, aliás, gratuitamente.


Em tempos de “algoritmo triunfante”, na amargamente feliz expressão do Prof Antonio Damásio, e de anos sucessivos em que o treinamento dos dirigentes favoreceu a competição individual, a quantificação e a monetização, que mudanças de paradigmas de ensino serão necessárias para corrigir a rota?

Que elementos essenciais (que caraterísticas só existem nele) distinguem o homem dos outros seres vivos? E das “learning machines” dotadas de Inteligência artificial geral?
Como “defender” essas qualidades essenciais face à progressiva hibridização das pessoas por via da inclusão no seu corpo de próteses quer para fins terapêuticos quer para aumento das capacidades próprias?

Como lidar com o networking, tecnicamente provável, dessas próteses (logo das pessoas que as portam)?

Que novos negócios emergiram e já se encontram no terreno vivendo as novas condições?

Muitas perguntas, sem dúvida. Apenas algumas poderão ser endereçadas na Assembleia. Estou certo de que muitas receberão respostas complexas mas sensatamente otimistas.

Dizia Emily Dinkinson que ” O cérebro é mais amplo que o céu”. Será ou não.
Mas, como referiu há poucos dias a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von Leyden, “Cabe-nos fazer a mudança acontecer por desígnio e não por acaso ou decisão de outrem”.

#It´s up to us!

Pedro Afonso

Professor de Fator Humano na Organização na AESE Business School e Médico Psíquiatra


Existem sérios riscos de que o teletrabalho, realizado em regime exclusivo, possa causar danos à saúde psíquica. A dignidade da pessoa não pode ser espezinhada em nome de uma modernidade laboral.

O teletrabalho, por mais atraente e moderno que possa parecer, não se pode transformar numa nova idolatria. Existem vantagens e desvantagens que justificam uma melhor discussão pública.

Teletrabalho: a nova idolatria?

A situação de saúde pública, decorrente da pandemia, levou a que o regime de trabalho fosse alterado de forma abrupta e significativa. Subitamente, milhões de pessoas em todo o mundo ficaram em regime de teletrabalho. Volvidos vários meses, não se vislumbra o seu fim e existem muitas empresas que já assumiram que o teletrabalho veio para ficar. Porquê este entusiasmo súbito das empresas por este regime de trabalho à distância? Que mudanças individuais, sociais e empresariais irão ocorrer? Afinal, quem ganha e quem perde com o teletrabalho?


Comecemos pelas vantagens do teletrabalho. As empresas reduzem os custos operacionais (eletricidade, consumíveis, arrendamento de escritórios, deslocações dos empregados, etc.), diminuem o absentismo laboral, podem recrutar quadros qualificados que residem em locais distantes, nomeadamente no estrangeiro. A sociedade pode ter alguns ganhos ambientais, obtidos através da redução do trânsito e na melhoria da qualidade de vida nas cidades.  O povoamento do interior do país também é facilitado, pois a distância ao trabalho deixa de ser um entrave.


A nível pessoal, as vantagens do teletrabalho estão bem estudadas: permite uma maior flexibilidade e autonomia, facilitando (aparentemente) a conciliação trabalho-família. Os benefícios obtidos pela dispensa das deslocações pendulares trabalho-casa são relevantes e podem garantir para muitos uma poupança significativa de tempo e dinheiro. Trabalhar em casa também reduz significativamente as interrupções e distrações que ocorrem com frequência no local de trabalho e isso reflete-se num aumento da produtividade. Em vários estudos publicados, a maioria das pessoas que se encontram em teletrabalho referem, globalmente, uma maior satisfação e qualidade de vida.

Apesar disto, nem tudo é positivo. As desvantagens do teletrabalho são essencialmente três:

  1. desaparecimento dos limites entre o trabalho e a vida familiar;
  2. desligamento da cultura da empresa;
  3. isolamento social e o individualismo no trabalho.


O teletrabalho conduz ao desaparecimento dos limites entre o trabalho e a vida familiar, aumentando a possibilidade de surgirem situações abusivas por parte das empresas, já que a flexibilidade de horário rapidamente é confundida com “disponibilidade total de horário”. Outra possível situação abusiva prende-se com a pressão das empresas para que o trabalhador continue a trabalhar a partir de casa, mesmo estando numa situação de doença (incluindo doença dos filhos menores), mantendo-se a produtividade e reduzindo-se o absentismo.


