AESE insight #57 > Thinking ahead

Outlook 2022

A visão da Área Académica de Economia e Finanças

Artigo de Diogo Ribeiro Santos, Professor de Finanças

1. Quais são as principais tendências a considerar no âmbito das Economia e Finanças para o ano 2022?

Inflação e bolhas. A inflação parece ter vindo para ficar a nível mundial. Existem várias explicações possíveis: aumento da procura das empresas e das famílias causada pela recuperação pós-Covid; estrangulamento das cadeias logísticas, que se debatem entre o just-in-time, os “stocks zero” e ao pico da procura; aumento da despesa pública, nomeadamente com apoios sociais; “inflação verde” (greenflation), ou seja, a procura de matérias-primas mais amigas do ambiente para conseguir a descarbonização ou a neutralidade carbónica. Estas tendências combinam-se para aumentar o custo das matérias-primas e os custos de transporte.

Existe também inflação no preço dos ativos financeiros, diretamente ligada aos programas de estímulo dos bancos centrais. Estes programas aumentaram a procura por títulos da dívida pública, cujo preço aumenta – em sentido inverso às rendibilidades ou yields – e os Estados corresponderam endividando-se massivamente. As injecções de dinheiro aumentaram a disponibilidade de crédito, levando a que investidores se endividassem para investir na bolsa. Ruchir Sharma, escrevendo no Financial Times, estima que a dimensão dos mercados financeiros seja quatro vezes a “economia real”[1].

Há bolhas de vários activos: criptomoedas, start-ups de sectores “tech” – veja-se o número crescente de unicórnios – e imobiliário. Sharma, no mesmo artigo, aponta elevada volatilidade, típica das bolhas, aos três primeiros: preços a duplicar em menos de um ano e quedas de 35% ou mais. Estas bolhas poderão rebentar ou esvaziar suavemente em 2022.

2. Que temas de impacto transversal deveriam ter um espaço importante na agenda da alta direção em 2022?

A transição digital deve ser uma preocupação central, não só pelos desafios que coloca ao modelo de negócio e à sobrevivência da empresa, como pela oportunidade que oferece à empresa de se reinventar e adquirir novas vantagens competitivas. Porém, vencer estes desafios e aproveitar estas oportunidades só estará ao alcance das empresas que garantam a literacia digital dos seus colaboradores. Mas, isto implica investimento em capital humano, que nunca é muito popular entre empresários e gestores de topo.

3. E que temas dentro do âmbito específico da Economia e Finanças vão requerer uma maior atenção das empresas?


O custo do capital – próprio e alheio – vai adquirir maior relevância. Desde logo, os investidores vão querer ser compensados pela perda do poder de compra quando se separam do seu capital. Isto significa um prémio de inflação a somar à taxa de juro. As taxas de juro nominais subirão, mesmo que as taxas de juro reais permaneçam baixas. As empresas endividadas ou que pretendam endividar-se devem esperar um maior custo de financiamento em 2022.

O custo do capital próprio também aumenta. Muitos dos activos que têm hoje muita procura estão fora das PME. Falamos de criptoactivos, de acções das empresas cotadas em bolsa, de activos imobiliários. Significa que a rendibilidade dos investimentos nas PME tem de competir com as rendibilidades desses activos. Esta comparação coloca-se seja para os novos investidores, seja para os actuais sócios, que têm de decidir se mantêm o seu património investido na empresa, se reforçam o investimento ou se preferem maiores rendibilidades.

Isto significa que as empresas têm de olhar atentamente para a rendibilidade dos projectos em que escolhem, de forma a garantir as rendibilidades pretendidas pelos seus investidores – bancos e sócios

Por outro lado, os empresários e gestores de topo têm de começar a olhar seriamente para os fundos europeus. Não se trata apenas dos 16.600 milhões de euros do PRR, mas também dos 11.200 do Portugal 2030 e dos 33.600 milhões do Quadro Financeiro Plurianual 2020-2027. São mais de 61.000 milhões de euros, durante os próximos 10 anos, para financiar oportunidades de crescimento, transformação e expansão. No entanto, a taxa de execução dos fundos europeus em Portugal ronda os 60%. 2022 é um excelente ano para começar a inverter essa tendência.

4.  3 atitudes / dicas / conselhos a ter em mente, enquanto líder, no próximo ano?


Não há crescimento sem financiamento. Aumentar vendas implica aumentar os activos da empresa, que têm de ser financiados entretanto.

Crescer sozinho significa, em regra, crescer devagar… e pouco. Abrir a empresa a investidores externos – bancos e novos sócios – significa partilhar risco e ganhar dimensão para investir mais.

O Covid é uma doença crónica, veio para ficar. Temos de aprender a viver com ele e não cruzar os braços, à espera de que a pandemia passe.


    [1] “Ten economic trends that could define 2022”, 3 de Janeiro de 2022.

    A visão das Áreas Académicas para 2022

    Comportamento Humano na Organização

    Artigo de José Fonseca Pires, Eduardo Pereira, Cátia Sá Guerreiro e Paulo Miguel Martins

    Política de Empresa

    Artigo de Adrián Caldart, Presidente do Conselho Académico e Responsável Académico de Política de Empresa da AESE Business School e Professor do IESE Business School

    Política Comercial e Marketing

    Artigo de Ramiro Martins, Professor e Responsável de Política Comercial e Marketing

    Operações, Tecnologia e Inovação

    Artigo de Jorge Ribeirinho Machado, Agostinho Abrunhosa, Joana Ogando e Nuno Biga

    Outros artigos desta edição

    A Chave para os Desafios do Novo Ano de 2022*

    Manuel Rodrigues, Docente de Finanças King’s College London e Conferencista na AESE

    Sector da Energia, que perspectivas para 2022

    Francisco Vieira, Diretor do Programa Advanced Management in Energy | AMEG