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AESE insight #50 > Thinking ahead

O que muda porque nós existimos…?

Cátia Sá Guerreiro

Professora de Fator Humano na Organização, Diretora Programa de Gestão das Organizações Sociais (GOS) e do Liderança no Feminino (OSA)

Avaliar é um termo corrente e amplo, cuja origem se perde no tempo. Na atualidade, mobilizamos o conceito de avaliação com naturalidade, mas nem sempre fazendo dele o uso mais adequado.

Considerando intervenções que preveem o desenvolvimento das comunidades onde ocorrem, não é recente a ideia da utilidade e pertinência de avaliar a sua eficiência e eficácia. Saber se os resultados previstos foram alcançados em prol do propósito da ação (eficácia), e com a melhor rentabilização de recursos (eficiência), são pilares estruturantes da avaliação das intervenções. Esta ideia é transversal aos mais variados setores de atividade, centrando-se a nossa reflexão no Setor de Economia Social.

Mais recentemente, outra questão se levanta para além da eficácia e eficiência das intervenções – o que muda na vida dos indivíduos/comunidades/populações por terem sido alvo de determinada intervenção?Chegamos ao conceito de impacto social, referido na literatura com uma panóplia vasta de definições. De forma consensual, podemos assumir que se trata do conjunto de “efeitos a longo prazo de uma intervenção de desenvolvimento, diretos ou indiretos, positivos e negativos, primários e secundários, intencionais ou não intencionais.”1 Em suma, importa avaliar os efeitos das intervenções, considerando que “efeito” é o que se obtém em consequência de algo/uma causa. Para quê avaliar o impacto das intervenções de desenvolvimento social?

Se recuarmos no tempo, podemos por exemplo fazer memória do sucedido a nível do apoio internacional. Depois de décadas de ajuda ao desenvolvimento, os principais problemas que afetam os países beneficiários dessa ajuda persistem: níveis elevados de pobreza, bem-estar reduzido, condições precárias de saúde e de educação, insegurança alimentar.2 Muito se foi investindo nos países frágeis, constatando-se porém que não se conseguia determinar a verdadeira contribuição para a melhoria da qualidade de vida dos mais pobres, levando a um ceticismo por parte de doadores e investidores, bem como da comunidade internacional. Quais são afinal os efeitos da ajuda que prestamos?

Em resposta a estas questões, emerge a importância da avaliação do impacto social. Aplicando ferramentas concretas, as quais devem ser adequadas à intervenção e à entidade a avaliar, é possível responder de forma mensurável à questão dos efeitos provocados. Determinar o impacto social possibilita por um lado saber que resposta estamos a dar às necessidades dos nossos beneficiários, e por outro disponibiliza informação para parceiros e investidores, potenciando laços de confiança. Mas os benefícios são ainda mais vastos – as entidades avaliadas ficam munidas de informação de suporte à tomada de decisão, em matérias de estratégia e planeamento. Viver sem estratégia é sobreviver, algo que não queremos para as nossas instituições. Finalmente, contribui para a promoção da cultura organizacional e para o sentimento de pertença por parte de funcionários e colaboradores – sabendo para que trabalham, e com que efeitos, poderão aderir de forma mais motivada aos desafios quotidianos.

Por tudo isto, é de salutar a promoção de uma cultura de avaliação a nível institucional. Sabermos quem somos, o que fazemos, para quem e com que impacto promove a coesão e determinação para o propósito ou missão. Esta cultura de avaliação deve ser vivida desde o topo – passar por um processo de avaliação de impacto social é uma decisão de liderança de topo, embora envolva toda a entidade/equipa. Porém deve ser vivida também pela base. Se cada um dos funcionários e colaboradores, em qualquer função (e na firme convicção da importância de cada uma) se questionar sobre o que muda na vida dos beneficiários porque são alvo de uma intervenção concreta, estará a contribuir para esta cultura.

A resposta à crise, e não estamos nós numa crise pandémica marcada pela incerteza, carecendo de uma resposta em cada dia?, passa também por sermos capazes de avaliar o que fazemos e que mudança efetiva provocamos.

Ousemos questionar: o que muda porque eu/nós existo/existimos…?


Publicado pela Fundação CEBI


  • Impact Evaluation in UN Agency Evaluation Suystems: Guidance on Selection, Planning and Management, pág. 6. In Sensibilização para a avaliação de Impacto Social. CASES – Cooperativa António Sérgio para a Economia Social, https://www.cases.pt/programas/sensibilizacao-para-a-avaliacao-de-impacto-social/.
  • Camões – Instituto da Cooperação e da Língua. Avaliação do Impacto: Breve Introdução. Documento de Trabalho no 1/13.

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