O desligamento da cultura da empresa é um risco. A cultura empresarial e o espírito de trabalho em equipa só podem ser transmitidos e mantidos através do trabalho presencial. Não é possível criar e manter equipas coesas e solidárias sem que haja uma relação individual com os colegas e as chefias. Convém também referir, que as carreiras e as promoções dos funcionários que estão em teletrabalho podem ser severamente prejudicadas, pois muitas decisões de promoção não são baseadas apenas em números de produtividade. Estas decisões têm um componente emocional e são frequentemente baseadas na confiança pessoal que só o contacto presencial permite criar.


Finalmente, temos o isolamento social e o individualismo laboral.  O ser humano não vive apenas com outros, mas precisa de viver junto de outros. Nestes últimos meses fomos privados do contacto presencial com os colegas, amigos e familiares. Experimentamos o sofrimento de estarmos isolados e percebemos que o contacto virtual proporcionado pelas redes sociais e ferramentas eletrónicas (Zoom, WhatsApp, Facebook, etc.) é mais pobre e incompleto. Os dados publicados sobre este assunto mostram que a falta de contacto humano é a principal desvantagem reportada pelas pessoas que estão em teletrabalho. A privação do contacto social tem consequências, aumentando claramente o risco para doenças psiquiátricas, em particular a depressão. Existem sérios riscos de que o teletrabalho, realizado em regime exclusivo, possa causar danos à nossa saúde psíquica. Por conseguinte, a dignidade da pessoa não pode ser espezinhada em nome de uma modernidade laboral.


Este tema também apresenta uma dimensão política e social, devendo-se prevenir exageros. O teletrabalho pode fragilizar o desejável equilíbrio nas relações laborais entre empresas e trabalhadores, pois a tentação para abusos e posições totalitárias pelas empresas será grande. Os sindicatos têm um papel importante na promoção do bem comum, impedindo o excessivo “individualismo no trabalho” que esta nova modalidade laboral pode causar.


O teletrabalho, por mais atraente e moderno que possa parecer, não se pode transformar numa nova idolatria. Existem vantagens e desvantagens que justificam uma melhor discussão pública. Do meu ponto de vista, o teletrabalho não deve ser imposto. No caso de haver acordo entre as empresas e os trabalhadores, este deverá ser implementado preferencialmente num regime misto. Importa referir, que não é a sociedade quem concede os direitos humanos, mas são estes que pertencem às pessoas como algo próprio e inegociável.


Artigo publicado no Observador 

José Fonseca Pires

Responsável Académica e Professor de Fator Humano na Organização na AESE Business School


Gómez-Cantero, CEO da Clínica, descreve brevemente aspetos críticos que estiveram na base da gestão da crise pandémica nos seus Hospitais de Pamplona e Madrid.


Destaco alguns: 

Clínica de Navarra: pontos críticos na gestão da COVID-19

Gómez-Cantero, CEO da Clínica, descreve brevemente aspetos críticos que estiveram na base da gestão da crise pandémica nos seus Hospitais de Pamplona e Madrid.


Destaco alguns: *antecipar problemas interpretando os sinais que os anunciam; *interdependência de serviços clínicos e de apoio; *cuidado pela integridade física e mental do staff; *humanização de cuidados aos doentes e familiares; *promover a investigação e a ligação a equipas científicas; *liderança próxima e atuante…


Os resultados apresentados pela CUN (morbilidade e mortalidade de pacientes e de profissionais de saúde) demonstram que o know how e a sua aplicação fizeram a diferença na gestão da COVID-19.


IESE Insight Keys to confronting crises, from a hospital fighting COVID-19


Artigo publicado no IESE insight

Miguel Kreiseler

Managing Director da MVGM Portugal
Alumuns do 8º Executive MBA AESE/IESE


Alterações significativas em qualquer uma das componentes de remuneração pode ter um impacto impensável nos ecossistemas delicados que são os centros comerciais e consequentemente, pela sua representatividade, na economia do país.


