AESE insight #71 > Thinking ahead

Aprender a Liderar com Madrid 2022

Maria de Fátima Carioca

Professora de Fator Humano na Organização e Dean da AESE Business School

Precedida de muita expectativa, decorreu no final do mês de junho a cimeira da NATO, em Madrid. Ao longo dos mais de dois dias que durou, Madrid terá sido palco de um momento histórico, ou, no mínimo, marcante, para não cair no exagero da afirmação. Na realidade, Madrid 2022 não apresentou nenhuma surpresa, mas pelo simples facto de estabelecer um novo Conceito Estratégico que orientará a ação da NATO no ambiente turbulento e complexo que enfrentamos hoje e nos próximos anos, já é, por si mesmo, digno de nota. Quantas empresas retomaram o negócio e as operações depois da pandemia sem parar 1 minuto que seja para refletir estrategicamente? Mas além disso, vale a pena aprofundar o documento e nele descobrimos ensinamentos igualmente inspiradores relacionados com estratégica, visão e liderança das organizações. Destaco 4+1.

Em primeiro lugar, na sequência do seu pedido de adesão formalizado em maio, a Suécia e a Finlândia têm hoje o caminho aberto para que, num futuro desejavelmente breve, se tornem membros de pleno direito da NATO. Por opção, ambos os países permaneceram sempre perto da NATO, mas sempre se recusaram a atravessar o limiar da plena participação. A pressão de Putin operou o milagre de reverter décadas de neutralidade, o que constitui uma mudança histórica na estratégia dos dois países.

Acolher estas duas democracias europeias seriamente preocupadas com uma ameaça muito próxima e real é, para além de uma questão de solidariedade, um dever moral. Para além disso são países que acrescentam valor e recursos à própria Aliança. Por isso, a Suécia e a Finlândia devem ser aceites de braços abertos. Porém, há que ter consciência das implicações desta adesão. Desde logo, o aumento, a curto prazo, da tensão entre a Rússia e o Ocidente e o deslocamento para norte do centro de gravidade da NATO. Obviamente, devido à sua iminência, o problema russo merece, neste momento, uma atenção prioritária. No entanto, este alargamento não deve servir para reduzir a sensibilidade a outros desafios a nível internacional. Pelo contrário, o resultado da adesão da Suécia e da Finlândia à NATO deve traduzir-se em mais segurança para todos e não menos.

1ª Conclusão: a capacidade de adaptação a novas realidades e a visão sistémica

Em segundo lugar, a Rússia ocupa, como se esperava, um lugar central na nova Estratégia. Em 2010, falava-se de cooperação entre a NATO e a Rússia. Hoje esse espírito cede lugar a uma linguagem de confronto aberto considerando a Rússia, sem ambiguidades, como a “ameaça mais significativa e direta” à segurança do espaço euro-atlântico, pela sua tentativa de estabelecer esferas de influência através da coação, agressão e anexação. O texto é enfático e claro na importância da defesa coletiva, a verdadeira razão de ser da NATO, ao afirmar a determinação para defender “cada centímetro” do território aliado.

2ª Conclusão: visão clarividente do contexto e prioridades alinhadas com a missão da organização

Em terceiro lugar, o imediatismo do desafio colocado pela guerra de Putin não apaga outras ameaças, como comprova a referência à natureza abrangente da segurança em todas as direções, de acordo com o conceito de “segurança 360º”. Daí que sejam abrangidos temas como a cibersegurança, o terrorismo, a fragilidade e a instabilidade no Médio Oriente e no Norte de África. Sem dúvida é um reconhecimento da realidade geopolítica que não se esgota na Europa, e muito menos a Norte. É muito positivo considerar a importância de um tratamento equilibrado que proporcione um nível de segurança semelhante a todos os países aliados, nomeadamente aos da Europa do Sul.

3ª Conclusão: visão abrangente e inclusiva, que atenda às necessidades de todos os que formam o ecossistema da organização.

Em quarto lugar, pela primeira vez, a China é também citada como um desafio. Mas com esta nova contribuição, talvez ainda mais importante seja o facto da NATO se abrir ao espaço Indo-Pacífico, assumindo um cenário mais amplo e parecendo disponível para cooperar com as democracias dessa região que, por acaso, ou nem por isso, estiveram presentes em Madrid.

4ª Conclusão: visão aumentada, que amplie e eleve o olhar à procura do futuro.

Por último, tratou-se de uma cimeira que mostra uma NATO revitalizada e comprometida num cenário estratégico exigente em que os riscos se multiplicam. Um desafio importante que exigirá medidas e ações concretas porque – todos sabemos, é assim também em todas as organizações – o sucesso da estratégia acontece com a implementação. Do conceito aos resultados, há um longo caminho que exigirá, desde logo, investimento e compromisso. Irão os países aliados, entre os quais Portugal, assumir o desafio? Seria bom, pois boas estratégias de cooperação internacional são provavelmente o princípio de um caminho mais eficaz para a paz assim como para muitos outras questões mundiais que a todos afetam, desde as alterações climáticas à pobreza. Veja-se, e aprenda-se, com o recente exemplo da pandemia.

Conclusão final: mais além da visão estratégica, a Liderança.

Se existe traço comum a todas as teorias sobre Liderança é a exigência de visão. Contudo, o tempo atual requer uma visão que olhe para a realidade de forma sistémica, clarividente, abrangente e inclusiva e uma visão aumentada que imagine as potencialidades do futuro.

E que a visão seja a alavanca para provocar na organização o pensamento crítico, a geração de ideias inovadoras, a cocriação de cenários, de forma aberta, transparente e partilhada, é condição indispensável para liderar em contextos em si mesmos complexos. Liderança é abrir horizontes pessoais e corporativos. É ousar adentrar-se no futuro para que o futuro se torne realidade. Haja ousadia!


Artigo publicado no Jornal de Negócios

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Jorge Ribeirinho Machado
Professor e Responsável Académico da Área de Operações, Tecnologia e Inovação da AESE Business School

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