Ao longo das últimas quatro décadas, os centros comerciais assumiram um papel essencial na vida dos visitantes, dos lojistas e dos proprietários.

Queremos viver sem centros comerciais?

Ao longo das últimas quatro décadas, os centros comerciais assumiram um papel essencial na vida dos visitantes, dos lojistas e dos proprietários. O anseio do Portugal pós integração na União Europeia de ter maior oferta de produtos e serviços em espaços modernos, confortáveis, convenientes e com um leque muito alargado de escolhas teve uma resposta clara nos centros comerciais. Estes espaços vieram responder às necessidades dos consumidores e em simultâneo, deram aos lojistas e a investidores nacionais e estrangeiros a possibilidade de expandir o seu negócio em novas áreas com grande adesão de clientes.


Esta transformação estrutural impulsionada pelos centros comerciais resultou em profundas alterações dos hábitos de compras, criando cada vez mais uma correlação positiva entre as compras e o lazer e transformou o ato de fazer compras numa das atividades quotidianas mais importantes para um número significativo de pessoas.


Pela sua própria natureza, os centros comerciais assumiram-se como uma solução na qual todos ganham: os visitantes pela comodidade, conveniência e escolha comparada com outros pontos de comércio; os lojistas pela oportunidade de negócio, volume de clientela e organização da oferta; os proprietários porque garantem retornos de longo prazo nos seus investimentos. Graças ao trabalho feito por todos os participantes neste mercado e pelas empresas que gerem os espaços, criou-se um cenário de win/win/win que assenta num delicado equilíbrio.


Qualquer decisão que afete este equilíbrio, nomeadamente a eliminação da componente fixa da renda, poderá no médio prazo conduzir ao declínio dos centros comerciais e afetar todos os envolvidos: em primeiro lugar e a curto prazo serão os proprietários a sofrer perdas importantes, mas inevitavelmente os lojistas e os clientes serão afetados. A economia, naturalmente, sofrerá também este impacto. Passamos de um paradigma de cooperação e equilíbrio, que no final proporciona ganhos a todas as partes, para um modelo de competição onde o propósito é obter vantagem sobre a outra parte, sem uma preocupação de futuro.


Esta não é a primeira crise com que o setor se depara. Nos anteriores momentos de enorme dificuldade, os intervenientes do mercado foram confrontados com a necessidade de encontrar soluções que garantam a sustentabilidade de todos e tornou-se evidente que a colaboração entre as partes é imprescindível. Na anterior crise económica, os apoios concedidos pelos Centros Comerciais aos lojistas foram essenciais para manter muitas lojas abertas, e atingiram um valor global a rondar os 400 milhões de euros. Durante esta crise provocada pela pandemia, os proprietários voltaram a conceder apoios e carências de remunerações ajustadas a cada caso e à realidade de cada lojista, atingindo já um nível muito semelhante aos apoios concedidos durante toda a crise anterior.


Um dos principais motivos de sucesso dos centros comerciais é o equilíbrio de risco e recompensa dado pelas remunerações fixas e variáveis, permitindo que os lojistas sejam incentivados a obter o maior sucesso possível e que através dessa performance excecional, os proprietários consigam obter um ganho adicional resultante da remuneração variável. Este equilíbrio funciona por oposição ao arrendamento tradicional, no qual o desempenho dos lojistas não tem relevância. Alterações significativas em qualquer uma das componentes de remuneração pode ter um impacto impensável nos ecossistemas delicados que são os centros comerciais e consequentemente, pela sua representatividade, na economia do país.


É por isso que devemos perguntar: “Queremos viver sem centros comerciais?” Nesta fase difícil, em que procuramos soluções para apoiar a economia e impedir uma crise prolongada, é essencial que a cooperação e a proteção dos interesses comuns esteja no cerne de todas as decisões tomadas, para evitar que a resposta a esta pergunta coloque em risco o futuro dos visitantes, dos lojistas e dos proprietários. O sucesso dos centros comerciais é sempre o sucesso dos seus lojistas.


Artigo publicado no Jornal de Negócios